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Implantes hormonais: por que ninguém fala dos riscos de complicações graves e da dificuldade de reversão

Popularizados como solução para menopausa, estética e bem-estar, os chamados pellets hormonais reacendem debate sobre segurança, abuso e efeitos de longa duração

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 23 de maio de 2026 às 07:00

Implante hormonal
Implante hormonal Crédito: Divulgação

Os implantes hormonais, conhecidos como “pellets”, voltaram ao centro do debate médico e das redes sociais após relatos recentes de pacientes que enfrentaram complicações graves associadas ao uso dessas terapias. Casos envolvendo trombose, lesão renal e internações em UTI reacenderam questionamentos sobre terapias frequentemente divulgadas como soluções para menopausa, libido, estética, emagrecimento e longevidade.

De acordo com o endocrinologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), Ramon Marcelino, o problema vai além da existência dos implantes em si. A principal preocupação está no uso cada vez mais disseminado dessas terapias, muitas vezes fora de indicações clássicas, e na dificuldade de interromper seus efeitos em caso de complicações. Os implantes hormonais consistem em pequenos cilindros inseridos sob a pele, responsáveis pela liberação gradual de substâncias como testosterona, estradiol e gestrinona por períodos que podem variar entre seis e nove meses.

Implante hormonal por Divulgação

Para o especialista, o debate sobre os pellets hormonais precisa fugir dos extremos. “Seria simplista transformar os implantes nos grandes vilões dessa história. A via de administração, por si só, não é o problema”, afirma. Segundo Marcelino, os implantes podem ter aplicações legítimas em contextos específicos, com doses adequadas e acompanhamento rigoroso. “O que saiu do controle foi o abuso da ferramenta.”

O risco que permanece no corpo

O médico explica que, diferentemente de um gel, adesivo ou comprimido, que pode ser suspenso imediatamente, o implante continua liberando hormônios por meses. E é justamente essa dificuldade de reversão que mais preocupa especialistas. Nos implantes absorvíveis, não há retirada imediata possível. Já nos inabsorvíveis, mesmo com remoção cirúrgica, parte do hormônio já foi liberada no organismo.

“O manejo acaba sendo controlar as consequências clínicas até que o efeito hormonal diminua. Por isso, a irreversibilidade parcial desse tratamento precisa entrar mais claramente na discussão”, afirma o endocrinologista. Segundo o médico, terapias reversíveis deveriam ser priorizadas antes da indicação de um pellet hormonal, especialmente em mulheres que nunca utilizaram reposição hormonal anteriormente.

“As vias transdérmicas, como géis e adesivos, permitem ajuste fino de dose e interrupção rápida caso necessário. Isso oferece uma margem de segurança muito maior”, diz. Para o endocrinologista, a escolha de um pellet hormonal deveria ser encarada como um compromisso de longa duração. “Antes de optar por uma terapia que permanece meses no organismo, vale testar alternativas mais seguras e reversíveis.”

De tratamento específico a tendência estética

Embora o tema tenha ganhado força recentemente, os implantes hormonais não são novidade: seu uso clínico começou a se expandir a partir da década de 1940, principalmente no tratamento de sintomas da menopausa. Nos Estados Unidos, pellets de testosterona foram aprovados pelo FDA em 1972 para tratamento de hipogonadismo masculino. No Reino Unido, implantes de estradiol também chegaram a ser incorporados em contextos específicos da terapia hormonal da menopausa.

A diferença, segundo Ramon Marcelino, está na forma como a terapia é utilizada. “No cenário britânico, os implantes costumam ser reservados para situações excepcionais, como pacientes com falha terapêutica, baixa adesão ou dificuldade de absorção por outras vias. Eles não são considerados primeira escolha”, explica.

No Brasil, porém, o endocrinologista observa um crescimento acelerado do uso dos pellets associado a promessas estéticas, melhora de libido, emagrecimento e antienvelhecimento, muitas vezes sem respaldo científico robusto. “Existe hoje uma banalização do uso de testosterona e gestrinona em mulheres, frequentemente em doses suprafisiológicas e combinações pouco estudadas”, afirma.

Outro ponto de preocupação é que muitas pacientes sequer sabem que estão sendo submetidas a terapias off-label, ou seja, fora das indicações previstas em bula. “O uso off-label pode existir na medicina, mas exige consentimento esclarecido, acompanhamento rigoroso e discussão franca sobre riscos e limitações”, reforça o especialista.

Apesar das críticas ao uso indiscriminado, os pellets continuam sendo estudados pela comunidade científica. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, pesquisas avaliam farmacocinética, farmacodinâmica e segurança de implantes absorvíveis tanto para homens com hipogonadismo quanto para mulheres na menopausa. “O problema não é discutir ciência. O problema é transformar uma terapia de exceção em tendência”, conclui Ramon Marcelino.