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O 'arsenal' secreto da salmonela: cientistas descobrem 45 novas toxinas da bactéria por trás das infecções alimentares

Pesquisa mostra que a bactéria possui um conjunto de 'armas microscópicas' muito mais complexo do que se imaginava

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Mariana Rios

Publicado em 13 de maio de 2026 às 03:30

Pesquisadores da USP descobriram 45 novas toxinas produzidas por bactérias do gênero Salmonella
Pesquisadores da USP descobriram 45 novas toxinas produzidas por bactérias do gênero Salmonella Crédito: DC/Wikimedia Commons/Agência Fapesp

Quem nunca comeu um salgado suspeito na rua e depois passou a madrugada “abraçado” ao vaso sanitário? Pois os cientistas acabam de descobrir que a famosa salmonela — velha conhecida das intoxicações alimentares — tem um arsenal potente para sobreviver, competir e atacar. 

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram 45 novas toxinas produzidas por bactérias do gênero Salmonella, ampliando o mapa de armas 'microscópicas' usadas por esses microrganismos para disputar espaço e, potencialmente, afetar humanos.

A descoberta foi feita por cientistas do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos e publicada na revista científica PLOS Biology. Na prática, o estudo mostra que a salmonela trabalha equipada com diferentes armas químicas para vencer as batalhas invisíveis no ambiente.

Os pesquisadores analisaram mais de 6 mil amostras de bactérias e identificaram 128 tipos de toxinas — 45 delas totalmente novas para a ciência ou muito diferentes das já conhecidas.

E não, isso não significa que surgiram 45 novas doenças prontas para atacar a humanidade. Segundo os cientistas, boa parte dessas toxinas serve para a bactéria competir com outros microrganismos por comida, território e sobrevivência. É tipo condomínio bacteriano: quem tiver mais armas, domina o espaço.

'Lança microscópica'

Para atacar rivais, a salmonela utiliza um mecanismo chamado Sistema de Secreção Tipo VI, uma estrutura comparada pelos pesquisadores a uma lança microscópica capaz de injetar toxinas em outras células.

Algumas dessas substâncias atingem apenas outras bactérias. Outras, porém, podem interagir com organismos mais complexos — incluindo fungos, algas e até células de mamíferos.

“É possível que algumas tenham papel direto em infecções humanas”, explica o pesquisador Robson Francisco de Souza, um dos autores do estudo. Mas ele ressalta que ainda são necessários testes laboratoriais para confirmar isso. As informações foram publicadas pela Agência Fapesp.

"Esse resultado implica que a diversidade no mundo de toxinas e antitoxinas bacterianas é muito alta, com novas variedades surgindo ou divergindo radicalmente das variantes aparentadas já conhecidas", afirma.

O 'multiverso' da salmonela

O estudo também mostra que diferentes tipos de salmonela carregam combinações próprias de toxinas, como se cada linhagem montasse seu próprio kit de sobrevivência dependendo do ambiente onde vive.

Bactérias encontradas na natureza, por exemplo, costumam ter um arsenal maior do que as isoladas em pacientes. O motivo é simples: quanto mais concorrência no ambiente, maior a necessidade de desenvolver novas estratégias de ataque e defesa.

O que isso muda na vida real?

Além de ajudar a entender melhor como surgem infecções alimentares, a descoberta pode abrir caminho para novos antibióticos, terapias e aplicações biotecnológicas no futuro.

Os cientistas explicam que muitas moléculas úteis para a medicina moderna surgiram originalmente em bactérias. Ou seja: até uma bactéria famosa por estragar churrasco, maionese e PF de procedência duvidosa pode esconder pistas importantes para novos tratamentos.

Enquanto isso, segue valendo a regra de ouro: comida mal armazenada, ovo cru, maionese no sol e higiene duvidosa continuam sendo convite aberto para alguns integrantes dessa “grande família” aparecerem no organismo.

Tags:

Saúde Pesquisa Alimentação Bactéria