Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Obras do metrô em Salvador derrubam casarões centenários no Campo Grande para extensão até a Lapa

Confira reportagem especial em vídeo no canal no YouTube @Correio 24hBahia

  • Foto do(a) author(a) Amanda Palma
  • Foto do(a) author(a) Fernanda Santana
  • Amanda Palma

  • Fernanda Santana

Publicado em 14 de março de 2026 às 11:00

Projeto de R$ 1,1 bi   do metrô prevê desapropriações e demolição de histórico clube de Carnaval
Projeto de R$ 1,1 bi do metrô prevê desapropriações e demolição de histórico clube de Carnaval Crédito: Eduardo Bastos

No Largo do Campo Grande, dois casarões centenários foram ao chão desde o fim do Carnaval. Vizinho, um sobrado do século 19, onde funciona a Fundação João Fernandes da Cunha, é a próxima parada das máquinas de demolição. Os três imóveis estão no caminho de uma nova etapa de extensão do metrô de Salvador.

O trecho de 1,2 quilômetro que ligará o Campo Grande à Estação da Lapa foi anunciado pelo Governo da Bahia em junho de 2024. Mas só em setembro de 2025 a gestão estadual habilitou um consórcio — formado pelas empresas Áyla Construtora, OECI, Metrô Engenharia e MPE Engenharia — para executar as obras, avaliadas em R$ 1,127 bilhão.

Para viabilizar o novo trecho do metrô, o governo desapropriará 6 mil metros quadrados no Campo Grande, de acordo com publicações no Diário Oficial. Deles, 4,2 mil m² estão no Largo do Campo Grande. O valor das indenizações soma R$ 30 milhões, segundo cálculo da Companhia de Transportes da Bahia (CTB) enviado à reportagem. A estatal relaciona o montante a “seis imóveis”, mas não especificou quais são.

Quatro meses depois do anúncio do consórcio vencedor, Zenilda Fernandes da Cunha, presidente da Fundação criada pelo pai, recebeu a notificação de desapropriação. “Voltamos das férias coletivas sem aquele ímpeto de fazer programação, porque estamos trabalhando com incerteza”, afirma.

A equipe da instituição familiar consultou advogados sobre a possibilidade de impedir a demolição. A hipótese já foi descartada. “Ouvimos que é irreversível”, conta Zenaide. Em seguida, começaram as demolições dos vizinhos. Um dos casarões estava desocupado; no outro, funcionava um pet shop.

O traçado da obra foi definido após estudos técnicos, de acordo com o presidente da Companhia de Transportes da Bahia (CTB), Eracy Lafuente. A ideia inicial previa uma estação próxima ao Teatro Castro Alves (TCA), mas a presença de uma falha geológica na região exigiria uma escavação mais complexa.

“Pensamos em realizar aqui porque o espaço fica confinado. Assim conseguimos mitigar efeitos no trânsito e impactos na praça e no teatro”, explicou um representante da companhia. O projeto, segundo ele, foi discutido com técnicos do Iphan e do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac).

Os casarões que serão demolidos não são tombados, mas a demolição precisou ser autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) porque a área está próxima de patrimônios nacionais, como o Forte de São Pedro e o TCA.

Projeto e onde será instalada a estação Campo Grande do metrô por Google Maps/CTB

Símbolo do Carnaval

A Fundação João Fernandes da Cunha funciona desde os anos 90 no sobrado de dois andares, cuja construção é atribuída ao ano de 1884. Formado em três cursos — Jornalismo, Ciências Contábeis e Direito —, João não quis descanso depois de se aposentar pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Longe da Academia, não deixou de olhar o mundo como uma sala de aula. Em 1992, ele abriu no bairro do Politeama a primeira sede da Fundação, para funcionar como biblioteca pública e espaço para eventos culturais e cursos. Com o crescimento do público, a Fundação precisou migrar. E foi transferida para o número 584 do Largo do Campo Grande.

Depois da morte do patriarca, familiares seguiram à frente da fundação, que deu continuidade a uma história relacionada ao passado do Carnaval e à geografia de Salvador.

Até meados do século passado, a casa onde está a fundação abrigou o Clube Carnavalesco Cruzeiro da Vitória, conhecido como antigo Clube da Cruz Vermelha, onde aconteceram os primeiros bailes de carnaval de Salvador.

“Era um clube muito movimentado. Dos anos 70 até os 90 houve muitos shows bons aqui, geralmente aos sábados”, lembra o ex-frequentador e aposentado Antônio César. Artistas populares como Wando e Jerry Adriani passaram pelo salão.

O bibliotecário Marcelo Santos não chegou a frequentar o clube, mas também tem a história ligada ao casarão. Há 25 anos, começou a trabalhar na Fundação, ainda jovem, como auxiliar. Os livros com que trabalhava plantaram uma nova possibilidade de futuro.

“Eu nunca tinha pensado em fazer universidade. Minha mãe praticamente só sabia assinar o nome”, conta Marcelo, que se graduou em Biblioteconomia na Ufba e hoje é responsável pelo acervo da Fundação, que inclui coleções como uma série rara de obras de Machado de Assis.

“Se eu disser que tenho planos para você agora… não tenho”, desabafa ele, sobre o futuro.

“Poderiam incorporar aqui como parte da estação. Para não destruir, né?”, sugere Antônio César, ex-frequentador do Clube.

O arquiteto e urbanista Sérgio Ekerman, professor da Ufba, lembra de exemplos no mundo em que isso aconteceu. “Na Estação do Chiado e de São Bento, em Lisboa, por exemplo”, diz. “Mas nesses casos as estações são somente pontos de embarque e desembarque”, afirma, ao contrapor o projeto previsto para o Campo Grande, onde também funcionará um espaço multiuso, com estabelecimentos comerciais.

Diante do cenário, a equipe da Fundação João Fernandes da Cunha espera informações sobre os próximos passos. A família ainda não sabe o futuro do projeto. “Nós já passamos por diferentes fases do entristecimento”, diz Zenilda. “Agora tentamos não nos fixar na tristeza”.

O prazo para a desocupação da Fundação ainda não foi definido. Mas um limite já está estabelecido: junho deste ano.

Confira, a partir deste sábado (14), a reportagem especial em vídeo sobre a demolição de casarões no Campo Grande no nosso canal no YouTube:@Correio24hBahia

Tags:

Metrô