Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Agência Einstein
Publicado em 28 de maio de 2026 às 08:58
A cor da pele ainda influencia o risco de morrer durante a gestação no Brasil. Um novo estudo nacional mostra que, entre 2000 e 2020, foram registradas 40.907 mortes maternas, sendo que quase 60% ocorreram entre mulheres pretas e pardas. Publicado em janeiro no International Journal of Environmental Research and Public Health, o trabalho revela que elas têm quase o dobro de risco de morte em relação às brancas, evidenciando desigualdades na assistência à saúde. >
Apesar de avanços, a mortalidade materna no país continua alta e marcada por diferenças raciais, sociais e regionais. “Já havia evidências de maior risco entre mulheres pretas e pardas, mas queríamos avaliar se essa diferença estava diminuindo com o passar dos anos. Observamos que essas desigualdades persistem, mostrando que não se trata apenas de um problema assistencial, mas também estrutural”, relata a enfermeira Giovana Aparecida Gonçalves Vidotti, professora orientadora de mestrado e doutorado no departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autora do estudo.>
A mortalidade materna considera as mortes de mulheres durante a gestação ou até 42 dias após o término da gravidez, quando relacionadas a causas ligadas ao período gestacional. No Brasil, apesar da melhora após o pico observado na pandemia de Covid-19, os índices ainda variam significativamente entre regiões e grupos populacionais. A meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é reduzir esse indicador para até 70 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030. Em 2024, esse índice no Brasil foi de 57 mortes por 100 mil nascidos vivos.>
De acordo com o estudo, as principais causas de mortalidade materna nas duas décadas analisadas foram condições obstétricas mal definidas (29,9% dos casos), seguidas por hipertensão na gravidez (21,3%), complicações do parto (15,2%) e no período pós-parto (13,2%). Já os abortos correspondem a 7,8% dos óbitos maternos. Quase metade das mortes ocorreu no pós-parto imediato (até 42 dias após o fim da gestação), período que concentrou 46,9% dos óbitos.>
Essas condições, em grande parte, poderiam ser evitadas. “A mortalidade materna continua sendo um importante indicador da qualidade da assistência à saúde e das condições sociais de um país. No Brasil, apesar de avanços, os níveis permanecem elevados e desiguais”, avalia a ginecologista e obstetra Ana Paula Beck, do Einstein Hospital Israelita.>
Pretas e indígenas>
Entre os achados mais preocupantes do estudo está o risco significativamente maior entre mulheres negras e indígenas. De acordo com a pesquisa, indígenas apresentam mortalidade materna mais de duas vezes superior do que a observada entre mulheres brancas. Essas diferenças estão diretamente relacionadas ao racismo estrutural. “Ele se manifesta desde o acesso aos serviços até a qualidade do atendimento recebido. Na prática, significa que muitas vezes essas mulheres têm suas queixas menos valorizadas e enfrentam estereótipos e abordagens inadequadas”, observa Beck.>
Para Vidotti, o resultado chama atenção pela persistência. “Isso reflete a sobreposição de fatores sociais, como menor acesso a serviços de saúde de qualidade e início tardio do pré-natal. Além disso, o racismo estrutural e institucional influencia diretamente no acolhimento e no manejo clínico dessas pacientes”, destaca. Entre as principais falhas estão o acesso inadequado ao pré-natal, dificuldade na identificação precoce de riscos e problemas no encaminhamento para serviços de maior complexidade.>
Embora a cobertura de pré-natal no Brasil seja alta, a qualidade desse acompanhamento ainda é um desafio no sistema público. Ele deveria incluir pelo menos uma consulta por mês até a gestação completar 28 semanas. Até a 36ª semana, os atendimentos deveriam ser quinzenais e, depois, semanais até o momento do parto. No total, seriam em torno de 15 a 16 consultas — no Sistema Único de Saúde (SUS), porém, o pré-natal inclui cerca de oito consultas. Além disso, muitas gestantes não realizam todos os exames recomendados ou iniciam o acompanhamento tardiamente. Somam-se a isso questões estruturais, com falta de profissionais e equipamentos, além de problemas de infraestrutura urbana, como falta de transporte público.>
Fatores econômicos e sociais pioram esse cenário. De acordo com o estudo, a baixa escolaridade está associada a maior risco de morte materna porque as mulheres com menos anos de estudo têm mais dificuldade de acesso a serviços, informação e condições adequadas de cuidado. Regiões mais vulneráveis, como Norte e Nordeste, concentram os piores indicadores. “Os próximos passos da pesquisa envolvem aprofundar a análise dos dados para auxiliar na formulação de políticas públicas mais eficazes”, conta Giovana Vidotti.>