Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Da Redação
Publicado em 21 de novembro de 2018 às 14:14
- Atualizado há 3 anos
quando eu era pequena eu era muito racista, quem não era. no meu condomínio tinha uma amiguinha negra retinta, a única. eram 96 apartamentos, em Salvador. a única. ela não era considerada lá muito bonita, assim como eu também não era, só que ela era menos ainda e eu era mais nova. não tinham muitos negros retintos na vida da gente, em Salvador. um dia eu disse que o rosto dela assim de perfil parecia com o de um macaco - por conta da protuberância do mento/maxilar. ela chorou. gritou, ficou muito irritada e triste. ela brigou comigo. eu não entendi muito. o que tinha de mau parecer com um macaco? eu era um pouco menos preta, mas pro pessoal lá de casa eu tinha dado o azar de nascer com o cabelo ruim e o nariz de panela. o 'cabelo ruim' eu até entendia de onde vinha mas nunca entendi muito essa "panela". alguém me disse que era pq a panela amassou. nunca entendi a graça disso, mas o pessoal achava. minha família toda. minha família que é muito legal e tem branco e tem preto, mais branco que preto, mas todo mundo muito legal. os marido mesmo são tudo preto e todo mundo vive fazendo piada com preto, é brincadeira, dizem, não tem nada de mais. foi o que eu disse também pra amiguinha na história do macaco. só que na família era pior porque não tinha limite, tinha uma história de, mas é que eles não ligam, oxente eles gostam e eles até mesmo fazem as piadas! preto é quem mais faz piada racista, dizem. a gente ria nera. dizia que era piada, melhor não desconsertar o pessoal. autopiada, um passaporte. mas os preto entraram na família foi pela porta da igreja mesmo pq família que eu chamava era por parte de mãe, que num tinha preto - não sabido pelo menos. mas era tudo pobre do subúrbio, onde quase todo mundo é quase tudo preto, aí casou todo mundo. menos mulher né, mulher preta casada não teve não, também onde já se viu, em Salvador. por isso minha mãe ganhava os concursos de beleza tudo, não era preta. já a parte do pai era mais ~fragmentada, preto sempre era mais fragmentado. melhor contentar com os preto pingado né, família assim inteira preta já é querer demais. na fantasia também não tinha não. nas historinha os preto eram tudo avulso, ninguém sabia de onde vinha nem pra onde ia. tipo tia Anastácia Barnabé, o saci Pererê, era o que mais? boneca, barbie kkk. tinha muito não. na TV também não tinha. Taís Araújo nera? preto tudo avulso que nem as meninas que iam trabalhar nos 96 apartamentos lá do condomínio. até lá em casa teve. vinham do ~interior que era esse lugar etéreo da Bahia..e parece que não tinham família não. se trabalhava domingo né, deviam ter não. na escola todo ano eu sempre tinha uns dois coleguinhas assim claramente preto, em Salvador. digo claramente pq agora a gente confunde né, nera assim todo mundo que é preto hoje que era preto antes não. uma amiga mesmo, assim amiga de verdade, já lá pros meus 16 anos, disse uma vez assim pra mim, amiga eu nem acho você assim negra. e eu já tinha até cabelo black e tudo. mas dizia que era elogio. e eu gostei de ouvir, nunca esqueço dessa sensação, eu já de cabelo black e gostei de ouvir. nem tudo é o que a gente fala, mas como a gente fala né, talvez essa história aí.. mesminha sensação de quando um amigão bem descoladinho disse, mas amiga seu cabelo não é tão ruim assim né? eu usava tranças (como boa parte da minha vida. trança pode ser liberdade agora, mas pra mim nera não, era a única forma de fugir da química, trança era um saco - e doía! todo branco quando faz diz que dói, eu não sei como vcs aguentam, diziam) mas por causa das tranças, ele nunca tinha visto meu cabelo. quando ouvi que ele supunha que meu cabelo não era tão ruim, não soube muito como responder. como explicar que era sim aquilo ali que ele tava pensando, mas que não era exatamente "ruim" aquilo ali que ele tava pensando? eu já sabia que a construção da frase tava errada, mas a sensação de novo foi boa. claro que meu cabelo era assim tão ruim, quebrava os dentes. era uma vergonha só tentar esconder os pentes banguela. se eu soubesse um pouco antes que ruim eram os pentes não os cabelos.. mas então dizia que era elogio né. essa distinção que nos coloca a medir frizes, narizes e escalas de pele. eu era menos negra e isso era bom. hoje ambos os amigos são pretos e tem muito orgulho - pretos à luz de seus próprios olhos e até das pessoas que já eram pretas. vi nascer muito amigo preto de infância.. mas na minha época não tinha muito não. porque quem tinha cabelo liso nera preto não, em Salvador. preto mesmo só na rua ou de uniforme. eu nunca gostei de uniforme. minha mãe colecionava CASA Claudia, eu queria era aquilo ali. achava até que eu ia ser arquiteta (não que as arquitetas sejam as donas das casas da CASA Claudia, mas na época eu não sabia muito). eu gostava era de rock mas era tudo branco, na MTV. não dava pra ter franja e as calças não ficavam muito boas em mim - a bunda né, essa outra contradição. outro passaporte. um dia, já trabalhando, um velho muito famoso e conceituado disse que eu era um convite ao estupro. essa menina é um convite ao estupro, disse assim. eu estava no camarim com outras pessoas, mas dizia que era elogio e a gente só podia rir ou sorrir - esse outro passaporte. passei minha vida sorrindo muito. claro que eu era simpática, mas talvez não tanto né. eu não dizia não e sorria tudo o que eu podia, sabia que dessa forma eu podia ser bem quista e até bonita, às vezes em Salvador. aprendi que meu sorriso era bonito, o nariz não. os peitos também nunca que eu tinha visto parecido. nem no cine band privê, aquela aula de anatomia que às vezes a gente pegava na madrugada. (mas o pessoal acha que na escola não deve ter não, melhor no band privê que ensina certinho). meus peitos não tinham nada a ver com nada daquilo ali, nem de qualquer outro lugar. aprendi a usar sutiã muito muito cedo e nunca esqueço de quando muito aleatoriamente eu vi meus peitos pela primeira vez, foi numa estátua de sei lá onde da África. fiquei em choque, a lá ele gente! parecia pra caramba. só depois que eu fui descobrir que tem um monte desses peito por aí, até de gente que não é preta. mas antes não, meu corpo era um martírio. (mas isso é outro capítulo). daí que eu era muito racista, quem não era. quem apontou a garrafa de vidro pro pescoço de minha mãe no sinal era preto e o pessoal que eu não queria ser era preto também. eu queria ser era minha mãe. minha mãe era branca. branca, família e amor. meu pai também era amor, mas preto bom era sempre pingado. era um abençoado que subiu aos céus da gente branca. preto de alma branca, diziam. elogio né. tipo a Glória Maria, que era tão rica e famosa que quase que era branca. eu também queria. mas quando preto ascende é preto pingado e o povo sempre vem perguntar o que q cê tá fazendo aí. humm, mas será que não foi cotas? hum, mas será que ela dá conta? hum, mas te imaginava diferente hein. daí que o pessoal começou a questionar pq q eu só pegava gente branca (pegava pq mulher preta namorada onde já se viu). ninguém foi perguntar isso lá minha turma que só tinha dois pretos, então aparentemente meu destino era escolher um dos dois né - e olha que eu até tentei. eu tentava ser mais próxima dos preto pingado, mas, por um acaso assim recorrente, os pretos e pretas eram geralmente mais tímidos (negódi autoestima né) e como minha mãe me educou trabalhada no construtivismo aterrorizador, eu encontrava outros caminhos de segurança (que não pelo afeto), então na escola eu era muito ~da galera. tinham poucos pretos na ~galera. a galera tocava o terror, diziam até que rolava bullying. a ~galera não fez muito bullying comigo não. só antes de eu ser ~da galera, no condomínio, que tinha aquela coisa de botar chiclete no cabelo. se era ruim sem chiclete, imagina com. e as meninas riam da minha cara. ainda bem que teve escola, que o povo era mais pra frente. ainda assim não dava pra ser fofa, eu era muito grande e preta pra ser fofa. e usava umas roupa esquisitas também. (mas isso também é outro capítulo). pois bem, como eu não era bonitinha, eu era legal. passei a vida sendo legal e lembro de cada vez que me disseram ser bonita sem exotização (porque a maioria das vezes o elogio quer dizer assim: olha como eu sou legal achando uma mulher como você bonita). lembro de cada referência, quando eu vi o Ilê Ayê e o primeiro black da escola. lembro de cada vez em que eu acreditei e de como aquilo dava um tílte na cabeça. era como uma marretada nas ruínas do que foi construído, aqui dentro. rachava e caía pedaço. subia poeira e ensurdecia. aquilo ecoava. dias, anos. hoje. a gente fica um pouco doida mesmo, doida e doída como queira. a gente se protege e se machuca e se machuca se protegendo. e complica os afetos, pq ninguém se relaciona com uma pessoa assim pura, vem cheinha de passado. a gente vem cheinho de passado. eu e você também, ainda que insista nesta amnésia que me tira o chão, esta amnésia que só fragiliza a mim, porque sem passado eu sou doida, bandido, puta, ou uso uniforme ou estou onde não deveria estar. a humanidade não vem igual pra nós. aí vem você perguntar pra que consciência negra e não consciência humana.>
veja bem amigo, eu vou repetir do começo, aí você me diz a parte que não entendeu..>
#DiaDaConsciênciaNegra #DiaDeReflexão>
Texto originalmente publicado no Facebook e replicado com autorização da autora>