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Moyses Suzart
Publicado em 22 de março de 2026 às 08:00
Imagine abrir uma caixa de perguntas no seu Instagram e receber algumas em que sua mente suja dá bug de tanto imaginar o “lá ele”. Do nada, um solta: “Binho, a negona meteu uma massagem tântrica em mim e tô viciado. E agora? Me ajuda!”. Ou uma dúvida como essa: “Bresu, me ajuda! Ele brochou 2x por eu estar menstruada, disse que ia sujar, passo pro próximo?”. Bresu, neste caso, é Bresudo (@bresudo_oficial), o influencer baiano com 1,5 milhão de seguidores, um motoboy que está se tornando consultor de casos mais inusitados e apimentados que só o molho baiano pode oferecer. E tudo começou quando ele resolveu proteger as curvas de Jojô Todinho contra os malfeitores da estética padronizada das redes sociais. Bresu não deixa passar nada! >
A dinâmica que tornou Bresudo conhecido parece simples, mas carrega uma complexidade que vai além do riso fácil. Em um ambiente dos influenciadores digitais dominado por filtros, roteiros e estratégias, ele se destaca justamente pelo contrário, pela espontaneidade quase crua com que responde às perguntas dos seguidores. A base do conteúdo são caixinhas abertas, onde o público envia de tudo, principalmente questões de cunho sexual, muitas vezes constrangedoras, e recebe de volta respostas rápidas, diretas e carregadas de humor. “Eu só respondo, véi. A pergunta chegou lá, respondo de uma forma diferente. Não fico pensando não. Sai na hora. É por isso que dá certo, porque vai com naturalidade”, afirma, deixando claro que o improviso não é descuido, é essência.>
O que começou sem pretensão acabou encontrando um caminho próprio, impulsionado pela identificação do público com aquela forma despretensiosa de se comunicar e dar conselhos. “Não esperava, velho. Só respondia. A pergunta vinha e eu respondia. Foi acontecendo, o povo foi me seguindo, mandando perguntas e se tornou isso aí”. >
Com o tempo, o conteúdo foi ganhando novas camadas, principalmente quando ele passou a abordar temas como corpo e autoestima. “Eu defendia as mulheres, falava de celulite, de mancha, dessas coisas que a galera tem vergonha. Elogiando, mas de uma forma diferente, que o baiano conhece e fala nas ruas”, explica, evidenciando um cuidado que contrasta com o tom escrachado das interações.>
A interação constante com os seguidores virou a espinha dorsal do perfil. É o público que dita o ritmo, testa limites e provoca reações, muitas vezes com o objetivo claro de gerar situações constrangedoras para o próprio Bresu, também conhecido como Vanderlei Luz. Ele mesmo se surpreende com algumas, como essa: “Bresudo, foi bom a lambida na rotatória? Porque eu amei!”. Ele cai no clima e responde: “Quando ela bota Sorriso Maroto e pega a estrada velha do aeroporto… Delícia”. >
Ele compara o ambiente virtual a rodas de conversa do cotidiano, como um churrasco ou um campo de futebol, onde a informalidade dita as regras. Ainda assim, existe um limite que não é negociado, e ele não nasce da internet.>
Conheça Bresudo
PATERNINADE>
Esse limite vem da experiência pessoal, mais especificamente da paternidade. Bresudo é pai de uma criança autista, e essa vivência redefiniu sua forma de enxergar o mundo. “Aprendi a não ter preconceito. Quando você passa a viver isso, começa a se colocar no lugar das pessoas. Vê com outros olhos”, afirma. A fala revela uma camada que nem sempre é visível para quem acompanha apenas os vídeos. >
A descoberta do autismo do filho foi um processo gradual, marcado por dúvidas, inseguranças e falta de informação. Os primeiros sinais vieram no comportamento, em detalhes que, aos poucos, começaram a chamar atenção. “A gente começou a perceber pelo comportamento, pelo visual, andar na ponta do pé, ficar mais isolado. Aí fui procurar médico, fazer exame, até vir o diagnóstico”, relembra. O impacto foi imediato, especialmente dentro da família. “Pra mãe foi pior. É um baque. Você não sabe o que fazer”, diz. Sem referências próximas e sem histórico familiar, o desconhecimento ampliou o desafio. “Na minha família nunca teve. Eu não sabia o que era. Via as pessoas falando, mas não entendia”, completa.>
A partir do diagnóstico, começou uma nova rotina, marcada pela busca por informação, adaptação e, principalmente, paciência. “Eu comecei a estudar, correr atrás. A paciência é a número um que você tem que ter. Você precisa entender a diferença entre birra e outras coisas”, explica. No entanto, as dificuldades não ficaram restritas ao ambiente doméstico. A falta de suporte e de políticas efetivas tornou o processo ainda mais desgastante. “Eu não achava apoio nenhum, irmão. Nem da família, nem de lugar nenhum. Ninguém fala como é ser pai de uma criança autista na realidade”, afirma, evidenciando um vazio que vai além da experiência individual.>
Foi justamente essa ausência que motivou a decisão de expor sua realidade nas redes sociais, ampliando o conteúdo para além do humor. “Eu comecei a mostrar o dia a dia, as dificuldades, fazer barulho para as pessoas verem o que a gente passa”, diz. A iniciativa, no entanto, não foi bem recebida por todos. A exposição trouxe críticas e ataques que quase o fizeram desistir. “Disseram que eu estava usando meu filho pra ganhar engajamento. Eu quase entrei em depressão”, revela. Com o tempo, a percepção começou a mudar à medida que a realidade se tornava mais visível. “Quando comecei a mostrar o outro lado, muita gente voltou atrás. Disse que era difícil mesmo”, completa.>
Apesar da visibilidade crescente, a realidade financeira ainda impõe limites claros. A renda gerada pelas redes sociais ajuda, mas está longe de ser suficiente para cobrir todas as despesas. “Dá pra ajudar, mas sustentar minha família não dá não. O tratamento do meu filho é muito caro”, diz. Os custos mensais são altos. “Dá uns dez mil por mês. Transporte, plano de saúde, alimentação, fralda… é muita coisa”, detalha. Diante desse cenário, ele mantém a rotina de trabalho como motoboy, conciliando as entregas com a produção de conteúdo. “Eu não parei de trabalhar. Continuo no corre”, afirma.>
Essa realidade explica escolhas que fogem à lógica comum das redes sociais, onde ostentação muitas vezes é sinônimo de sucesso. Bresudo prefere priorizar o essencial. “O povo fala para eu trocar minha moto, que está velha. Eu até tenho condição de comprar uma moto nova, mas vou comprar pra quê? Pra deixar meu filho sem as coisas? Não. Vai ser a velha mesmo”, afirma, de forma direta. A decisão reflete uma hierarquia clara de prioridades, onde o bem-estar do filho vem antes de qualquer símbolo de status. “Eu vou priorizar o futuro dele. A terapia, o transporte, tudo”, reforça.>
“Tem dia que ele não consegue entrar no ônibus. Aí tem que ir de Uber. Mês passado foram R$ 700 só de transporte”, conta. As dificuldades são constantes, mas não paralisam. Ao contrário, alimentam a determinação. “Para ser pai de uma criança autista, você tem que ter coragem. Se não tiver, nada acontece”. >
No meio desse cenário, o humor permanece como ferramenta central, não apenas de trabalho, mas de sobrevivência. É por meio dele que Bresudo cria conexões, amplia sua voz e sustenta uma narrativa que vai além do entretenimento. “Tô aqui fazendo vocês rirem, mas tenho uma luta que poucos sabem”. Sem planejamento inicial, mas com propósito consolidado, ele transformou a leveza das respostas em um canal de comunicação potente. “Uso o humor pra chegar nas pessoas. E aí mostro a realidade também”, explica. >
O humor também transformou. João Bernardo não fazia contato visual, tampouco falava. Bresudo começou a fazer vídeos com o filho, criou até um perfil para ele (@jbernardo1208). O grande Jonh apresentou melhoras consideráveis com os vídeos, já conversa e melhorou seu lado sociável. Entre perguntas constrangedoras e respostas rápidas, Bresu mostra uma rotina marcada por esforço, decisões difíceis e uma luta constante por direitos. E é justamente nesse contraste que está a força do conteúdo. Bresudo faz rir, mas não vive de riso. Vive de resistência.>