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Divagações ao som de Miles

A grande arte nos preenche de centelhas, nos inunda de conhecimento de nós mesmos. É como se nos tirasse da caverna e nos apresenasse à luz

  • Foto do(a) author(a) Paulo Sales
  • Paulo Sales

Publicado em 31 de maio de 2026 às 05:00

Escuto Miles Davis nesta noite fresca de outono. É uma maneira de homenageá-lo pelos 100 anos que completaria esta semana. Afinal, efemérides são oportunas para não esquecermos de quem admiramos. Mas é também algo corriqueiro. Ouvir Miles é regressar a um lugar onde fui muito feliz, um vasto continente ao qual retorno sempre com o assombro da primeira vez. O sopro morno do seu trompete me transporta a paragens que me confortam e me enlevam, sobretudo quando preciso de alento ou de acalanto.

Admiro sua personalidade introspectiva, que se traduz em fraseados longos e cálidos – lume que arde, mas não queima. Admiro sua impetuosidade musical, que o ajudou a moldar uma obra em perene estado de desassossego. E também sua capacidade de descobrir, reunir e tirar o máximo de músicos brilhantes, com os quais desbravou sonoridades inauditas. Miles me fez conhecer e amar o jazz, como alguém que nos pega pela mão e apresenta os segredos de uma cidade inacessíveis aos turistas. Ouvi-lo pela primeira vez é como contemplar Jeanne Moreau andando a esmo pelas ruas de Paris.

Até os 30 anos, o idioma jazzístico soava para mim que nem o aramaico: incompreensível. Era um período no qual buscava sonoridades desafiadoras aos meus ouvidos de leigo, já desiludido com o rock’n roll e suas limitações melódicas, harmônicas e poéticas. Flanava pelos mais diversos gêneros musicais sem encontrar um pouso onde me aconchegar. Até que uma noite coloquei o Kind of Blue no som do carro. Saía cansado de mais um dia de trabalho e dirigia devagar. À medida que o solo de Miles em So What serpentava em meus ouvidos e atingia o córtex cerebral, descortinava-se um universo, me fazendo atingir uma espécie de maturidade sensorial.

Talvez o mesmo tenha ocorrido com a literatura. Certos livros só nos são acessíveis a partir do momento em que desenvolvemos uma couraça capaz de suportar decepções, perdas e frustrações. Hemingway, por exemplo, era uma esfinge para o garoto ensimesmado e imaturo que fui. Li O Velho e o Mar aos 15 anos e O Sol Também se Levanta aos 20. Soavam modorrentos, sem alma, frios. Não entendia o culto ao escritor. Aos 28, voltei a eles e, tal qual um Colombo sem caravelas, descobri um novo mundo. Hemingway exige um cérebro – e também um fígado – maturado por quedas e recomeços. Mas dificilmente chegaria até ele se antes não tivesse pavimentado o caminho.

Apesar das lacunas e da ausência de método, trilhei no decorrer das décadas uma rota afortunada. De As Aventuras de Tibicuera (primeiro que lembro de ter lido) até Os Demônios (o mais recente), foram milhares de livros que, bem ou mal, abriram uma clareira a golpes de facão na minha mente. O que seria da minha infância sem as pequenas portas de percepção chamadas Viagem ao Mundo Desconhecido e A Máquina do Tempo? E da minha adolescência sem as epifanias profanas de On the Road, Cem Anos de Solidão e A Leste do Éden? Mais tarde, o que seria mim sem Conversa na Catedral, Vida e Destino, A Idade da Razão, Os Irmãos Karamazov e tantos outros?

Creio que sem eles teria me tornado um ser mutilado, inacabado, incapaz de compreender o universo que habito. A grande arte nos preenche de centelhas, nos povoa de questionamentos, nos inunda de conhecimento de nós mesmos. É como se ela nos tirasse da caverna e nos apresentasse à luz do dia. Ao mesmo tempo, nos torna ainda mais ignorantes diante do infinito, feito neandertais fascinados pela lua, embora incapazes de compreendê-la. Talvez seja esse o prazer supremo da arte: nos envolver paulatinamente até o momento em que nos deparamos com o delírio silencioso.

O processo de conhecimento (e de autoconhecimento) nos projeta contra os nossos abismos para voltarmos de lá com algo precioso e secreto. Quanto mais prosseguimos, mais deixamos para trás a obscuridade. Nesse processo, certezas irremovíveis são reduzidas a escombros feitos de pontos de interrogação. Mas há também o deleite prosaico: a sensação de que algo valoroso e único se descortina só para nós, como um enigma muito antigo ou uma visão, ainda que fugaz, do paraíso. Só isso vale as dúvidas, as indagações e a solidão que a sabedoria nos traz.