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Paulo Sales
Publicado em 10 de maio de 2026 às 05:00
Li recentemente um livro de Aharon Appelfeld, escritor israelense de origem romena, chamado Expedição ao Inverno. O romance se passa em uma vila montanhosa nos Cárpatos, para onde afluem judeus em busca de conforto espiritual. Estamos às vésperas da Segunda Guerra Mundial e essa região, pertencente à Romênia, já não fazia mais parte do Império Austro-Húngaro, que unificara diferentes etnias sob uma mesma orientação política, social e cultural, incluindo a absorção de povos não eslavos. >
Sob a dinastia dos Habsburgos, o Império Austro-Húngaro buscou difundir, entre o fim do século 18 e princípio do 20, o racionalismo e outros valores iluministas, chegando até locais remotos e ainda aferrados a um estilo de vida feudal e com crenças religiosas arraigadas. Esse processo beneficiou grande parte da população judaica local, que se integrou à sociedade europeia e incorporou os seus costumes. Contudo, as transformações no tabuleiro geopolítico decorrentes do fim da Primeira Guerra, incluindo a derrocada do próprio império, jogaram essa integração por terra.>
Com a ascensão dos nacionalismos, os judeus voltaram a ser judeus: hostilizados, segregados e perseguidos progressivamente, num processo que – como sabemos – culminou no Holocausto promovido pela Alemanha Nazista. Expedição ao Inverno reconstitui, em tom lírico e fabular, um microcosmo dessa Europa culta e humanista que se dissolveu de maneira vertiginosa, cedendo lugar à demência. Imagino o quanto esses judeus, que viveram integrados por décadas à cultura europeia, se sentiram atônitos, desnorteados. O que fazer quando o seu mundo não é mais seu?>
Nascido em 1932 num lar relativamente próspero, Aharon Appelfeld foi atingido em cheio por essa devastação. Aos nove anos, teve sua mãe assassinada por forças de repressão e foi levado com o pai para um campo de trabalhos forçados, de onde fugiu. Sobreviveu sozinho em áreas rurais da Ucrânia enquanto durou a guerra, ultrapassando dia após dia as fronteiras do horror. Seu infortúnio infantil me faz lembrar dos percalços enfrentados pelo garoto de O Pássaro Pintado, o dilacerante relato de Jerzy Kosinski. Appelfeld virou um homem sem pátria e sem idioma, até ir viver em Israel e aprender o hebraico.>
Numa conversa com o também romancista Philip Roth, publicada por este no livro Entre Nós, Appelfeld reflete sobre o tema: “Os judeus assimilados construíram uma estrutura de valores humanistas e contemplavam o mundo externo a partir dessa estrutura. Estavam convictos de que não eram mais judeus e que tudo aquilo que se aplicava aos ‘judeus’ não se aplicava a eles. Essa confiança estranha os transformou em criaturas cegas, ou quase cegas.”>
Em outro trecho da conversa, ele prossegue: “Até hoje existe a crença generalizada de que os judeus são criaturas ágeis, espertas e sofisticadas, cheias de sabedoria mundana. Mas não é fascinante ver como foi fácil enganar os judeus? Com os truques mais simples, quase infantis, eles foram reunidos em guetos, obrigados a passar fome por meses, estimulados por falsas esperanças e por fim jogados em trens que os levariam à morte.”>
A tragédia de Appelfeld é a tragédia de milhões de seres humanos – e não me refiro apenas às vítimas do Holocausto. O que me interessa, aqui, é tentar compreender como a cegueira coletiva, em diferentes períodos da história das civilizações, nos torna tão inaptos para constatar que o recuo rápido e anormal do oceano dará lugar a um tsunami. Em O Pianista, filme de Roman Polanski, o músico judeu Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) só parece se dar conta da barbárie onipresente no momento em que tenta salvar uma criança e ela morre em suas mãos.>
Na semana passada, o artista plástico Bansky instalou uma escultura no centro de Londres. A peça mostra um homem de terno com o rosto coberto por uma bandeira, marchando às cegas rumo ao vazio. O significado é claro, nestes tristes tempos em que os nacionalismos voltam a ser invocados. Assim como a razão foi solapada há quase um século, agora as democracias liberais correm o risco de ruir aos poucos. Será que nós, na terceira década do século 21, prosseguiremos toldados pela miopia? Seremos incapazes de perceber que a silhueta trágica dos anos 1930, embora repaginada, já se avizinha?>