Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Thais Borges
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 05:00
Quando marcar o Carnaval na agenda do ano que vem, pode reservar um dia a mais, se a conta incluir a pré-folia: ao todo, serão 13 dias de festa seguidos, em Salvador. Esse foi o principal anúncio feito pelo prefeito Bruno Reis, nesta terça-feira (17), em uma entrevista coletiva na Sala de Imprensa Linda Bezerra, no Campo Grande, e já deu indícios de como deve ser o período momesco no próximo ano. >
Com a data móvel mais cedo - a terça-feira de Carnaval cairá em 9 de fevereiro - a folia começa ainda em janeiro. O 2 de Fevereiro, dia de Iemanjá, cai na terça-feira anterior, quando normalmente ocorre o Pipoco de Leo Santana. Para não tirar o foco do dia sagrado, o Pipoco foi transferido para a sexta-feira prévia - ou seja, dia 29 de janeiro. O Furdunço vem logo no dia seguinte, 30, enquanto o Fuzuê fica no domingo, 31. O 1º de fevereiro está reservado para a Segunda sem Lei, de Xanddy Harmonia, enquanto o dia 3 de fevereiro é com o Habeas Copus. >
Carnaval de Salvador 2026: confira imagens da folia, nesta terça-feira (17), no circuito Campo Grande
“O que isso representa, na prática? Mais um dia de festa no ano que vem e, assim, mais trabalho, mas também mais turistas na cidade, mais dias para a galera trabalhar, vender suas mercadoria e o dinheiro circular”, afirmou o prefeito. “Diante da importância desse evento, nós tomamos essa decisão. Um dia a mais, sem sombra de dúvidas, vai ajudar a incrementar mais a economia”, defende. >
Segundo Bruno, a prefeitura faz pesquisas diárias de satisfação com a festa e o resultado mais recente indicava uma satisfação de 85% dos participantes. Os números de foliões também têm sido considerados um sucesso pela administração municipal. No domingo (15), os três circuitos chegaram a receber 1,97 milhão de pessoas, segundo a Polícia Militar. >
“É óbvio que com o tempo, a experiência que a gente tem, a expertise, o know-how, a gente já sabe onde estão os problemas. A gente já sabe qual é o dia em que o problema ocorre e a hora que ocorre, então a gente consegue se antecipar. Nós conseguimos adotar medidas para minimizar ou para neutralizar, o que é fruto do couro calejado de tantos Carnavais”, pontuou. >
Iemanjá >
Apesar de ficar entre o pré e o Carnaval oficial, a festa de Iemanjá não deve perder seu próprio protagonismo. Essa é a avaliação da vice-prefeita Ana Paula Matos, que também é secretária municipal de Cultura e Turismo. “A gente não tem como mudar a data, então o que a gente fez? Ao invés de esperar acontecer um problema, a gente fez planejamento”, diz, referindo-se à decisão de mudar o dia do Pipoco. >
A edição de 2026 da festa comandada por Leo Santana chegou a reunir 800 mil pessoas. Para o ano que vem, contudo, ela adianta que é possível pensar em novidades para a celebração a Iemanjá. “O que pode acontecer é que, com a cidade cheia, a gente pode ter algumas atividades e cuidados com o 2 de Fevereiro, porque não é só a festa do Rio Vermelho, é a festa de Iemanjá e do mar”. >
Uma das principais polêmicas do Carnaval foi a ordem do desfile dos trios. Além do caso de Daniela Mercury - que havia inicialmente obtido uma liminar que garantia que ela desfilasse primeiro, mas a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça do Estado - houve uma discussão entre representantes do afoxé Filhos de Gandhy e Bell Marques, por conta da saída do Camaleão. >
O prefeito Bruno Reis lembrou que, no passado, os artistas costumavam preferir desfilar mais tarde, devido à transmissão das emissoras de televisão. “Queriam desfilar às sete da noite, às oito da noite. Já não tinha Sol, não tinha calor. O público preferia chegar mais tarde, mas isso está mudando. Essa geração mais nova aí quer chegar mais cedo e sair mais cedo, para, no outro dia, fazer atividade física e manter a saúde”. >
Na avaliação dele, é preciso se adequar a esses movimentos e ajustes devem ser feitos. “A gente viu algumas polêmicas em relação ao horário de desfile e tal, quem tem direito a isso ou aquilo, mas é por conta dessas mudanças dos hábitos das pessoas. A gente precisa se adequar”. >
A vice-prefeita Ana Paula Matos lembrou que definir a fila é uma prerrogativa do Conselho Municipal do Carnaval (Comcar), ainda que exista diálogo com todos os entes do setor. “Agora, essa autonomia de como um puxador de trio ou um bloco conversa com outro é muito deles. Mas, pense, você está lá no Sol quente, a cidade lotada, os próprios foliões pressionando para o bloco sair, querendo o seu artista preferido. Isso é natural. Os nossos artistas são tranquilos. Uma fala de um ou de outro é naquele momento. Passou. E não tira o brilho do Carnaval. No que depender da gente, vai ser cada vez mais tranquilo, mas é inevitável um ou outro questionamento”. >
Assim como tem acontecido no mundo e como foi uma tendência no verão, o Carnaval não foi diferente. De acordo com o prefeito Bruno Reis, já foi possível notar uma redução no consumo de álcool durante a festa. >
No entanto, ele garantiu que essa constatação não afeta o contrato de patrocínio do evento, uma vez que uma das empresas de destaque entre as apoiadoras da folia é a Ambev, com as marcas Brahma, Beats e Corona. "O patrocínio feito com a Ambev não está vinculado à quantidade de consumo", reforçou. >
O prefeito disse ter feito uma análise de tendência. "Comparo com meus filhos, meu filho de 18 anos. Eu ficava aqui no Campo Grande aguardando Ivete (Sangalo) passar aí, até 7h, 8h da noite. Depois que acabava, ia para Barra-Ondina. Ficava até de manhã, porque o povo que vem do interior tem a tradição de ficar até de manhã. Enquanto isso, meu irmão, o ‘pau quebrava", brincou. >
No entanto, de acordo com Reis, esse cenário mudou. Ele citou novamente a mudança de comportamento dos foliões da nova geração. "Os jovens não querem mais isso. O jovem que vir mais cedo, voltar cedo para casa e acordar cedo para fazer um treino, cuidar da saúde". >
Ele citou a experiência de camarotes que têm espaços que só servem bebidas sem álcool. "E consome a noite toda. Está tendo essa mudança e cabe a nós, gestores dessa festa toda, entender o desejo do folião e ir se adequando. Esse é o grande diferencial: as coisas não são fixas, estáveis. Elas vão se ajustando e é o propósito pelo qual estamos aqui". >
Uma das medidas já anunciadas para 2027 é que devem ser implementadas mais políticas públicas para catadores de materiais recicláveis. Segundo o prefeito, uma das possibilidades é que eles passem por um processo de licenciamento ou credenciamento, para, assim, chegar aos números reais dessa população. “A partir daí, você pode oferecer políticas públicas como restaurante popular, transporte público, local de descanso e para banho, enfim”, enumera Bruno Reis. >
Ele citou o exemplo dos cadeados disponibilizados para vendedores ambulantes, que foram testados no Festival Virada e implementados agora no Carnaval. “Você vê que era algo que estava, digamos assim, embaixo do nosso olho, e a gente nunca enxergou: o cadeado para trancar mercadoria do ambulante. Fez mais sucesso do que restaurante popular e transporte, porque ele pode trancar a mercadoria e ir para casa com a certeza de que não será furtado ou roubado”.>
Já o programa Salvador Acolhe, serviço voltado aos filhos de trabalhadores do Carnaval, bateu recordes e atendeu 601 crianças e adolescentes na segunda-feira (16). Inicialmente, eram 600 vagas disponíveis para os filhos de ambulantes e catadores credenciados para o Carnaval serem cuidados por uma equipe multidisciplinar em escolas próximas aos circuitos oficiais da folia, enquanto os pais trabalham. >
Entre as crianças acolhidas, metade tinha idades até 6 anos, incluindo um bebê de 19 dias. Além disso, 18% delas eram atípicas, incluindo crianças com algum tipo de deficiência. Ao chegar no local de acolhimento, três crianças foram encaminhadas ao hospital porque precisavam de algum tipo de cirurgia. Outras passaram por atendimentos de saúde como oftalmológico, odontológico e vacinação. >
“É uma coragem você assumir uma criança de 19 dias, porque pode acontecer uma fatalidade. Mas a gente assume essa responsabilidade, que é tomar conta de uma criança durante seis, sete dias. Então, é um ato de coragem importante para garantir que os pais e as mães possam trabalhar”, acrescentou o prefeito. >
Em relação ao perfil racial, 91% das crianças e adolescentes no acolhimento são pretas ou pardas, enquanto 63% recebem algum benefício social. “Especialmente para as mulheres, é uma rede de apoio muito forte. A gente viu historicamente mães levando as crianças nos isopores e isso não acontece mais", afirmou vice-prefeita Ana Paula Matos.>
A programação de artistas que se apresentaram na ‘Super Terça’ no Campo Grande foi uma das razões para a avaliação de que o circuito tem sido valorizado pelos foliões. Esse foi um dos pontos destacados pelo prefeito Bruno Reis, que chegou a dizer que se preocupou com a contratação de atrações para o Centro, em outros dias. >
“A gente não conseguiu contratar os principais nomes da Bahia para se apresentarem aqui, diante dos compromissos que eles tinham, historicamente, com suas agendas. Então, eu via com preocupação. Mas quando a gente foi olhar os números hoje, os pórticos da Polícia Militar deram 850 mil pessoas lá na Barra contra 715 mil aqui (na segunda-feira)”, contou. >
Para Bruno, são saldos que refletem equilíbrio e indicam que os foliões têm buscado mais o Carnaval tradicional, assim como no Centro Histórico também. Nesta terça-feira, o circuito Osmar recebeu nomes como Leo Santana, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Margareth Menezes e Baiana System. >
A previsão, inclusive, era de o Campo Grande receber mais público do que a Barra na terça-feira . “Isso sepulta, de uma vez por todas, aquela história de qual era o destino do Carnaval do Centro, de como seria a operação, considerando que todo mundo só queria ir para a Barra-Ondina, tornando cada vez mais difícil prestar os serviços públicos”. >
De acordo com o prefeito, o equilíbrio entre o Campo Grande e a Barra nos últimos dias fez com que a segunda-feira tivesse, até então, o melhor dia de operação no Carnaval. “Ontem, não teve nem mesmo problema no retorno para casa, nas filas dos ônibus, na linha da Garibaldi, que é um sucesso, na linha para a Barra. Os veículos conseguiram fluir a uma média de 30km/h a 40km/h de velocidade, então o folião chegou e saiu mais fácil do circuito”. >
Bairros>
O prefeito ainda comentou sobre o Carnaval nos bairros, que acontece em 10 bairros, além das três ilhas soteropolitanas. Em pelo menos dois deles - a Liberdade e o Nordeste de Amarlina - há também trio elétrico. "Isso aquece a economia do bairro, segura o trabalho do bairro. Não é fácil, porque todo bairro quer um carnaval. Mas não tem como a polícia atender, porque tem Carnaval em Salvador, nos bairros e em 150 cidades". >