A manada do bem e sua ditadura de regras

malu fontes
12.02.2018, 07:50:00
Atualizado: 12.02.2018, 08:17:50

A manada do bem e sua ditadura de regras

Por Malu Fontes

Estamos todos diante de exércitos de ditadores de plantão nas redes sociais, vomitando regras do alto de seus argumentos, num comportamento típico daqueles alunos tolos e arrogantes que vivem contestando o professor sem saber o que diz só para tentar ficar bem na fita com os colegas. Diante dos ditadores de regras, me vêm sempre à memória as imagens em preto e branco de Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção, no século passado, sob vaias de uma plateia de jovens raivosos que se achavam a antena do mundo. Vaiado, Caetano não se intimidava e falava ainda mais alto: “é proibido proibir”. Era 1968. Eu não participei do contexto daquela época, mas essa cena é um clássico e está disponível na web para quem quiser revê-la. 

Cinquenta anos depois, diante de tantas proibições cuspidas como regras de vida ou morte pelos novinhos, pareço estar ouvindo deles, face a qualquer comportamento que não esteja em suas cartilhas do politicamente deformado em caricatura do exagero, pisca-piscas de purpurina chinesa anunciando: é proibido permitir. Todo mundo é bom, todo mundo é do bem, mas todo mundo bom e do bem quer xingar, ofender, arrancar a pele e extirpar o direito à vida de qualquer pessoa que ouse colocar sobre a cabeça, em pleno carnaval, um adereço de penas fakes made in China, só para ficar num exemplo dos mandamentos do que não pode. 

ABRAÇADOR DE ÁRVORE - Quem não reproduzir e compartilhar os mantras, os cartazetes e as hashtags dessa turma, é sentenciado a uma espécie do Vale dos Leprosos de Geddel. Tá osso lidar com o efeito manada dos neoativistas do bem que se comportam como haters. Na primeira coisa que você escreve diferente da bula da turba, até o abraçador de árvore do Capão sai da trilha do bem e aparece nas redes sociais para lhe mandar tomar naquele lugar.

Usar um cocar fake passou a ser uma agressão inominável e um desrespeito criminoso aos índios. É muito mais: é hiperssexualização da mulher Índia, é racismo, é etnocentrismo de brancos privilegiados escrotos, é muito errado e feio e é crime de xenofobia com potencial suficiente para lhe levar ao Tribunal de Haia. 

JANAÍNA E LENNON - Quando foi que os brasileiros se perderam nessa zona cinzenta de interseção entre essa indústria do bem tão caricata e esse policiamento odioso e agressivo contra quem não adere ao ativismo de posts nem às bulas concebidas pelas cabeças dos ativistas de hashtags? Muita gente que acha Janaína Pascoal, a musa do impeachment de Dilma Roussef, uma louca descabelada agressiva esquece de perceber que o próprio comportamento está mais para Janaína do que para John Lennon e seus versos na toada Imagine e Love and Peace, como quer parecer para os incautos. Há poucos dias Janaína reapareceu pregando a proibição do carnaval. Sua tese é reta: como pode um país permitir que haja carnaval se a violência mata centenas de pessoas abatidas a tiros todos os dias? Tem que proibir, ora. Não a matança, claro, mas o carnaval.

Quem há de negar que a preocupação de Janaína com a violência é mais do que legitima? Mas, por outro lado, quem imbecil a ponto de acreditar que, se não houver carnaval, o Brasil deixará de ser violento e ninguém mais será vítima desse estado de coisas que está aí? Do mesmo modo, vale perguntar o que está sendo colocado na água que vem sendo ingerida por pessoas que parecem acreditar que, a partir do momento em que ninguém usar mais fantasia de índio, usar um cocar ou colar de penas no carnaval, os índios passarão a ter direitos assegurados e deixarão de ser massacrados por latifundiários, posseiros, grileiros ou mineradores? E alguém acredita mesmo que há alguma relação torta entre a violência contra a mulher e a decisão de homens saírem às ruas no carnaval travestidos, com minissaias de tule sintético e batom vermelhão barato? 

FACINHOS - Que as pessoas acreditem em seus manuais comportamentais para suas próprias vidas, tudo certo. O problema está é no fato de a manada auto convocar-se para fiscalizar e perseguir o comportamento de todo mundo, certíssima de que está autorizada pelos tribunais celestiais e universais a fazer isso. Com base em quais parâmetros um bando de gente que não conhecemos e em quem não reconhecemos nenhuma autoridade, sabedoria ou conhecimento, para e sobre o que quer que seja, acha que pode determinar e ditar o que podemos fazer, usar e dizer? Dirijam suas próprias vidas, ora. 

Façam suas bulas e formem suas comunidades, mas eu e muita gente não aceitamos ordens e tampouco convites para fazer parte dessa ditadura do nosso comportamento. Só um clube sob efeito de alucinógenos para defender sem medo de passar vergonha a tese de que usar um penacho na cabeça no carnaval é quase equivalente a um crime contra a humanidade. São microditadores que arrotam saber onde ficam todas as fronteiras do certo e do errado, do pode e do não pode. São militantes do bem universal, mas ofendem, agridem e xingam sem pestanejar. Não querem discordar. Querem apontar para você e dizer que você cometeu erros por pensar assim ou assado. Segundo quem? Seriam risíveis se não fossem desrespeitosos e ofensivos. Como têm linguagem atrofiada e pensar exige construir algum argumento razoável, preferem empacar na simplificação diante de quem se recuse a entrar em suas caixinhas. Já no segundo questionamento, anunciam toda a inteireza da sua textualidade: chamam o interlocutor de preconceituoso, privilegiado e chato, esses substantivos facinhos, apropriadíssimos para justificar teses insustentáveis. E por falar em chatos, esses policiais do repertório alheio e donos da cultura de todos os povos e todas as etnias têm um talento insuperável para a chatice.

Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da Facom/UFBA