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Maria Raquel Brito
Publicado em 2 de abril de 2026 às 05:00
A publicitária Daniele Higino cresceu ouvindo comentários como “você é estranha”, “parece um bicho do mato” e “você não entendeu a piada?”. Por mais de quatro décadas viveu assim, lidando com análises alheias e suas próprias angústias. Dificuldade de socializar, literalidade extrema, hiperfocos. À época, nem cogitava a possibilidade de nomear tudo isso. >
Isso até alguns anos atrás. Enquanto trabalhava ao lado de especialistas em Transtorno do Espectro Autista (TEA), ela se sentiu instigada a buscar respostas para as perguntas que sempre fez a si mesma. Começou aí uma investigação concluída no fim do ano passado, aos 43 anos: Daniele é uma mulher autista. O diagnóstico não a define, claro. Em seu círculo social, poucas pessoas sabem. Mas, desde que recebeu, algumas coisas mudaram.>
“O diagnóstico me ajudou a compreender melhor o funcionamento da minha mente. E com certeza, trabalhar e conviver com pessoas que compreendem profundamente a inclusão me ajuda a ‘existir’ com mais paz, com menos insegurança e com menos necessidade de ‘disfarçar’ o meu jeito diferente de ser”, diz.>
Daniele está entre as mais de 65 mil pessoas adultas com autismo na Bahia. O número, que contempla pessoas acima de 30 anos, equivale a 44.8% do total da população com diagnóstico de TEA no estado, como mostra o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).>
Juiz baiano descobriu autismo na vida adulta
Assim como ela, muitos dos que integram essa população receberam o diagnóstico de forma tardia, depois dos 18 anos. Vários motivos podem levar a isso. O principal é o acesso à informação: até não muito tempo atrás, pouco se falava em autismo e outras deficiências ocultas. Agora, o boom deve-se a movimentos como o diagnóstico dos filhos dessas pessoas, que leva a pesquisas genéticas – um estudo publicado na revista médica JAMA Psychiatry mostrou que cerca de 81% dos casos de autismo têm relação com fatores hereditários. >
“Quando o pai faz a pesquisa, acaba por descobrir. A gente vê os pais se vendo no filho e querendo conseguir entender, ‘é isso que eu sou, eu sou autista, é isso. Foi isso que eu vivi a minha vida toda’. O diagnóstico acaba sendo libertador porque ele te permite entender que comportamentos seus são parte de quem você é”, afirma Carla Mandolesi, psicanalista, ativista e diretora de projetos do Instituto Saber.>
Esse foi, inclusive, o caso dela. O diagnóstico da filha fez com que Carla estudasse o máximo possível sobre autismo, com o objetivo de agir da melhor maneira possível. Depois de um tempo, porém, enquanto conversava com sua mãe e ela falava sobre a seletividade alimentar que Carla tinha desde a infância e como fez tudo muito antes dos marcos do desenvolvimento – andou com sete meses e falou aos nove, por exemplo –, surgiu uma curiosidade quanto à sua própria condição. Hoje, no Instituto Saber, sediado em Salvador, capacita espaços para receber essas pessoas. >
“Você não pode falar em inclusão de uma criança neurodivergente numa escola se esse professor não está capacitado. O Saber surge para isso, para capacitar escolas, professores, pessoas de restaurantes, hotéis, enfim, que querem ser um ambiente inclusivo”, diz.>
Ivana Urpia, de 38 anos, descobriu aos 33 que era autista. Foi, para ela, uma virada de chave. Antes, não entendia a si mesma e não sentia que cabia nos espaços. Fazia “masking” – ou camuflagem social, uma “estratégia” consciente ou inconsciente para suprimir características do autismo – na maior parte do tempo.>
“Sempre fui uma pessoa só, sempre busquei tudo sozinha, pois me achava diferente dos demais. Não fui diagnosticada quando criança pois conseguia passar de ano e antigamente era assim, só tinha um olhar diferenciado para os alunos que tinham dificuldade nos estudos. O diagnóstico foi a peça do quebra-cabeça que passei 33 anos esperando encontrar. Eu entendi o que eu realmente sou, entendi minhas limitações, os locais que me estressavam e me desregulavam”, diz.>
Nesta quinta-feira (2), é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007. Avanços consideráveis a respeito do TEA aconteceram nos últimos anos, como mais pesquisas e políticas públicas – um dos maiores exemplos é a Lei Berenice Piana (12.764/2012), que prevê direitos das pessoas autistas no Brasil. >
Apesar desses passos à frente, falar sobre autismo ainda é entrar em um universo repleto de tabus. O publicitário Rodrigo Oliveira, de 34 anos, sabe bem disso. Para ele, o diagnóstico veio acompanhado de autoconhecimento, mas também trouxe muitos entraves. Em um dos casos mais críticos, ouviu representantes de uma companhia aérea perguntarem se ele “tinha retardo mental e, se tivesse, que comprovasse”. “Por um lado eu consigo me entender melhor, mas pelo outro, eu tenho completo medo de sair na rua e exercer direitos básicos”, diz>
Além da Lei Berenice Piana, os direitos fundamentais das pessoas com autismo são garantidos pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI - Lei 13.146/2015), que prevê pena de até três anos de reclusão a quem praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência.>
Na prática, porém, isso não diminui o receio de pôr em prática garantias como a fila preferencial. “Porque eu sei que vou passar por preconceito, eu sei que vão me deslegitimar e isso abala profundamente o meu estado psicológico. Porque eu acabo ficando em estado de alerta o tempo todo quando saio de casa”, completa Rodrigo, que, mesmo tendo a Carteira de Identificação da Pessoa com Espectro Autista (Ciptea), geralmente opta por guardá-la no bolso por medo de discriminação.>
Segundo Carla Mandolesi, o primeiro passo no caminho de alguém que quer descobrir se está no espectro autista é procurar um bom neurologista. Um psicólogo que se debruce com calma no caso, utilizando diferentes métodos e para verificar se existem dificuldades e lacunas que deveriam ter sido preenchidas naquela idade, também é ideal.>
“A busca por esse diagnóstico, ela deve de fato vir se estiver prejudicando a sua vida. Se você não vê prejuízos à sua vida, mas vê traços do seu filho e fala: ‘gente, eu fazia igual, mas eu vivo muito bem, obrigada’, ok também. Porque às vezes essa pessoa está só dentro do espectro, mas não é de fato autista, ela tem características autísticas. E hoje tem muito profissional que simplesmente sai dando laudo com uma única conversa de 20 minutos, isso não está certo”, diz ela. >
“Você precisa passar por um profissional, você vai passar por uma bateria de testes, vão ter conversas. É algo que é longo, caro, mas, como eu disse, pode ser libertador. Se entender é libertador”, conclui.>