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Perla Ribeiro
Publicado em 8 de junho de 2026 às 14:05
Uma pesquisa internacional acaba de trazer novas evidências de que o relógio biológico presente nas células do fígado desempenha um papel central na progressão da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH, na sigla em inglês), uma das formas mais graves da doença hepática gordurosa metabólica, condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e está intimamente relacionada à obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica. >
O estudo, publicado na revista científica Cellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology (CMGH), investigou o que acontece quando o gene BMAL1, considerado um dos principais reguladores do relógio circadiano, é removido especificamente dos hepatócitos, as principais células responsáveis pelas funções metabólicas do fígado.>
Gordura no fígado pode ser grave
Os resultados mostram que a perda desse mecanismo temporal compromete profundamente o funcionamento metabólico do órgão e acelera processos associados à inflamação e à fibrose hepática, características que marcam a evolução da doença para estágios mais severos.>
Segundo os pesquisadores, o trabalho reforça a crescente percepção de que o relógio biológico é um componente essencial da saúde metabólica. "Os dados demonstram que o relógio circadiano dos hepatócitos não apenas organiza processos metabólicos diários, mas também protege o fígado contra alterações que favorecem a progressão da doença", explica Dr. Leonardo de Assis, brasileiro e primeiro autor do estudo.>
Quando o relógio do fígado perde o ritmo >
Para compreender o papel do relógio biológico hepático, os pesquisadores utilizaram modelos experimentais nos quais o gene BMAL1 foi removido exclusivamente dos hepatócitos. Os animais foram acompanhados sob dieta padrão e também sob uma dieta capaz de induzir MASH.>
Mesmo em condições normais, a ausência do gene foi suficiente para alterar o comportamento temporal de milhares de genes envolvidos em funções metabólicas. Os cientistas observaram perda de amplitude e mudanças de fase nos ciclos de expressão gênica, indicando que a coordenação temporal do fígado ficou significativamente comprometida. No entanto, os efeitos mais expressivos surgiram quando os animais foram submetidos à dieta que induz MASH.>
Colesterol emerge como protagonista >
Um dos principais achados da pesquisa foi a identificação de alterações específicas em vias relacionadas ao metabolismo do colesterol hepático. Nos animais que perderam o relógio circadiano hepático, diversos genes responsáveis pela captação, transporte e degradação do colesterol apresentaram comportamento alterado. Como consequência, ocorreu um acúmulo significativo desse lipídeo no fígado; contudo, não houve alteração nos níveis de colesterol sérico.>
Os pesquisadores destacam que o colesterol hepático vem sendo cada vez mais reconhecido como um fator importante na progressão da MASH, contribuindo para processos inflamatórios e para o desenvolvimento de lesões hepáticas. A descoberta sugere que a função do relógio biológico pode ser particularmente relevante para manter o equilíbrio do metabolismo do colesterol e evitar que esse acúmulo contribua para o agravamento da doença.>
Mais inflamação e mais fibrose >
Além do aumento do colesterol hepático, os animais sem BMAL1 em seus hepatócitos apresentaram níveis mais elevados de inflamação e fibrose quando expostos à dieta indutora de MASH. A fibrose corresponde ao processo de cicatrização excessiva do tecido hepático e representa um dos principais fatores associados à progressão para insuficiência hepática, cirrose e aumento do risco de câncer de fígado. Segundo os autores, os resultados indicam que o relógio circadiano dos hepatócitos exerce um papel protetor durante o desenvolvimento da doença, ajudando a limitar mecanismos que levam ao dano hepático crônico.>
Uma nova interação molecular >
Outro destaque do estudo foi a identificação de uma possível interação inédita entre BMAL1 e o fator de transcrição ChREBP, uma proteína conhecida por controlar genes envolvidos no metabolismo de glicose e lipídios. Análises bioinformáticas sugeriram que ambos os reguladores exercem funções opostas em diferentes programas metabólicos. Para testar essa hipótese, os cientistas realizaram experimentos complementares em laboratório.>
Os resultados mostraram que a redução da atividade de ChREBP está associada à diminuição da síntese de gordura, confirmando observações anteriores da literatura científica. Já a redução de BMAL1 levou ao aumento dos níveis de colesterol celular, um efeito até então pouco explorado e que pode ajudar a explicar a maior gravidade observada nos modelos de doença hepática.>
Evidências também em pacientes >
Para avaliar se os resultados observados nos modelos experimentais tinham relevância clínica, os pesquisadores analisaram amostras hepáticas de pacientes humanos. A comparação revelou que indivíduos diagnosticados com MASH apresentavam alterações importantes no sincronismo circadiano do fígado quando comparados a pacientes que possuíam apenas esteatose hepática, estágio inicial caracterizado pelo acúmulo de gordura sem inflamação significativa.>
A observação reforça a hipótese de que a disfunção do relógio biológico não é apenas uma consequência da doença, mas pode participar ativamente de sua progressão.>
Novos caminhos terapêuticos >
A doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica tornou-se um dos principais desafios de saúde pública das últimas décadas. Estima-se que a condição afete cerca de um terço da população adulta em diversos países, impulsionada pelo aumento global da obesidade e do diabetes.>
Nesse contexto, os resultados abrem perspectivas para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas capazes de restaurar ou modular o funcionamento do relógio circadiano hepático. “Compreender como o relógio hepático influencia processos metabólicos pode contribuir para novas abordagens de prevenção e tratamento da MASH, uma doença para a qual ainda existem opções terapêuticas limitadas”, complementa de Assis.>
O trabalho representa o projeto final de pós-doutorado de Leonardo de Assis na University of Lübeck, que envolveu a colaboração de pesquisadores da universidade alemã, da Charité – Universitätsmedizin Berlin e de diferentes grupos de pesquisa clínicos e experimentais especializados em metabolismo, hepatologia e cronobiologia. Atualmente de Leonardo de Assis é professor na Universidade de Gotemburgo, Suécia.>