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Usa água de poço artesiano? Estudo alerta para contaminação invisível em grandes cidades brasileiras

Caso em metrópole brasileira expõe problema que pode afetar outras regiões urbanas do país, com poços irregulares e áreas industriais contaminadas

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Mariana Rios

Publicado em 12 de maio de 2026 às 17:27

Uso crescente de água subterrânea em grandes cidades brasileiras pode estar associado a riscos de contaminação difíceis de monitorar
Uso crescente de água subterrânea em grandes cidades brasileiras pode estar associado a riscos de contaminação difíceis de monitorar Crédito: Sutterstock

Um estudo científico acende um alerta: o uso crescente de água subterrânea em grandes cidades brasileiras pode estar associado a riscos de contaminação difíceis de monitorar, especialmente em áreas industriais antigas ou em processo de reurbanização.

A pesquisa mostra que em São Paulo, onde há histórico de atividade industrial, substâncias tóxicas podem persistir no solo e alcançar aquíferos usados para abastecimento, cenário que pode se repetir em diferentes centros urbanos do país.

Com cerca de 22 milhões de habitantes, a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. A região consome, em média, 61,6 mil litros de água por segundo. Embora a maior parte venha de mananciais superficiais, cerca de 18% do abastecimento depende de aquíferos — uma realidade que também se observa em outras grandes cidades brasileiras, onde a perfuração de poços privados cresce como alternativa diante da pressão sobre os sistemas públicos. 

Clubes, condomínios, indústrias e hospitais figuram entre os principais consumidores do recurso subterrâneo, aponta o estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do Brasil, e assinado por Daphne Silva Pino e colaboradores. Os pesquisadores examinam o quadro brasileiro, com foco especial na Região Metropolitana de São Paulo. 

O problema, segundo o estudo publicado na revista Environmental Earth Sciences, é que boa parte desses poços opera sem controle: dois terços não estão formalmente cadastrados. Isso dificulta qualquer avaliação sobre a qualidade da água consumida.

Além disso, muitos desses poços foram perfurados em áreas que já abrigaram indústrias e hoje passam por transformação urbana — um processo comum em metrópoles de todo o país. Nessas regiões, o solo pode estar contaminado por resíduos antigos, especialmente solventes químicos usados na limpeza de máquinas.

Entre os principais contaminantes estão o percloroetileno e o tricloroetileno, substâncias tóxicas que podem persistir no ambiente por longos períodos. Diferentemente de outros poluentes, esses compostos tendem a se infiltrar no solo e atingir camadas mais profundas, podendo alcançar aquíferos utilizados para consumo humano. As informações foram publicadas na Agência Fapesp.

Os pesquisadores destacam que o risco não se limita à presença dessas substâncias. Quando há bombeamento de água em profundidade, pode ocorrer um efeito que “puxa” contaminantes das camadas mais superficiais para níveis mais profundos, ampliando o problema.

Outro ponto crítico é a forma como a contaminação é gerida. Em geral, as ações de controle se concentram em terrenos específicos, mas a água subterrânea circula sem respeitar limites de propriedades. Isso faz com que áreas contaminadas possam afetar regiões vizinhas — um desafio que exige planejamento em escala mais ampla.

O estudo cruzou dados de zonas industriais, áreas contaminadas e localização de poços, revelando que essas três variáveis frequentemente se sobrepõem. Esse tipo de cenário não é exclusivo de São Paulo e pode ocorrer em outras cidades brasileiras com histórico industrial relevante.

Apesar disso, a recuperação dessas áreas é lenta. Levantamento citado na pesquisa indica que menos de 20% dos locais contaminados por solventes clorados foram considerados reabilitados até 2020 — e mesmo nesses casos, a contaminação não é totalmente eliminada, apenas reduzida a níveis considerados aceitáveis.

Jurubatuba, na zona sul de São Paulo, é apontada pelo estudo como a região mais investigada da Região Metropolitana quando o assunto é contaminação de aquíferos. Mesmo assim, cerca de 75% das áreas analisadas ainda não possuem informações detalhadas nos cadastros ambientais. Metade desses locais corresponde a antigas instalações industriais com histórico de uso de solventes clorados.

Para o pesquisador Reginaldo Bertolo, o acompanhamento realizado em Jurubatuba pode servir de modelo para outras áreas industriais da Grande São Paulo, incluindo municípios do ABC paulista. A proposta é ampliar a atuação integrada entre a Cetesb e a SP Águas no monitoramento e gestão das águas subterrâneas contaminadas.

Para os autores, o principal desafio é estruturar políticas públicas que considerem os aquíferos como sistemas integrados, e não como pontos isolados. Isso inclui ampliar o monitoramento, integrar bases de dados e tornar as informações mais acessíveis à população.

O alerta, portanto, não se restringe à realidade paulista: ele aponta para uma questão estrutural do país, em um contexto de crescente demanda por água e expansão urbana sobre áreas com passivos ambientais ainda pouco conhecidos.

RESPOSTAS

Em nota enviada à Agência Fapesp, a SP Águas informou que realizou novos estudos hidrogeológicos na região de Jurubatuba, em São Paulo, para ampliar o entendimento sobre a relação entre águas subterrâneas e áreas contaminadas. Segundo o órgão, o objetivo é aperfeiçoar o modelo de gestão existente, integrando políticas de recursos hídricos e gerenciamento ambiental, além de identificar áreas com maior ou menor restrição para uso da água.

A agência também defendeu medidas como unificação de bancos de dados, monitoramento contínuo e comunicação mais acessível com a população para melhorar a gestão dos aquíferos contaminados. Procurada pela reportagem, a Cetesb não se manifestou até a publicação do texto.

Tags:

Saúde Pesquisa Alerta Saúde Pública