Nova revolução: centenas de profissões podem deixar de existir na próxima década

Estudo revela que metade dos postos de trabalho nos Estados Unidos pode ser substituída pelos computadores

Publicado em 16 de outubro de 2015 às 05:44

- Atualizado há 10 meses

Operadores de telemarketing, preparem-se: sua profissão está no topo da lista dos postos de trabalho que mais correm risco com a    automatização,   na próxima década. Ou seja, aquelas  que podem ser  substituídas por máquinas  - especialmente computadores e robôs. Quem diz isso é o professor Carl Frey, da University of Oxford, na Inglaterra. Em 2013, ele conduziu um estudo que classificou as chances de 702  profissões  serem automatizadas nos Estados Unidos. Desse total, 47% podem ser substituídas por computadores. Por telefone, Frey, que atualmente é um dos diretores do Programa de Tecnologia e Emprego da Universidade de Oxford, conversou com o CORREIO e falou sobre o futuro do emprego e do mercado de trabalho.

Como o senhor conduziu o estudo que concluiu que mais de 700 profissões correm risco de  serem  automatizadas? Nós começamos a olhar para o mercado de trabalho, uma vez que a automação tem se expandido. Historicamente, se você olhar o mercado de trabalho, vai perceber que tem que estar preparado para a forma como a automação vai se associar às atividades. Hoje, estamos diante de uma nova geração de tecnologia e máquinas relacionadas à robótica. Assim, a pergunta que nós nos fizemos foi: como será o futuro do emprego e que tipo de atividades são mais suscetíveis à automação ao longo da próxima década. Tentamos descobrir isso com um grupo de especialistas em máquinas de aprendizagem e robótica móvel. Juntos, na Universidade de Oxford, buscamos apresentar uma nova visão. E fizemos isso associando a possibilidade de automação a critérios como interação social, criatividade, percepção e manipulação. Professor da University of Oxford, na Inglaterra, é um dos diretores do Programa de Tecnologia e Emprego da instituição. Além de pesquisar sobre a transição de nações industriais para economias digitais e seus desafios para o crescimento do mercado de trabalho e do desenvolvimento urbano, Frey também atua como consultor internacional para governos. (Foto: Acervo Pessoal) Por que esses critérios? Escolhemos isso porque essas são palavras-chave para que o trabalho humano tenha uma vantagem competitiva. Depois, tentamos classificar o quão suscetíveis os postos de trabalhos são à automação. Fizemos perguntas como “quanto de originalidade o seu trabalho envolve, quanto de associação (a outras habilidades), o quanto de persuasão”...  Baseado nisso, chegamos a um algoritmo que prevê quão suscetíveis à automação são esses empregos.O que significa ser suscetível à automação? Essas profissões podem ser  extintas?   Depende muito. Acho que não podemos dizer quais postos de trabalho serão extintos e quais trabalhos a demanda por eles vai diminuir. Não estou dizendo que esses trabalhos vão desaparecer, o que estou dizendo é que eles são suscetíveis à automação. Mas, sim, em alguns casos, as pessoas que ocupam esses postos de alto risco poderão ser potencialmente substituídas por computadores. O que dizemos é justamente isso, que é possível substituir a força humana por computadores.  Existe algum motivo para áreas como transportes, logística e setores administrativos serem mais suscetíveis à automação?   Sim, existe. É porque o desenvolvimento nessas áreas caminha nesse sentido. Temos inovação na área de robótica, de veículos, e isso afeta o setor de transportes. Hoje, dirigir um carro já é uma atividade que um computador pode fazer. O desenvolvimento na área de robótica móvel também nos levará a isso cada vez mais.Foi uma surpresa que postos de trabalho no setor de serviços tenham alto risco de automação? De certa forma, sim. Um exemplo disso são os garçons e garçonetes ou telefonistas, mas acredito que isso vai acontecer a partir da tecnologia que será implementada para facilitar esses serviços.Serão criadas novas ocupações?   Claro. Se você olhar para o século passado, vai ver que foram criados trabalhos novos de lá para cá, com pessoas trabalhando com turismo, com engenharia de softwares. Novas profissões  são criadas sempre. A velocidade com que isso acontece depende das necessidades do mercado e também do investimento que é feito para garantir que esses novos empregos sejam criados. Acho que a grande questão é saber se o preço pela criação de novos trabalhos será justo, nesse cenário. Nós não sabemos isso ainda.Como essas mudanças afetam o mercado de trabalho?   Não é só dizer  que a tecnologia cria novos trabalhos e, ao mesmo tempo, destrói trabalhos já existentes. Mas parte das profissões que têm emergido também pode desaparecer, a partir das tecnologias disponíveis. Você vai ver que atividades que requerem baixos níveis de competências vão diminuir. Hoje, você vê que os novos trabalhos na área de biotecnologia, por exemplo, requerem competências específicas. Ao mesmo tempo, os trabalhos que têm alto risco de automação são atividades que requerem menos qualificação. O que vemos é que as oportunidades de emprego se tornarão mais e mais disponíveis para quem tiver essas habilidades específicas.

O senhor enxerga essas mudanças como uma guerra entre humanos e tecnologia ou essa pode ser uma visão muito pessimista?   Nós temos que ter consciência de que a tecnologia pode trazer consequências econômicas adversas para os trabalhadores e nós precisamos gerenciar isso. Se você voltar alguns anos atrás, verá que muitas pessoas trabalhavam com agricultura, mas isso foi mudando e muitas pessoas passaram a trabalhar em fábricas. Hoje, a maioria das pessoas ocupa esses postos de trabalho. Logo, a tecnologia é uma oportunidade, mas nós temos que garantir que  uma grande parcela da população se beneficie dessas mudanças.Nesse cenário, como os países conseguem ser competitivos?   Acredito que, para ser competitivo, você precisa ter uma força de trabalho que possa competir, o que demanda que postos de trabalho sejam criados e que você precisa inovar para criar novas ocupações na indústria. Acho que você precisa estar na linha de frente da tecnologia. O que os países precisam fazer é investir na força de trabalho,  investir na infraestrutura que vai prover o ambiente necessário para a inovação e garantir que a população que está às margens se beneficie disso. Não existe ganho econômico se todas as pessoas no país não forem igualmente beneficiadas pela inovação. E também é preciso garantir que uma boa fração da força de trabalho participe das atividades. Acredito que atingir o equilíbrio perfeito é um desafio para muitos países.Como essas mudanças podem influenciar o que é ensinado nas universidades?   Provavelmente não vai mudar tanto quanto deveria. Mas se você olhar para o meu próprio trabalho (como professor e pesquisador) algumas décadas atrás, a maioria das pessoas simplesmente faria cálculos usando as mãos. Agora, nós temos softwares sofisticados que tornam mais fácil fazer algumas pesquisas e chegar a novas percepções. E também houve benefícios quanto a forma como os dados ficam disponíveis. Então, para a pesquisa, acredito que essa conquista foi muito boa. Quando falamos de ensino, acredito que muitas  universidades não estão usando a tecnologia tão bem quanto deveriam. É possível investir em jogos de criatividade em plataformas online que promovam aprendizado real. Combinar novas formas de ensino com a garantia de que os estudantes se beneficiem das tecnologias no processo de aprendizagem é uma bom caminho para as universidades.Em que os profissionais devem investir para não ficar de fora desse novo mercado de trabalho?   Você não vai estar fazendo nada de errado se aprender sobre novas tecnologias para se tornar apto a responder demandas e processos complexos. Mas também acho que existe um risco em focar demais em habilidades técnicas. É preciso investir em competências sociais.O estudo fala sobre a realidade dos Estados Unidos. Como isso pode afetar países em desenvolvimento, como o Brasil? A partir do momento que a tecnologia se torna disponível, ela se torna disponível em todos os lugares. A tecnologia que existe nos EUA pode existir no Brasil, na Suécia ou na Etiópia. Não importa de onde estamos falando. O que importa é a velocidade com que o uso da tecnologia vai afetar os profissionais. Acredito que, em um país como o Brasil, essa mudança talvez aconteça de forma mais lenta. Mas também pode ser igualmente destrutivo, porque o Brasil ainda não tem a indústria de tecnologia estabelecida.  Não existem tantas oportunidades de trabalho e o nível de educação da força de trabalho é provavelmente um pouco mais baixo do que nos Estados Unidos. Por isso, o impacto da automatização pode ser tão grande quanto nos Estados Unidos, mas não será tão rápido. Também é preciso investir em desenvolvimento social e esse é o grande desafio. Acredito que  se trata de garantir que a população que está à margem também tenha acesso aos benefícios oriundos dessas mudanças. Acho que não existe forma de ser competitivo sem isso.