A guerra carnavalesca: anotações de um refugiado nas primeiras horas da manhã de hoje

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11.02.2018, 11:35:41
Atualizado: 11.02.2018, 11:44:56

A guerra carnavalesca: anotações de um refugiado nas primeiras horas da manhã de hoje

Por Alberto Heráclito Ferreira

A metáfora da guerra carnavalesca é muito apropriada para referir-se a essa maluquice coletiva, que deixa os baianos surtados uma vez por ano. Pra muitos essa guerra é ou ainda é necessária, talvez até fundamental. O certo é que nenhum habitante da cidade fica imune ao seu impacto. Para quem não gosta do conflito fugir para bem longe, para onde nem se ouve falar em carnaval é a melhor opção. Mas outros deserdados, por motivos os mais diversos, se entocam em lares-esconderijos, verdadeiros bunkers, como bem definiu Alex Simões. Eu estou nesse último grupo. 

Me organizei para sobreviver à guerra estocando víveres para o corpo e para a alma. Antes que toquem as sirenes, avisando o reinicio das explosões, às vezes saio do meu abrigo para providências rápidas tipo supermercado e banca de revista. O supermercado - zona não tão neutra no meio da guerra - fica totalmente ressignificado nas suas sociabilidades nessa época. Desaparecem as virtuosas donas de casa, que emprestam respeito e domesticidade ao ambiente e foliões e comerciantes invadem o recinto atrás da munição mais eficaz aos combates: a imbatível cerveja. 

Hoje eu constatei mais uma vez o ibope da loura gelada, na minha ida ao supermercado, às 8 horas da manhã. Mesmo nesse suposto horário de descanso dos guerreiros, o Hiper tava que tava e os carrinhos de compras nas filas, abarrotados desse líquido bélico e de derivados para consumi-lo, como um tal de isoporzão. Esse povo não dorme não, é? Perguntei a mim mesmo. Havia um bafo de cerveja no ar, que afrontava o meu virginal hálito de pasta de dente. E o mais surpreendente: o estado de consciência de muitos compradores já estava pra lá de alterado, o que deixava a ordem do recinto suspensa e tensionada para aqueles que não estavam na viagem e recém acordado como eu. Os funcionários compulsoriamente fantasiados, mesmo sóbrios, pareciam descontar a raiva de trabalhar nos dias de folia com atitudes inabituais e uma falta de educação acima da média. Estavam todos de virote? 

O certo é que havia um movimento incomum ao horário, uma verdadeira histeria coletiva. Falava-se alto, gritava-se palavrões, alguns corriam entre os corredores, outros esperavam a fila dos caixas esparramados no chão. Tomei o maior susto, com uns caras vestidos com uma malha amarela coladíssima, no maior gás, fazendo performance de estátua para a skol e exibindo escrachadamente o sexo protuberante, enquanto apertavam perto dos ouvidos dos distraídos uma enorme e barulhenta buzina. 

A voz que anunciava os produtos - que suspendia vez em quando os hits carnavalescos do som ambiente - era uma nota à parte. Maliciosa, dirigia-se aos “foliões” em compras e anunciava num tom grave e sussurrante a promoção da PICAnha, não respeitando a pureza do dia recém-nascido. Engarrafando um dos caixas, rapazes com o abadá do Eva, que saíram da folia naquele instante - de olhos injetados, suados e bêbados - chamavam a caixa de lerda e perguntavam se aquela porra não tinha gerência pra exigir rapidez no atendimento, enquanto escovavam os dentes com Smirnoff Ice; na mesma fila uns dois lugares atrás, dois adolescentes batucavam no isoporzão sobre o carrinho, acompanhando as músicas que tocavam. 

O negócio tava a todo vapor. Serpentinas sobre as bananas, coentro murcho, um frango abandonado se descongelava em cima do balaio da cebola, pra não falar em umas dez embalagens vazias de iogurtes que foram descartadas sobre os desodorantes, no pessoal da limpeza com os seus indelicados escovões tentando fazer uma improvável faxina e da algazarra de meninas, que esperavam as costureiras chegarem às 9, próximo ao balcão onde se costumizavam camisetas. Tudo isso se embaralhava na minha cabeça ainda mergulhada nos sonhos da noite e compunha a anomia da paisagem em tão improvável horário. Será que eu estava sonhando ainda? eu me beliscava. No meio desse clima e pra fazer os meus olhos acordarem e se abrirem de uma vez por todas, um casal de namorados, num amasso pesado, bloqueava a passagem no corredor das bebidas, próximo à prateleira dos vinhos. Pelo o que eu saquei, eles tinham se conhecido há pouco tempo, mas era tamanho o envolvimento do casal que eu temi por um desastre, visto a proximidade das garrafas. 

Olha que eu já vi amassos em todas as horas do dia, mas aquele, com certeza, foi o amasso matinal mais forte que eu já presenciei em toda a minha vida – o rapaz de sainha das Muquiranas, a moça com um shortinho daqueles, se chupavam, se lambiam e cochichavam intimidades, sem se importar com os presentes. Parecia que um dia novo não acabava de ter começado, pois tudo já estava pelo meio. E pra piorar o ar condicionado não funcionava e eu, ainda de cara inchada de sono, me retorcia na fila querendo sair correndo daquilo ali. Era muita informação para quem acordava para viver um novo dia. Mas até que a moça do meu caixa era rápida e quando eu estava passando o cartão para pagar minha compra - cruzando os dedos para que o “sistema” não caísse (Ah, o “sistema” tava caindo toda hora, àquela hora também) -, ouvi um estrondo de vidros se quebrando e o piso do chão foi se tingindo de vermelho.

Texto originalmente publicado no Facebook