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Fumar maconha na adolescência aumenta risco de psicose, ansiedade e depressão na vida adulta, diz estudo

Pesquisadores acompanharam jovens por quase uma década e apontam impacto direto no cérebro ainda em desenvolvimento

  • Foto do(a) author(a) Agência Einstein
  • Agência Einstein

Publicado em 24 de abril de 2026 às 09:33

Entenda se você está mais propenso a usar maconha
Entenda se você está mais propenso a usar maconha Crédito: Reprodução

Adolescentes que usam cannabis têm risco significativamente maior de desenvolver transtornos psiquiátricos na vida adulta jovem. Essa é a conclusão de um amplo estudo publicado no JAMA Health Forum, que acompanhou 463.396 jovens entre 13 e 17 anos ao longo de quase uma década. Os pesquisadores identificaram que o uso da substância esteve associado ao dobro do risco de diagnóstico de transtornos psicóticos e bipolares, além de depressão e ansiedade.

A partir de dados de prontuários eletrônicos de consultas pediátricas realizadas entre 2016 e 2023, a equipe acompanhou os voluntários até os 25 anos. Em média, eles começaram a consumir maconha cerca de dois anos antes de receber o diagnóstico de algum transtorno psiquiátrico. “Esse é um estudo bastante robusto. Acompanhar 463 mil adolescentes ao longo do tempo nos ajuda a entender melhor o funcionamento do adoecimento mental. Estudos desse porte ainda são raros”, afirma o psiquiatra Gabriel Okuda, do Einstein Hospital Israelita.

Uso recreativo de maconha por Shuttertock

O período entre a adolescência e os 25 anos ainda é marcado pelo desenvolvimento cerebral. “A região que amadurece mais tardiamente é o córtex pré-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, tomada de decisões e regulação emocional”, explica Okuda. Mas é justamente nessa fase que muitos jovens entram em contato com substâncias que atuam diretamente nessas áreas. O resultado pode ser uma maior vulnerabilidade a alterações emocionais e comportamentais. “O uso de drogas nesse período pode gerar disfunções nessas conexões cerebrais, aumentando a chance de sintomas como impulsividade, instabilidade de humor e dificuldade de decisão”, alerta o psiquiatra.

A pesquisa aponta uma forte associação entre o uso de maconha e transtornos psicóticos e bipolares, o que também é observado na prática clínica. “A gente vê isso com frequência no consultório e nos hospitais. Ainda existe uma ideia de que a cannabis é ‘natural’, é uma planta e, portanto, não faz mal. Mas isso não é verdade, especialmente quando falamos de adolescentes”, frisa o médico do Einstein.

Uma das hipóteses para explicar essa relação envolve o tetrahidrocanabinol (THC), principal composto psicoativo da cannabis. “Ele pode aumentar indiretamente a liberação de dopamina em determinadas regiões do cérebro, e o excesso de dopamina está associado ao surgimento de sintomas psicóticos”, detalha Gabriel Okuda. Além disso, indivíduos com predisposição genética para transtornos como esquizofrenia ou bipolaridade podem ter esses quadros desencadeados mais precocemente com o uso da substância.

Outro fator que pode explicar essa associação é a maior potência dos produtos à base de cannabis disponíveis atualmente. Em geral, os níveis médios de THC na planta são em torno de 20%, mas há formulações que podem ser superiores a 95%. “Hoje temos concentrações de THC muito maiores do que no passado, o que potencializa os efeitos no cérebro e os riscos”, observa o médico.

Depressão e ansiedade

O trabalhou associa o uso de maconha a um maior risco de depressão e ansiedade. “Existe uma relação bidirecional. Jovens que já estão ansiosos ou deprimidos podem recorrer à cannabis como forma de alívio, mas a substância também pode alterar neurotransmissores e piorar o humor e a ansiedade”, afirma Okuda. De acordo com o psiquiatra, episódios de crise de pânico após o consumo não são incomuns, sobretudo entre adolescentes.

Outro ponto observado pelos pesquisadores é que, com o avançar da idade, a associação entre cannabis e quadros de depressão e ansiedade perde força. Isso se deve, possivelmente, ao próprio amadurecimento cerebral. “Quanto mais velho, menor a vulnerabilidade, porque o cérebro já está mais desenvolvido”, pontua o psiquiatra. Mudanças no padrão de uso da substância ao longo do tempo e a influência de outros fatores da vida adulta, como estresse financeiro, trabalho e relações pessoais, também podem ajudar a explicar essa redução.

Apesar disso, o impacto do consumo na adolescência pode deixar marcas. Há evidências de que quanto mais cedo ocorre o contato com a maconha, maior o risco de dependência e prejuízos cognitivos, como piora da memória, da atenção e do foco. “Essas alterações podem comprometer o desempenho escolar e ter reflexos na vida profissional no futuro. Isso acaba limitando o desenvolvimento do indivíduo e suas oportunidades ao longo da vida”, comenta o médico.

Os responsáveis precisam prestar atenção aos sinais de alerta, que costumam aparecer primeiro no comportamento. Isolamento social, queda no rendimento escolar, perda de interesse por atividades habituais, irritabilidade e mudanças bruscas de humor são sinais importantes que não devem ser ignorados. Outros sintomas mais intensos, como crises de ansiedade, tristeza persistente ou até sinais psicóticos, como ouvir vozes ou apresentar ideias paranoides, exigem atendimento médico imediato.

Não espere o agravamento do quadro. “Muitas vezes, o jovem tem dificuldade ou vergonha de falar sobre o uso dessas substâncias com os pais, o que atrasa o diagnóstico. Por isso, ao perceber mudanças, é importante abrir espaço para diálogo e procurar ajuda. Quanto antes conseguirmos descobrir o problema, melhor a gente consegue cuidar”, conclui o médico do Einstein.