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Thais Borges
Publicado em 17 de março de 2026 às 09:12
A chamada de um número desconhecido aparece na tela do celular. Você atende, mas, do outro lado, ninguém fala nada. Poderia ser engano ou mesmo um problema na linha. No entanto, um dos maiores riscos hoje é que essa ligação não seja tão inocente assim. O chamado ‘golpe da ligação’ muda tem provocado o alerta de autoridades e especialistas nos últimos meses. >
Por segurança, a empresária Cristina Matos, 58 anos, deixou de atender qualquer ligação, a menos que tenha o contato da pessoa salvo no celular. “Fora isso, só ignoro todas e deixo lá tocando, tanto no fixo quanto no celular. Se a pessoa quiser realmente falar comigo, vai me mandar um Whatsapp. Porque, se for golpe ou algum indício de golpe, eu já bloqueio", conta ela, que passou a tomar a medida depois que teve o número clonado. >
Com as ligações mudas, especialistas apontam que há desde riscos de reprodução da voz da vítima para aplicar golpes com Inteligência Artificial (IA) ou mesmo movimentos para conferir se a linha segue ativa, por parte de grupos criminosos. Ainda que seja uma preocupação crescente e, em parte analógica, a ligação muda é considerada um tipo entre as diferentes modalidades de crimes cibernéticos, por envolver tecnologias e dados sensíveis. >
Em todo o Brasil, os crimes de estelionato virtual cresceram 408% entre 2018 e 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Com mais de 2,1 milhões de casos em 2024, o país atingiu a marca de quatro golpes por minuto. A pesquisa Observatório da Febraban, organizada pela federação que apresenta os bancos, indicou que, em 2025, 39% dos brasileiros já foram vítimas de algum tipo de golpe em sua conta bancária. Dentre esses, a modalidade da central falsa, uma das que usa ligações telefônicas, chegou a 31%, tendo crescido cinco pontos percentuais entre março e julho. >
Esse tipo de golpe atingiu, principalmente, homens (33%), idosos (35%), pessoas com ensino superior (38%) e renda mais alta (38%). Outros crimes que chegam pelo celular, como o golpe via Whatsapp, também foram citados. Esse, especificamente, atingiu pelo menos 34% das pessoas e chama atenção pela alta quantidade de vítimas jovens (40% tinham entre 18 e 24 anos). >
A Polícia Civil da Bahia foi procurada, mas não informou estatísticas de crimes cibernéticos na Bahia e não disponibilizou fonte para entrevista. >
Sem falar nada>
A ligação telefônica muda começou com as empresas de telemarketing, segundo o advogado Liberato Menezes, especialista em Ciências Criminais e professor de Direito da Afya Salvador. Elas usavam robôs para fazer o maior número de chamadas possível, tanto para vender produtos quanto para cobrança. “Então surgiu a ideia dos criminosos. É uma fraude para enganar o terceiro, de boa fé”, diz. >
Segundo ele, esses golpes são considerados estelionato virtual. Eles passaram a ser tipificados dessa forma a partir de 2021, com uma mudança no Código Penal, ainda que não exista um crime específico para essa situação. “Essa é a grande diferença entre o crime de estelionato e o de extorsão. A partir do momento que existe uma violência grave, usando vantagem indevida, é extorsão. Nos dois casos, pode acontecer a ligação muda, mas, no estelionato, a vítima é enganada de forma fraudulenta”. >
Além disso, atender à ligação pode ser o suficiente para que uma IA registe a voz da pessoa, mesmo naqueles segundos iniciais. Assim, essa voz falsa pode ser usada no futuro para aplicar golpes, inclusive em pessoas que a vítima conhece, como idosos, adolescentes e crianças. “A preocupação é se daqui a um tempo eles vão aprimorar mais isso e se esses 10 segundos já serão suficientes para uma voz totalmente idêntica”. >
Ainda de acordo com o advogado, empresas podem ser responsabilizadas caso sejam usadas de alguma forma - seja por terem deixado vazar dados de clientes, seja por terem seus nomes usados pelos golpistas. “É possível responsabilizar as empresas civilmente, não criminalmente. A responsabilidade civil pode, sim, alcançar as empresas e instituições que não tratam dados sensíveis com tanta segurança”. >
Ele admite, contudo, que é difícil se proteger 24 horas por dia de um golpe. Por isso, a recomendação geral no caso das ligações mudas é de não atendê-las. “Se for imprescindível, atenda e não diga nada. Mas os criminosos, às vezes, não querem nem ouvir a voz. Só querem saber se a linha está ativa ou não. O golpe acontece já por a pessoa atender”, acrescenta. >
Acolhimento>
Por vezes, as vítimas dos golpes cibernéticos só percebem a fraude depois de formar um vínculo. De acordo com a psicóloga e psicanalista Camila Camaratta, o crescimento desses crimes está ligado a uma mudança no modo como a fraude é estruturada. “Esses golpes não começam mais pelo dinheiro. Eles começam pelo afeto. A pessoa é capturada pela sensação de ser vista, escutada, escolhida”, afirma.>
Muitas vezes, segundo ela, não se trata de falha de segurança ou desconhecimento tecnológico. “A violência desse tipo de golpe é psíquica antes de ser financeira. A pessoa perde dinheiro, mas perde também uma fantasia que sustentava sua autoestima”, diz a psicanalista.>
Durante a situação, é como se o sistema cognitivo não tivesse espaço para elaboração e atropelasse o processo de identificar que se trata de uma ligação falsa ou perigosa. O psicólogo Jonatas Tourinho, coordenador do curso de Psicologia da Afya Salvador, lembra que, muitas vezes, bandidos usam figuras da família da vítima, adicionando uma carga afetiva ao golpe. >
“A IA acaba sendo uma aliada nesses golpes, porque a voz humana traz consigo um valor emocional e relacional que geralmente é positivo. O cérebro vai desenvolver reações afetivas, associações automáticas com carga sentimental de confiança, proximidade e segurança. Quando a vítima acredita que está ouvindo essa voz familiar, reduzem-se os mecanismos de defesa de desconfiança”. >
Por isso, não é incomum que quem passa por esse tipo de situação tenha vergonha - em especial quando, ao invés de acolher, a família passa imediatamente para o julgamento. Em alguns casos, usam palavras ofensivas que podem provocar ansiedade e até sensação de hipervigilância, como um transtorno de estresse pós-traumático. “Um dos pontos mais importantes é tentar desacelerar, interromper o fluxo da situação e respirar para confirmar as informações”, orienta Tourinho. >
Isso vai desde pensar em contatos alternativos com as pessoas envolvidas até a possibilidade de estabelecer códigos, como palavras que só poderiam ser conhecidas por esse núcleo, em situações de emergência. “Mas é preciso entender também que isso não é uma garantia. Todos nós estamos sujeitos a essas vulnerabilidades, porque os bandidos estão se atualizando. Assim como a gente estuda estratégias para se prevenir, eles também estão pensando novas estratégias”. >