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Mariana Rios
Publicado em 13 de maio de 2026 às 03:30
Quem nunca comeu um salgado suspeito na rua e depois passou a madrugada “abraçado” ao vaso sanitário? Pois os cientistas acabam de descobrir que a famosa salmonela — velha conhecida das intoxicações alimentares — tem um arsenal potente para sobreviver, competir e atacar. >
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram 45 novas toxinas produzidas por bactérias do gênero Salmonella, ampliando o mapa de armas 'microscópicas' usadas por esses microrganismos para disputar espaço e, potencialmente, afetar humanos.>
A descoberta foi feita por cientistas do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos e publicada na revista científica PLOS Biology. Na prática, o estudo mostra que a salmonela trabalha equipada com diferentes armas químicas para vencer as batalhas invisíveis no ambiente.>
Os pesquisadores analisaram mais de 6 mil amostras de bactérias e identificaram 128 tipos de toxinas — 45 delas totalmente novas para a ciência ou muito diferentes das já conhecidas.>
E não, isso não significa que surgiram 45 novas doenças prontas para atacar a humanidade. Segundo os cientistas, boa parte dessas toxinas serve para a bactéria competir com outros microrganismos por comida, território e sobrevivência. É tipo condomínio bacteriano: quem tiver mais armas, domina o espaço.>
Para atacar rivais, a salmonela utiliza um mecanismo chamado Sistema de Secreção Tipo VI, uma estrutura comparada pelos pesquisadores a uma lança microscópica capaz de injetar toxinas em outras células.>
Algumas dessas substâncias atingem apenas outras bactérias. Outras, porém, podem interagir com organismos mais complexos — incluindo fungos, algas e até células de mamíferos.>
“É possível que algumas tenham papel direto em infecções humanas”, explica o pesquisador Robson Francisco de Souza, um dos autores do estudo. Mas ele ressalta que ainda são necessários testes laboratoriais para confirmar isso. As informações foram publicadas pela Agência Fapesp.>
"Esse resultado implica que a diversidade no mundo de toxinas e antitoxinas bacterianas é muito alta, com novas variedades surgindo ou divergindo radicalmente das variantes aparentadas já conhecidas", afirma.>
O estudo também mostra que diferentes tipos de salmonela carregam combinações próprias de toxinas, como se cada linhagem montasse seu próprio kit de sobrevivência dependendo do ambiente onde vive.>
Bactérias encontradas na natureza, por exemplo, costumam ter um arsenal maior do que as isoladas em pacientes. O motivo é simples: quanto mais concorrência no ambiente, maior a necessidade de desenvolver novas estratégias de ataque e defesa.>
Além de ajudar a entender melhor como surgem infecções alimentares, a descoberta pode abrir caminho para novos antibióticos, terapias e aplicações biotecnológicas no futuro.>
Os cientistas explicam que muitas moléculas úteis para a medicina moderna surgiram originalmente em bactérias. Ou seja: até uma bactéria famosa por estragar churrasco, maionese e PF de procedência duvidosa pode esconder pistas importantes para novos tratamentos.>
Enquanto isso, segue valendo a regra de ouro: comida mal armazenada, ovo cru, maionese no sol e higiene duvidosa continuam sendo convite aberto para alguns integrantes dessa “grande família” aparecerem no organismo.>