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Amanda Palma
Fernanda Santana
Publicado em 14 de março de 2026 às 11:00
No Largo do Campo Grande, dois casarões centenários foram ao chão desde o fim do Carnaval. Vizinho, um sobrado do século 19, onde funciona a Fundação João Fernandes da Cunha, é a próxima parada das máquinas de demolição. Os três imóveis estão no caminho de uma nova etapa de extensão do metrô de Salvador. >
O trecho de 1,2 quilômetro que ligará o Campo Grande à Estação da Lapa foi anunciado pelo Governo da Bahia em junho de 2024. Mas só em setembro de 2025 a gestão estadual habilitou um consórcio — formado pelas empresas Áyla Construtora, OECI, Metrô Engenharia e MPE Engenharia — para executar as obras, avaliadas em R$ 1,127 bilhão.>
Para viabilizar o novo trecho do metrô, o governo desapropriará 6 mil metros quadrados no Campo Grande, de acordo com publicações no Diário Oficial. Deles, 4,2 mil m² estão no Largo do Campo Grande. O valor das indenizações soma R$ 30 milhões, segundo cálculo da Companhia de Transportes da Bahia (CTB) enviado à reportagem. A estatal relaciona o montante a “seis imóveis”, mas não especificou quais são.>
Quatro meses depois do anúncio do consórcio vencedor, Zenilda Fernandes da Cunha, presidente da Fundação criada pelo pai, recebeu a notificação de desapropriação. “Voltamos das férias coletivas sem aquele ímpeto de fazer programação, porque estamos trabalhando com incerteza”, afirma.>
A equipe da instituição familiar consultou advogados sobre a possibilidade de impedir a demolição. A hipótese já foi descartada. “Ouvimos que é irreversível”, conta Zenaide. Em seguida, começaram as demolições dos vizinhos. Um dos casarões estava desocupado; no outro, funcionava um pet shop.>
O traçado da obra foi definido após estudos técnicos, de acordo com o presidente da Companhia de Transportes da Bahia (CTB), Eracy Lafuente. A ideia inicial previa uma estação próxima ao Teatro Castro Alves (TCA), mas a presença de uma falha geológica na região exigiria uma escavação mais complexa.>
“Pensamos em realizar aqui porque o espaço fica confinado. Assim conseguimos mitigar efeitos no trânsito e impactos na praça e no teatro”, explicou um representante da companhia. O projeto, segundo ele, foi discutido com técnicos do Iphan e do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac).>
Os casarões que serão demolidos não são tombados, mas a demolição precisou ser autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) porque a área está próxima de patrimônios nacionais, como o Forte de São Pedro e o TCA.>
Projeto da estação Campo Grande do metrô
Símbolo do Carnaval >
A Fundação João Fernandes da Cunha funciona desde os anos 90 no sobrado de dois andares, cuja construção é atribuída ao ano de 1884. Formado em três cursos — Jornalismo, Ciências Contábeis e Direito —, João não quis descanso depois de se aposentar pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).>
Longe da Academia, não deixou de olhar o mundo como uma sala de aula. Em 1992, ele abriu no bairro do Politeama a primeira sede da Fundação, para funcionar como biblioteca pública e espaço para eventos culturais e cursos. Com o crescimento do público, a Fundação precisou migrar. E foi transferida para o número 584 do Largo do Campo Grande.>
Depois da morte do patriarca, familiares seguiram à frente da fundação, que deu continuidade a uma história relacionada ao passado do Carnaval e à geografia de Salvador.>
Até meados do século passado, a casa onde está a fundação abrigou o Clube Carnavalesco Cruzeiro da Vitória, conhecido como antigo Clube da Cruz Vermelha, onde aconteceram os primeiros bailes de carnaval de Salvador.>
“Era um clube muito movimentado. Dos anos 70 até os 90 houve muitos shows bons aqui, geralmente aos sábados”, lembra o ex-frequentador e aposentado Antônio César. Artistas populares como Wando e Jerry Adriani passaram pelo salão.>
O bibliotecário Marcelo Santos não chegou a frequentar o clube, mas também tem a história ligada ao casarão. Há 25 anos, começou a trabalhar na Fundação, ainda jovem, como auxiliar. Os livros com que trabalhava plantaram uma nova possibilidade de futuro.>
“Eu nunca tinha pensado em fazer universidade. Minha mãe praticamente só sabia assinar o nome”, conta Marcelo, que se graduou em Biblioteconomia na Ufba e hoje é responsável pelo acervo da Fundação, que inclui coleções como uma série rara de obras de Machado de Assis.>
“Se eu disser que tenho planos para você agora… não tenho”, desabafa ele, sobre o futuro.>
“Poderiam incorporar aqui como parte da estação. Para não destruir, né?”, sugere Antônio César, ex-frequentador do Clube.>
O arquiteto e urbanista Sérgio Ekerman, professor da Ufba, lembra de exemplos no mundo em que isso aconteceu. “Na Estação do Chiado e de São Bento, em Lisboa, por exemplo”, diz. “Mas nesses casos as estações são somente pontos de embarque e desembarque”, afirma, ao contrapor o projeto previsto para o Campo Grande, onde também funcionará um espaço multiuso, com estabelecimentos comerciais.>
Diante do cenário, a equipe da Fundação João Fernandes da Cunha espera informações sobre os próximos passos. A família ainda não sabe o futuro do projeto. “Nós já passamos por diferentes fases do entristecimento”, diz Zenilda. “Agora tentamos não nos fixar na tristeza”.>
O prazo para a desocupação da Fundação ainda não foi definido. Mas um limite já está estabelecido: junho deste ano.>
Confira, a partir deste sábado (14), a reportagem especial em vídeo sobre a demolição de casarões no Campo Grande no nosso canal no YouTube:@Correio24hBahia>