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Saulo Miguez
Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 05:00
“Eureka!” teria gritado Arquimedes ao descobrir o princípio do deslocamento da água e, com isso, o caminho para a solução do dilema apresentado pelo rei Hierão II, que queria saber o volume de ouro da sua coroa sem precisar derrete-la. A interjeição grega, que significa encontrar, é a onomatopeia dos grandes achados científicos. Cada grito desse vem acompanhado de muito esforço, noites em claro e costumam mudar a rota da história da humanidade. Afinal de contas, o que seria do mundo se não fossem os cientistas. >
No final dos anos 1940, no Recôncavo Baiano, a ciência ganhava mais um forte aliado. Naquele tempo, a hoje cidade de Conceição do Jacuípe, local de nascimento de Antônio Ferreira da Silva, ainda era o distrito de Berimbau, de Santo Amaro da Purificação. O rio Paraguaçu, o samba de roda e todo o axé que elevaram Caetano Veloso e Maria Bethânia ao estrelato musical, também fizeram Antônio brilhar.>
A sala de aula, por sua vez, tem sido seu palco há quase seis décadas. As teses são seus poemas e a Física a sua forma de fazer arte. O professor Antônio, titular do Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (Ufba), foi eleito para a Academia Brasileira de Ciências (ABC), após rigorosa triagem e análise curricular.>
Com doutorado e pós-doutorado pela Linköping University, na Suécia, Ferreira é fundador da Academia de Ciências da Bahia. Sua atuação acadêmica é vasta e abrange áreas como nanociência, energias renováveis, produção de hidrogênio, fotocatálise, células solares, biotecnologia e modelos de inteligência artificial aplicados a biomateriais e às ciências da saúde. >
Gigante também é a sua experiência profissional e de vida. Ele rodou o mundo colaborando com estudos em mais de 15 países, como China, Japão, Suécia, Estados Unidos e Colômbia, e atuando em alguns dos principais institutos de ensino e pesquisa do Brasil, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). >
Apesar do currículo infinito e de ter rodado o mundo, o professor Antônio não esquece de onde veio. Com alegria, relembra a professora do curso primário Maria Azevedo como alguém que “sabia ensinar” e tantos outros mestres que o inspiraram a ser um acadêmico que faz a “interdisciplinaridade entre as profissões”. >
“Agora, estou estudando nanobiomateriais, que são coisas muito pequenas que vão servir para curar. Estou mudando de área e entrando nas ciências da saúde. Daqui uns dias, vocês vão me ver no Hospital das Clínicas”, anunciou.>
Em entrevista ao CORREIO, o professor contou um pouco da sua trajetória, falou sobre a valorização da educação infantil para a formação de futuros cientistas e explicou como a China, investindo em ensino superior e pesquisa, se tornou essa grande potência econômica.>
Como surgiu seu interesse pela Física?>
Foi algo muito curioso. Sempre fui muito curioso em relação a matérias como Física, Matemática e Química. Eu, assim como minha mãe, lia muito. Então veio a época do vestibular e eu me perguntei o que iria fazer. Só se falava em engenharia e resolvi tentar, mas, nessa época estava trabalhando e decidi fazer a prova por fazer. Resultado: perdi justamente em Física. Passei em tudo, menos Física. Tirei uns 4,5, ou alguma coisa assim. Foi até bom porque eu não queria cursar engenharia. Depois disso, descobri que tinha o curso de Física na Escola de Filosofia, em Nazaré. Fiz o vestibular e passei. >
Como foi o curso?>
Depois do primeiro ano, eu pensei que queria algo diferente e fiz vestibular para Arquitetura. Passei. Gostava da Arquitetura porque iria estudar muito humanidades e a Escola de Arquitetura daqui da Ufba é muito boa. Tinham bons professores que ensinavam isso, a como adaptar a arquitetura à sociedade local e eu me encantei. Mas, ao final do primeiro ano deste novo curso, resolvi voltar para Física e terminar. Isso foi engraçado.>
Conta um pouco como pensou em entrar na vida acadêmica.>
Naquela época, haviam umas missões das Nações Unidas (ONU) que mandavam professores europeus em especial para o Brasil. Eu tive a sorte de ter professores da Hungria, da Tchecoslováquia, da Polônia, França, foram meus professores que me ensinaram a alta matemática, a parte de eletricidade. Eu me encantei. Eles falavam em inglês, e eu nunca estudei inglês na minha vida porque eu não tinha dinheiro para isso. >
Como entendia as aulas?>
Eles falavam devagarinho e escreviam no quadro. Aí eu pegava o livro em casa e tentava traduzir. Com isso, eu passei direto em todas as disciplinas. Fiz o curso inteiro de Física na Ufba em dois anos e meio e, ao final desse tempo, não tinha mais disciplinas para eu fazer. Aí eu me formei em menos de três anos.>
E a sua saída da Bahia para o mundo?>
Vi que aqui na Bahia não tinha mais nada para mim. Eu então apliquei para uma bolsa de Mestrado e fui para Brasília. Mas a bolsa do CNPq era muito pequena e não dava para pagar meu aluguel. A opção que eles davam era ajudar o curso de Física da Universidade de Brasília sendo monitor. Eu disse: topo. E comecei a ajudar para ganhar mais alguma coisa.>
Na Universidade de Brasília, as coisas eram muito avançadas. O estudante tinha que ter velocidade própria. A Universidade colocava, por exemplo, 15 tópicos, se ele [o estudante] fizesse tudo em um mês, ele já estava aprovado, mas você tinha que saber tudo.>
Mas, um dia, eu praticamente fugi de Brasília. Como eu trabalhava, comprei um carro, peguei a estrada e saí no oeste de São Paulo. Fui passando por Ribeirão Preto, São Carlos até chegar em Campinas. Fiz isso com um colega do Ceará. Quando cheguei em Campinas, estava a Unicamp florescendo e eu disse: aqui eu fico. Aqui estão os melhores professores do Brasil. Todos eles tinham voltado do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], Harvard. Só tinha professores de altíssimo nível. >
Na época, o reitor Zeferino Vaz [primeiro reitor e fundador da universidade], fez aquela universidade e os professores eram praticamente todos estrangeiros. Compraram os melhores equipamentos do mundo. Eu peguei excelentes professores e fui muito bem. Fiz meu mestrado, minha tese e publiquei trabalho. >
A saída do Brasil, como foi?>
Apliquei para bolsas de doutorado no estrangeiro e vi que o melhor lugar para ir seria a Suécia, fiquei em dúvida entre as cidade de Upsala, Estocolmo e Lincheve. Decidi ir para Lincheve porque lá tinha um professor muito ligado ao Prêmio Nobel. Após um ano estudando, decidi mudar novamente e perguntei ao meu orientador o que fazer. Ele disse que a onda eram os semicondutores, que isso iria explodir, mas que quem entendia muito do assunto eram os japoneses. >
Eu perguntei: como faço para ir pro Japão? Ele me falou que eu precisava falar com o reitor. Nessa época, eu já estava casado. Conversei com o reitor que tinha falado com o meu orientador e ele disse que o jeito era eu ir pro Japão. Ele [o reitor] me perguntou o que eu precisava. Eu disse que precisava da passagem da minha mulher e da minha. Ele respondeu: ‘você só precisa disso? Então já está tudo certo.’>
Imediatamente, acertei com o professor Takeo Matsubara. Quando digo aqui que estudei com Takeo Matsubara, as pessoas se surpreendem. Era altíssima matemática e altíssima física de aplicação para entender porque os semicondutores funcionavam para fazer chips. Os japoneses foram muito bons em aviação e em outras áreas naquele período do pós-guerra. >
Em um ano, fiz tudo que tinha que fazer no Japão e falei com o meu orientador que iria voltar à Suécia para escrever a tese. Ele disse: mas você vai fazer sua tese em menos de três anos? Isso não existe na Suécia. A tese são cinco, seis anos. Eu disse: a minha vai ter dois e meio. Fiz a tese e passei.>
Houve convite para ser professor na Europa?>
O diretor-geral da universidade de Lincheve chegou para mim e disse: ‘Antônio, você já tem um lugar para ser professor aqui na Suécia’. Eu disse que não queria, porque buscava algo ainda mais desafiador. E continuei: existe uma coisa em São José dos Campos chamada Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Lá eles estudam a atmosfera, fazem foguetes. É isso que eu quero. Quero poder dar minha contribuição. O diretor tomou um susto. Eu estava saindo de um certo para um duvidoso. Fui para o Inpe e adorei. Inaugurei alguns laboratórios de primeiríssima qualidade. >
Daí em diante eu passei a viajar muito. Meu passaporte vinha do Itamaraty porque o instituto era diretamente ligado à Presidência da República. A gente tinha escritórios nos Estados Unidos, na Índia e na China. Ali em São José dos Campos é um polo de inteligência, por assim dizer. O número de engenheiros per capita é um dos maiores do mundo e lá fica o Instituto Tecnológico da Aeronáutica [ITA]. Eu dei aula no ITA e meu primeiro estudante de mestrado foi de lá.>
Como relaciona o desenvolvimento econômico da China e o fato das universidades de lá serem hoje as melhores do mundo?>
Relaciono isso muito bem. Eu nunca entendi porque as pessoas do meio acadêmico não pressentiram isso. Muitas coisas da China ainda irão nos assombrar. Na época que eu estava na Suécia, conversava muito com os suecos e um dos professores daquela época, há mais de 30 anos atrás, me disse que a China contratava os melhores professores do mundo, comprava o equipamento que o professor quisesse, dava toda estrutura, salário e o estudante que ele quisesse levar, o governo chinês também pagava. >
Chegavam a contratar mil grandes pesquisadores de uma só vez. Desde aquela época, me falavam que a China seria a principal economia do mundo, então para mim não tem surpresa nenhuma isso que acontece hoje, porque eu já sabia que isso iria acontecer. E eles continuam crescendo. Toda a produção de semicondutores está em Taiwan e, não se engane, a China vai querer tomar esse país.>
Como é o processo para se tornar um imortal da Academia Brasileira de Ciências?>
A Academia Brasileira de Ciências cobre todas as áreas de conhecimento no Brasil inteiro. Eles fazem uma triagem que olha quem são as pessoas naquele ano que estão desenvolvendo mais a ciência no país, bem como levando a ciência brasileira para fora do país e trazendo a ciência dos outros países para cá. >
Para você ser eleito, primeiro você é indicado e entra em uma triagem com todos os outros cientistas da sua área. A eleição tem que ser por unanimidade. A partir daí, a área do conhecimento, no meu caso a Física, passa a ter um candidato. Então essa pessoa vai concorrer com pessoas da Química, da Medicina, Engenharia e demais áreas. Agora, eu tenho que ir lá no Rio de Janeiro receber o título de imortal.>
Como foi seu sentimento quando foi eleito?>
É um misto de sentimentos que você não sabe se é contentamento, se é prazer. Até hoje eu não sei exatamente o que senti, porque o negócio é tão poderoso que só irei saber no final de abril, quando vai acontecer uma cerimônia onde vou receber o diploma. Eu gostei também porque a Ufba está precisando disso. Estou colocando essa vitória para a Bahia. É muito importante ter uma pessoa do nosso estado e do Recôncavo, faço questão de dizer, nesse lugar.>
O que o país precisa fazer para formar mais cientistas?>
Quase ninguém se importa com isso. E se importar com o desenvolvimento das pessoas é primordial, mas como fazer isso? Foi o que a China fez. A China era pobre. Até aqui na América Latina temos bons exemplos. Eu passei um mês na Colômbia estudando as escolas primárias e como essas escolas são tratadas pelas universidades. Aí você descobre muitas coisas. Quando a gente compara com o Brasil, é um choque. Todas as crianças têm curso integral nas escolas do governo e aprendem tudo lá. Um dia, o amigo que me levou para lá foi me deixar no aeroporto, mas antes pegou o filho na escola e nós ficamos conversando em inglês, porque na escola pública eles aprendem inglês. Se você pega esse pessoal com 11, 12, 13 anos e oferece uma escola séria para eles, você terá o melhor país do mundo.>
Antônio Ferreira da Silva é professor do Instituto de Física da Ufba. Ele possui graduação em Física pela Universidade Federal da Bahia (1970), mestrado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (1975), doutorado em Física – Linköping University, Suécia (1979) e pós-doutorado na Linköping University (1996). Ele também é um dos fundadores da Academia de Ciências da Bahia e, recentemente, foi eleito para a Academia Brasileira de Ciências.>