Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maria Raquel Brito
Publicado em 1 de abril de 2026 às 05:00
A fisioterapeuta Isabela Conde tinha 36 anos quando passou pelo dia mais difícil de sua vida. Era uma quinta-feira de Carnaval e o ex-namorado a buscaria no trabalho com o carro dela, que ele havia pego emprestado para levar o pai na quimioterapia. E assim foi. O relacionamento romântico já não tinha mais espaço, mas ela confiava nele. E nunca, nem nos piores pesadelos, imaginou que ele tentaria atentar contra sua vida. >
O homem, chamado Fábio Barbosa Vieira, contratou dois homens, que estavam no banco de trás do carro, para matá-la. Enquanto ele dirigia tranquilamente, os outros dois a esfaquearam 68 vezes. Poderia ter sido mais uma ocorrência de feminicídio, mais uma tragédia nas capas dos jornais, mas Isabela sobreviveu. Se fingiu de morta e foi jogada num matagal na BR-324, onde, depois de muito tempo, conseguiu resgate.>
Mulheres de Impacto
Hoje, aquela dor dá lugar à vontade de ajudar outras mulheres que passaram por situações semelhantes, através da ONG IC + Amparar Mulher, que assiste 780 sobreviventes de violência doméstica. Nesta terça-feira (dia 31), Isabela relembrou o que aconteceu com ela e reforçou a importância de uma atenção especial após a agressão. >
“É muito difícil o pós. É difícil viver violência doméstica, mas é muito difícil enfrentar uma sociedade machista. É muito difícil enfrentar uma delegacia especializada que não é especializada, que revitimiza a vítima. Enfrentar órgãos que ainda não estão preparados para receber uma mulher que é violentada, porque a gente tem que justificar o tempo inteiro por que foi violentada e parece que a gente que é a agressora. E essa dificuldade que me fez criar a ONG, porque eu consegui sair desse ambiente de violência, lutar contra toda a revitimização, todo o sistema”, disse.>
A fala de Isabela aconteceu durante a 4ª edição do evento “Mulheres de Impacto”, iniciativa da organização Parque Social. Este ano, o tema foi “Transformando dor em potência”, explorado por quatro convidadas que são referência em suas áreas. Além da fisioterapeuta, completaram a mesa a psicóloga clínica e neuropsicóloga Laiza Almeida, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e supervisora psicossocial da Casa da Mulher Brasileira; a advogada criminalista Laís Magalhães, atuante em casos de violência contra a mulher; e a enfermeira Cátia Leite, profissional da Casa da Mulher Brasileira, com experiência no atendimento a mulheres em situação de violência. >
Veja onde denunciar casos de violência contra a mulher
A discussão foi mediada pela jornalista Camila Marinho e contou também com a presença da diretora-geral do Parque Social, Sandra Paranhos. Segundo Paranhos, a edição deste ano não poderia deixar de abordar a violência, um tema igualmente sensível e importante no cenário atual. >
“Demos a voz a mulheres que atendem pessoas que estão ou estiveram nessa situação ou que estão com medo de vir a passar por violência, e também ao exemplo vivo que é Isabela. As mulheres precisam e devem ter força suficiente para enxergar o que está acontecendo, porque muitas delas nem percebem que estão sendo agredidas”, afirmou a diretora.>
Abordar um tema como a violência doméstica é sempre delicado. No evento, as participantes fizeram questão de frisar que o objetivo não era romantizar essas situações de agressão, mas dizer que as vítimas não estão sozinhas. >
“A gente toma muito cuidado para não colocar a dor como uma coisa boa. Algo como ‘ah, essa dor é que vai ser a nossa transformação’. Não, não é isso que a gente quer. A gente quer parar de sentir dor. A gente quer amar no sentido literal da palavra, sem transformar amor em dor. Mas a gente falar de dor e de transformação é mostrar para essa mulher que a vida dela não acabou, que ela vai continuar, que tem caminhos que ela pode seguir e que a gente vai estar junto”, ressaltou Laiza Almeida.>
No auditório lotado e majoritariamente feminino, pessoas de todas as idades ouviam atentamente às palavras das convidadas. As fileiras de cadeiras continuavam do lado de fora, com aqueles que não conseguiram um lugar mais perto. Grande parte da audiência vestia camisetas com a mesma estampa: a do Projeto Convivendo & Aprendendo, iniciativa através da qual 12 comunidades de Salvador puderam marcar presença no evento.>
“Trazer os beneficiários, em sua grande maioria idosas, para esse evento de hoje, é realmente fazer com que elas reflitam como as cicatrizes que elas trazem podem ser transformadas em potência. Me tocou durante o evento ver várias se levantarem, irem beber um copo d’água, dizerem que a pressão subiu. O relato é algo muito forte. Então termina disparando gatilhos que a gente sabe que nem sempre é fácil manejar. E elas começaram a ver em Isabela um fio de esperança: se Isabela conseguiu, as filhas delas vão conseguir, as netas vão conseguir, as vizinhas vão conseguir”, afirmou Ilsa Carla, coordenadora do programa.>