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‘Café com teu pai’: agente da PRF, influenciador com milhões de seguidores é denunciado ao MPF por misoginia

Breno Vieira Faria virou alvo de pedido de investigação por atuação como influenciador digital e possível descumprimento de regras da corporação

  • Foto do(a) author(a) Carol Neves
  • Carol Neves

Publicado em 10 de abril de 2026 às 10:51

Breno Vieira Fari a
Breno Vieira Fari a Crédito: Reprodução

O policial rodoviário federal e influenciador digital Breno Vieira Faria, conhecido pelo perfil “Café com teu pai”, passou a ser alvo de uma representação enviada ao Ministério Público Federal (MPF) que pede a abertura de investigação sobre sua atuação nas redes sociais, possíveis violações ao regime funcional da corporação e a divulgação de conteúdos classificados como misóginos.

O pedido foi apresentado pela deputada estadual Ediane Maria (PSOL-SP), com apoio das advogadas Natália Szermeta Boulos e Jéssica da Mata, e se baseia em informações reveladas em reportagem do portal Núcleo, que apontou indícios de descumprimento de regras da Polícia Rodoviária Federal (PRF) por parte do servidor. O documento solicita a apuração de eventuais infrações administrativas, civis e penais relacionadas à atividade digital do servidor, incluindo monetização de conteúdo, participação empresarial e uso da imagem institucional da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Breno tem milhões de seguidores nas redes sociais por Reprodução

Segundo a representação, o policial mantém presença expressiva nas redes sociais, com milhões de seguidores e produção frequente de vídeos sobre comportamento e relacionamentos. O crescimento da audiência teria se intensificado a partir de 2025, após a criação do canal “Café com teu pai”, apresentado como uma sátira ao livro e podcast devocional “Café com Deus Pai”.

As autoras sustentam que parte relevante desse material apresenta “forte carga de estereotipação e desqualificação de mulheres” e pode contribuir para “a disseminação de discursos misóginos e discriminatórios” em ambiente digital de grande alcance.

Entre os conteúdos citados na representação está um vídeo em que o influenciador afirma que mulheres com múltiplos parceiros seriam “vagabundas”, enquanto homens na mesma situação seriam valorizados. Na mesma gravação, ele utiliza a analogia segundo a qual “uma chave que abre todas as fechaduras é uma chave mestra”, enquanto “uma fechadura que abre por qualquer chave não presta pra nada”.

O documento também menciona outras declarações atribuídas ao influenciador, como a de que “mulher rodada não perde fama”, além de comentários sobre mulheres solteiras acima dos 30 anos e bem-sucedidas, classificadas como “problemáticas”. Em outros conteúdos, ele afirma que mulheres deveriam adotar comportamentos “doces” nos relacionamentos e evitar confrontos diretos, sugerindo o uso de reforços positivos comparados à forma como se treinam animais.

Para as autoras da representação, esse conjunto de publicações reforça estereótipos de gênero e contribui para a naturalização de desigualdades entre homens e mulheres.

Monetização, cursos e participação em empresas

Outro eixo da representação trata da atuação comercial do influenciador nas redes sociais. Segundo o documento, Breno Faria comercializa cursos e produtos digitais voltados principalmente ao público feminino, com promessas relacionadas à obtenção de reconhecimento em relacionamentos, apesar de não possuir formação técnica compatível para esse tipo de orientação.

A representação também aponta “indícios robustos” de que o policial exerce atividade empresarial ativa no setor de marketing digital. Entre as empresas mencionadas estão a “Gonçalves & Souza & Faria Marketing Digital Ltda”, conhecida como B2 Company, e a “Vieira & Lenert Marketing Digital Ltda”, vinculada à marca “Café com Teu Pai”.

De acordo com o documento, há registros de atuação direta do influenciador em iniciativas judiciais relacionadas às empresas, além de declarações públicas nas quais ele se apresenta como empresário e criador de conteúdo. Para as autoras da representação, isso indicaria possível participação efetiva na gestão das atividades econômicas.

A Lei nº 8.112/1990 estabelece que servidores públicos federais não podem exercer gerência ou administração de empresas privadas, salvo em situações específicas. O documento sustenta que os indícios levantados podem apontar violação desse regime jurídico.

Outro ponto citado é a possibilidade de descumprimento do regime de dedicação exclusiva previsto para integrantes da Polícia Rodoviária Federal. A representação menciona declarações atribuídas ao influenciador em que ele afirma trabalhar apenas alguns dias por semana na corporação, o que pode indicar incompatibilidade com as exigências do cargo.

Uso das redes sociais e pedido de apuração pelo MPF

A representação também questiona a utilização das redes sociais com referência à vinculação institucional à PRF. Segundo o documento, normas internas da corporação proíbem a monetização de conteúdo e a divulgação de material discriminatório por integrantes da ativa.

As autoras argumentam que, ao mencionar sua ligação com a corporação em conteúdos digitais, o influenciador pode estar associando a imagem institucional da PRF a posicionamentos considerados problemáticos. A Instrução Normativa nº 121/2023 da corporação é citada como possível base para apuração disciplinar.

No pedido encaminhado ao Ministério Público Federal, a deputada solicita a abertura de procedimento investigativo, a requisição de informações à PRF sobre a situação funcional do servidor e a análise de eventuais responsabilidades administrativas, civis e penais.

O documento também pede a adoção de medidas cabíveis caso sejam confirmadas irregularidades, incluindo eventual responsabilização disciplinar e indicação de exoneração do cargo público.