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Thais Borges
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 07:30
De grandes nomes da música brasileira no cenário internacional, como Anitta e Alok, aos estreantes, a lista é grande: a cada ano, mais artistas de outros estados investem profissionalmente no Carnaval de Salvador. Em 2026, a festa recebeu ainda mais 'forasteiros’, mostrando que há espaço para novos nomes e para que as atrações se reinventem. >
No comando de trios, além desses já citados, estavam nomes como Ludmilla e Pedro Sampaio, com participações de outros como Pabllo Vittar, Melody, Gloria Groove e até a britânica Leigh-Anne Pinnock, ex-integrante da girlband Little Mix, que foi uma das convidadas de Ludmilla. Ela já tinha vindo à cidade para participar do festival Afropunk, em 2023. Outro estrangeiro que retornou a Salvador após um hiato de 13 anos é o cantor americano Ne-Yo, que se apresentou no Camarote Salvador na última segunda-feira (16).>
'Forasteiros da folia': Carnaval da Bahia se torna ponto de virada para artistas de fora
Já o cantor canadense Shawn Mendes, que causou frisson quando esteve em Salvador em novembro, voltou para a folia acompanhado de Bruna Marquezine. A atriz, inclusive, integra o grupo de famosas que se dividiram entre curtir a festa e fazer ações pontuais para marcas, a exemplo de Paolla de Oliveira e Marina Ruy Barbosa. >
Todos esses nomes reforçam o peso que a festa soteropolitana tem para os que escolhem trabalhar aqui. “O Carnaval de Salvador é uma das coisas mais potentes que a gente tem no Brasil. É energia bruta, cultura viva, ancestralidade e inovação tudo acontecendo ao mesmo tempo. Pra mim, estar ali não é só fazer show, mas sim me conectar com uma das maiores manifestações culturais do planeta", diz o dj e produtor musical Alok, que puxou seu trio no domingo (15), pelo sétimo ano. >
Ao CORREIO, ele diz que considera o Carnaval de Salvador uma escola em que é possível aprender sobre presença, entrega e leitura de público. “É um público extremamente intenso, diverso, que vive a música de uma forma muito espontânea e genuína. Isso me desafia artisticamente. Do ponto de vista da minha carreira, estar ali fortalece muito minha conexão com o Brasil. Mesmo com a agenda internacional, é essencial manter essa raiz viva. A Bahia projeta artistas pro mundo há décadas", enfatiza. >
Looks dos famosos no Carnaval de Salvador
Visibilidade >
Pedro Sampaio, que fez um show surpresa na Barra ainda na quarta-feira de pré-Carnaval (11) e comandou seu trio sem cordas pela primeira vez na quinta-feira (12), contou que participar da festa aqui era um desejo antigo. Em 2026, deu certo, e ele considera que veio com a estrutura adequada para que entregasse uma apresentação à altura da festa. >
“Estar aqui é um passo importante para minha carreira. A visibilidade que o Carnaval de Salvador proporciona é enorme. Ao mesmo tempo, é um ambiente para viver uma experiência real com as pessoas, então as marcas que caminham comigo também ganham um canal muito potente de conexão. E tudo acontece de forma orgânica, dentro de uma celebração que é culturalmente muito relevante”, avalia. >
Nas redes sociais, a britânica Leigh-Anne agradeceu a experiência. “Salvador foi um sonho! O Brasil sempre será minha casa. Aos meus fãs que compareceram e entregaram tanto amor, amo vocês mais do que tudo", publicou. Ela não foi a única a se derreter. “Eu me sinto baiana, gente. Sinto que tenho alguma coisa daqui, um axé, personalidade. Tudo que é daqui eu gosto", pontuou a artista, durante a passagem de seu bloco sem cordas. >
O impacto do Carnaval de Salvador também é sentido pelas marcas que trabalham com esses artistas, tanto de forma presencial quanto digital. “É uma vitrine cultural, mas também uma plataforma de posicionamento. Quando uma marca ativa ali, ela não está só aparecendo, ela está participando de um movimento cultural real, que tem história e significado", afirma Alok. Em 2025, por exemplo, o balanço final do Carnaval dele foi de 40 milhões de visualizações em Reels no Instagram. Foram geradas 243 mil interações e mais de 5,5 milhões foram alcançadas em todos os continentes. >
“Eu acredito muito em parcerias com propósito. Então, quando estou em Salvador, penso: como a gente pode gerar impacto positivo? Seja através de sustentabilidade, inclusão, inovação ou experiências que realmente agreguem valor pras pessoas. Com o Instituto Alok, investimos cerca de R$2 milhões em projetos na Bahia, com foco prioritário no apoio a populações negras e indígenas", conta o dj e produtor. Ele lembra que o primeiro projeto foi a Vila Esperança, na região de Canudos. >
Lá, foram construídas moradias, além de implantação de sistema de acesso à água, reforma de centro comunitário e aquisição de equipamentos de informática para a escola local. Outras iniciativas apoiadas pela entidade de Alok foram em uma escola quilombola em Ituberá, a aquisição de terreno para horta comunitária em Jacobina e oficinas de arte ancestral em Salvador. “No fim das contas, o Carnaval de Salvador é sobre conexão. Conexão com a música, com as pessoas, com a cultura, com a sociedade e com aquilo que faz a gente vibrar junto", acrescenta.>
Foliões >
O auxiliar de CRM Douglas Meireles, 25 anos, que acompanhou artistas como Pedro, Anitta e Ludmilla nos últimos dias, contou que gosta da presença de artistas de fora do estado na festa. “Acho que o Carnaval é um negócio um pouco fechado. A gente não tem estreias de novos artistas de axé que sejam grandes sucessos do Carnaval hoje em dia, então, quando a gente traz artistas de fora, que têm relevância, a gente vê o quanto o Carnaval pode ser plural. Esses artistas trazem uma pluralidade que é interessante, porque todo mundo pode curtir, ter sua vibe própria e sua experiência. Eles arrastam multidões e é interessantíssimo de ver”, opina. >
Para Douglas, alguns desses artistas ‘forasteiros’ até tentam emular a experiência de ser um puxador de trio de axé, mas nem todos conseguem, porque cada um tem uma energia diferente. “No geral, acho que eles conseguem se adaptar bem. Fazem boas tentativas e entregam um produto final interessante, apesar de definitivamente diferente dessas puxadoras e puxadores de trio tradicionais, como Bell, Ivete, Daniela e Saulo”, exemplifica. >
Fã de Anitta, o analista judiciário Leonardo Macedo, 30, conta que decidiu acompanhar o trio da cantora na sexta porque sabia que seria uma boa experiência, mas que também escolhe os artistas que acompanha pela forma como puxam o trio. “Eu gostei muito de Pedro Sampaio. Senti uma energia muito boa e estava tranquilo. Espero que ele volte outras vezes, porque essa primeira experiência com ele foi excelente. Ele teve bastante energia para conduzir o trio todo, inclusive chamou Melody par dar uma animada. Acho que ele pegou bem a vibe do Carnaval de Salvador. (O trio de) Ludmilla eu já peguei mais no final mesmo, mas estava divertido". >
Ele também não é contrário a mais artistas de outros estados participarem da festa com destaque, mas acredita que ainda é difícil competir com aqueles que já têm seu público cativo. “Acho muito positivo que venham, mas tem que saber que o público é uma galera mais enérgica. Acho que eles se voltam para cá porque gostam da energia e, querendo ou não, também é um chamariz para a carreira. É uma exposição muito grande, com as emissoras transmitindo", avalia. >
Marca >
Não há dúvidas de que o Carnaval de Salvador amplia a visibilidade da cidade tanto ao promovê-la como destino turístico quanto ao projetar a chamada ‘marca cidade’ para o Brasil e o mundo. Quem explica isso é o professor Adriano Sampaio, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ele coordena o grupo Logos – Comunicação Estratégica, Marca e Cultura, que é uma das principais referências no estudo de marca lugar no país. >
“Todos os anos, temos as mesmas discussões que são frequentes na mídia e circulam na opinião pública. Existem grandes artistas de carreiras já consagradas e de projeções nacionais e internacionais, a exemplo de Ludmilla, Anitta e Pedro Sampaio entre outros e de segmentos musicais que em tese não dialogariam com a tradição da festa. Esses artistas consagrados em outros segmentos musicais ‘pegam carona’ e lucram com a visibilidade de mídia e os grandes cachês que o Carnaval de Salvador oferece".>
Ele lembra que, a partir do Carnaval soteropolitano enquanto vitrine midiática, vão surgir contratos de publicidade e também para outros shows, carnavais e micaretas pelo Brasil. Por outro lado, cita casos de artistas como Luís Caldas, Sarajane, Lazzo Matumbi e a família Macêdo, que costumam ficar em horários de menor visibilidade nos circuitos. O professor associa esses movimentos a um contexto maior, que inclui o chamado ‘place branding’, que funcionou para promover Nova York com a campanha I Love NY, nos anos 1970. >
No entanto, seu grupo de pesquisa adota a expressão em português “marca lugar” para discutir uma perspectiva de inclusão maior sobre a visibilidade de marcas em meio ao desenvolvimento sustentável e exercício da cidadania. “É preciso repensar esse molde e formular políticas públicas mais efetivas e que articulem a marca lugar com o turismo e a economia sustentável, garantindo o bem-viver com a promoção de políticas públicas voltadas à população”.>
O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador. >