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Entrevista: Jornalista Ruy Filho comanda exercícios de crítica teatral no Fiac

"Apenas reinventando a participação coletiva é que se poderá de fato construir possibilidades de representações estéticas", diz ele

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  • Da Redação

Publicado em 25 de outubro de 2016 às 06:25

 - Atualizado há 3 anos

(Foto: Acervo Pessoal)O jornalista Ruy Filho, editor da Revista Antro Positivo (SP), irá comandar três ações sobre escrita crítica na nona edição do Festival Internacional de Artes Cências (Fiac): a Crítica Imediata, texto curto escrito para as redes sociais; Crítica Dentro, realizada no instante da apresentação do espetáculo; e a Crítica Performativa, exercício de escrita coletiva de longas horas, que resulta em um único texto.

Nesta entrevista ao CORREIO, ele detalha cada uma das atividades, conta um pouco sobre a sua relação com o festival e afirma que "apenas reinventando a participação coletiva é que se poderá de fato construir possibilidades de representações estéticas".

"A cultura se faz pelo convívio, a arte se realiza pela inquietação. É hora de estarmos próximos e permitir com isso que as descobertas e desconfianças surjam deliciosamente inesperadas. Nada melhor a isso do que a diversidade presente em um festival. Sobretudo, se este for de teatro", opina ao convidar o público a também prestigiar a programação e comparecer às atividades gratuitas da Antro Positivo, que acontecem em diversos dias e horários, no Teatro Vila Velha (Passeio Público) e também no Goethe-Institut (Corredor da Vitória). Confira detalhes aqui.

Este ano você está com diversas ações previstas dentro da programação do Fiac e vimos que a sua revista, a Antro Positivo, costuma ter edições dedicadas a festivais. Qual sua relação com o Fiac? Já participou de outras edições do evento? De que forma?A relação da Antro Positivo com o Fiac começou há alguns anos, quando Ana Carolina Marinho, também resenhista da revista, esteve em Salvador para cobrir o festival, à convite de Felipe Assis, Ricardo Liborio e Joceval Santana. Nos anos de 2013 e 2014, ela escreveu sobre diversos espetáculos e de São Paulo organizamos Cadernos Especiais exclusivos sobre cada edição. Já em 2015, eu e Patrícia Cividanes, idealizadores e editores da revista, conseguimos organizar nossas agendas para podermos ir ao festival. Ano passado escrevi sobre os espetáculos no formato que denominamos por Crítica Imediata, após percebermos que desse modo o acompanhamento de quem não podia estar na cidade se dava quase que em tempo real, propiciando maior troca via as redes sociais. Neste ano, as ações serão ampliadas também para outros formatos de escrita, como a Crítica Performativa (realizada em festivais brasileiros, desde o ano passado) e a Crítica Dentro (criada neste ano e convidada para diversos festivais europeus). Será, portanto, a primeira vez que levamos essas experiências à Salvador.Tomando o mote do festival esse ano, queria lhe perguntar o mesmo que eles questionam: como você acredita ser possível reinventar a participação coletiva diante de tantas rupturas?Apenas reinventando a participação coletiva é que se poderá de fato construir possibilidades de representações estéticas dessas rupturas. O acúmulo de rupturas, de desconstruções dos sistemas vigentes, da ressignificação ininterrupta de acontecimentos nos exigem ampliar nossas participações, tanto sócio-políticas como histórico-culturais. O paradoxo é que a perspectiva do coletivo igualmente se tornou instável e participar não mais requer pertencer. É possível existir ativamente junto ao coletivo sem servir-lhe diretamente, e as artes são os principais meios de realizar esse outro existir, pois são capazes de sustentar por suas manifestações aspectos menos dogmáticos e deterministas ao coletivo, provocando-o à desconfiança de si mesmo como verdade estável. Nesse redimensionamento da experiência estética, o observador/espectador pode, enfim, encontrar fugas ao todo e assim elaborar potências novas de aproximação com a sociedade e suas questões. Sensibilizar o outro, portanto, faz-se fundamental ao sentido de desconfiança necessário para o indivíduo se torne atento, distante, ainda que presente e definitivo.A Crítica Performativa é realizada em festivais brasileiros desde o ano passado e este ano estreia no Fiac ao lado de outras duas ações promovidas pela Revista Antro Positivo (Foto: Patricia Cividanes/ Divulgação)Vi que a participação do Antro Positivo no Fiac questiona justamente um fazer da crítica mais atuante, relevante. Para você essa transformação se dá necessariamente com o coletivo? Não apenas com o coletivo, mas de algum modo próximo a ele por diversas maneiras. Uma crítica pode ser suficiente para provocar um diálogo com artista e público. No entanto, a estrutura de um resenhista sustentado pelo isolamento de apenas sua opinião acabará por tornar o resultado, a crítica, como um modelo imposto ao outro de como ler e compreender uma obra. Seja realizando a crítica mais próxima das inquietudes do espectador, seja aproximando de si outras variações de percepções do cotidiano, o crítico construirá uma resposta pela qual torna-se epicentro de um contexto plural, o que é fundamental à compreensão da crítica no contemporâneo. Para tanto, não basta fundamentar os argumentos na história do teatro, na intelectualização acadêmica ou em métodos e técnicas. É preciso subverter a vontade de resposta pelo desejo de pergunta, pelo qual o caminho é menos afirmativo e mais ensaístico. Fiquei bastante curiosa com a performance de investigação durante o espetáculo (da V Crítica Dentro) e com a Crítica Imediata e suas reflexões sobre a imediatez da sensibilidade crítica. Você poderia descrever como essas ações vão funcionar?Os três modelos de escrita crítica que realizaremos no FIAC tem proposições muito particulares e complementares. Na Crítica Imediata, a resenha é destinada ao universo das redes sociais, de modo que exige a velocidade e desenvoltura do meio digital. Para tanto, escreve-se a crítica curta com o impacto mais objetivo do trabalho assistido, de modo a produzir uma aproximação aos conceitos e interesses do espetáculo daqueles que estão distantes. Não se trata de descrevê-lo ou simplificá-lo, mas atrair pelas questões apresentadas um interesse também de quem não necessariamente está em busca do teatro, ampliando o espectro para uma sensibilização do outro pelos argumentos e não pela linguagem.

Já a Crítica Dentro, realizada no instante de apresentação do espetáculo, implica em uma sobreposição mais complexa de descrição da cena, observação do espectador, leitura simbólica e narrativa, interpretação e conclusão. A complexidade está em fazer com tais aspectos sejam trazidos à crítica sem o acesso à totalidade da experiência, só possível após finalizada a apresentação. Exige, portanto, do crítico disposição para cada segmento e momento do trabalho e o risco de se contrapor e rever suas próprias conclusões ao percorrer o percurso inteiro.

Por fim, a Crítica Performativa leva ao outro extremo. Após assistida a peça, em um dia diferente o crítico e um ou mais resenhistas se debruçam por muitas horas na escrita de um único texto, investigando filosoficamente cada possibilidade de interpretação e compreensão do espetáculo. A ação é exposta, realizada na presença de quem se interessar, oferecendo a leitura das telas dos computadores usados durante a escrita através de suas projeções em televisores. Assim, ao tempo em que as ideias são investigadas, o público poderá sugerir ampliações, desvios e contrapor-se aos argumentos exigindo que a crítica assuma o diálogo provocado na sua formulação final, concordando ou justificando as considerações. A Crítica Performativa será realizada no pátio do Instituto Goethe no dia 28, das 11h às 16h, ininterruptamente. Não é necessário que o interessado tenha assistido ao espetáculo, apenas que, ao ler os trechos terminados e disponibilizados impressos em um painel - junto a um trabalho de design que aproxime o escrito da estética do espetáculo analisado -, os temas provoquem-lhe inquietações para além do teatro. 

Você já chegou a conferir alguns dos espetáculos presentes na programação? Poderia discorrer brevemente sobre aquele que, na ligação com a proposta do Fiac este ano, mais lhe chamou atenção? Os espetáculos da região Sudeste já assisti e acredito formarem um panorama interessante para pensar as propostas do festival. Sempre tenho muita curiosidade sobre a cena local, pelo ineditismo e por ser resposta a um fazer teatral que escapa aos padrões do eixo sp-rio-minas, com característica peculiares e soluções interessantes. Aprendi muito em 2015 participando da equipe de curadoria da cena baiana. É inevitável, ainda, o interesse dos trabalhos internacionais, pois esses outros aspectos são intensificados ainda mais. Nesse sentido, tenho uma boa expectativa pelos atos 1 e 2 da Trilogia Antropofágica, do coletivo uruguaio Perro Rabioso.Amadores, da Cia Hiato (SP), é um dos espetáculos da região Sudeste apresentado na nona edição do Fiac(Foto: Ligia Jardim/ Divulgação)Agora, depois de tantas perguntas, vou deixar o espaço pra você comentar algo que queira dizer e que ache importante nesse contexto. Acho que só posso terminar aqui com uma espécie de apelo. Em tempos como os de agora é fundamental que os interesses se voltem às experiências estéticas. No entanto, assistimos a um crescimento incompreensível de descredito das manifestações artísticas. Movimentos para o fim do Ministério da Cultura, por exemplo, ainda que não tenham resultado no Palácio, ainda sim se cristalizam na ansiedade forjada sobre a população. O pior golpe é certamente aquele que preparamos contra nós mesmos sem que o percebamos. E esse isolamento imposto ao artista é sem dúvida o mais perigoso à desconstrução do instrumento mais importante ao desenvolvimento de vocabulários simbólicos, ampliação de parâmetros críticos e potencialização do imaginário. Sem eles, estaremos limitados a acessar, entender e responder apenas dentro dos modelos quais seremos treinados. Se a economia ainda vivencia o caos, o que afasta investidores e patrocinadores das artes, então que a cumplicidade venha pelo público na forma de presença e curiosidade. A cultura se faz pelo convívio, a arte se realiza pela inquietação. É hora de estarmos próximos e permitir com isso que as descobertas e desconfianças surjam deliciosamente inesperadas. Nada melhor a isso do que a diversidade presente em um festival. Sobretudo, se este for de teatro.