Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Perla Ribeiro
Publicado em 5 de maio de 2026 às 17:57
O dia começa antes mesmo do despertador tocar: entre mamadas, tarefas acumuladas e a pressão constante de dar conta de tudo, muitas mães seguem no automático, deixando de lado sinais importantes de exaustão. A cena é comum e ajuda a ilustrar uma realidade cada vez mais presente, cujo nome é pouco conhecido: o burnout materno. >
Embora o termo burnout seja frequentemente associado ao ambiente de trabalho, ele também se manifesta na maternidade. Um levantamento da Kiddle Pass em parceria com a B2Mamy mostra que nove em cada dez mães no Brasil apresentam algum nível de esgotamento parental. Os dados revelam diferentes intensidades desse cenário: 9,37% das brasileiras apresentam sinais de esgotamento grave, 44,2% moderado, 33,99% leve e apenas 9,42% relatam poucos ou nenhum sintoma.>
Nova maternidade municipal de Salvador
Esse quadro está diretamente ligado a sobrecarga cotidiana, à pressão social por uma maternidade idealizada e, principalmente, à ausência de uma rede de apoio estruturada. Na prática, esse movimento já se reflete no aumento da busca por apoio profissional. “Cada vez mais famílias entendem que o cuidado não é um luxo, mas uma necessidade, especialmente durante a gestação e no puerpério”, afirma Jéssica Ramalho, fisioterapeuta e fundadora da Acuidar, maior rede de cuidadores da América Latina. De acordo com a executiva, o número de pacientes com esse tipo de quadro cresceu de forma considerável nos últimos anos.>
A questão tem recebido cada vez mais atenção, diante da gravidade confirmada pelos dados. Em setembro de 2025, foi aprovado um Projeto de Lei que institui a Política Nacional de Apoio e Prevenção da Estafa Mental ou Burnout Materno. A medida prevê a capacitação de profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) para a identificação precoce de sinais de esgotamento, além de orientação e acompanhamento multidisciplinar às mães. A declaração também contempla ações de conscientização e a integração entre saúde, assistência social e educação, com foco na promoção do bem-estar físico, mental e emocional das mulheres desde a gestação e ao longo da maternidade.>
Apesar dos avanços, reconhecer os sinais ainda não é simples. Isso porque o burnout materno costuma se misturar à rotina. “Muitas mulheres seguem funcionando, mesmo já esgotadas, por acreditarem que esse cansaço é parte natural da maternidade. Só que há uma diferença importante entre o desgaste esperado e um esgotamento que não passa”, reforça Jéssica.>
Na prática, o quadro se instala de forma gradual. O que começa como fadiga constante evolui para uma sensação de sobrecarga permanente, como se não houvesse pausa possível. Irritabilidade, impaciência e dificuldade de lidar com situações do dia a dia passam a ser frequentes. Algumas mães relatam um distanciamento emocional, não por falta de afeto, mas por falta de energia para sustentar tantas demandas. Também entram nesse cenário alterações no sono, dificuldade de concentração, esquecimentos recorrentes e uma sensação persistente de insuficiência.>
“Essa mãe geralmente continua dando conta de tudo por fora, mas por dentro já está exausta. E, muitas vezes, ela nem se permite reconhecer isso”, complementa Jéssica. Por isso, a prevenção começa com o objetivo de romper com essa lógica de sobrecarga silenciosa. Construir uma rede de apoio ativa faz diferença concreta na rotina. A presença de um cuidador, por exemplo, pode aliviar tarefas práticas e permitir que a mãe tenha pausas reais de descanso.>
“Quando essa mulher tem com quem contar, ela consegue desacelerar. E isso impacta diretamente na forma como ela vive a maternidade”, afirma Jéssica. Além da rede de apoio, algumas mudanças ajudam a reduzir o risco de esgotamento. Ajustar expectativas, estabelecer limites e abandonar a ideia de perfeição são passos importantes. Essas questões podem ser guiadas a partir de acompanhamento psicológico, em paralelo ao auxílio da rede de apoio. Em alguns casos, avaliação médica também se torna necessária, especialmente quando surgem sinais associados de ansiedade ou depressão.>
Nesse sentido, ampliar o conhecimento sobre o burnout materno é essencial para mudar a forma como esses sinais são interpretados no dia a dia. Para Jéssica, ainda existe uma dificuldade em diferenciar o que faz parte de um processo de adaptação e o que já indica um nível de desgaste que precisa de atenção. “Existe uma tendência de normalizar o cansaço extremo, a sobrecarga e até o sofrimento emocional como se fossem inerentes a ser mãe, e não são”, afirma. A partir desse entendimento, torna-se mais fácil reconhecer que esses sintomas não devem ser incorporados à rotina, mas observados como indicativos de que algo precisa ser ajustado.>