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Estadão
Publicado em 21 de junho de 2023 às 18:14
Após quase oito horas de sabatina, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a indicação do advogado Cristiano Zanin, advogado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Por 21 votos a favor e 5 contra, Zanin terá seu nome submetido ainda nesta quarta-feira, 21, ao plenário da Casa. Na audiência, ele rebateu a pecha de ser apenas o advogado do petista. E afirmou que não se subordinará ao presidente na sua atuação no Supremo, caso tenha seu nome aprovado pelos senadores. >
“Alguns me rotulam como advogado pessoal porque lutei pelos direitos individuais sempre contra a maré”, afirmou. “Respondo que sempre desempenhei minha função buscando a justiça. Ser advogado é ter que conversar, explicar e esclarecer a incompreensão.” E avisou que sabe da diferença entre atuar como advogado e ministro do Supremo.>
Ainda assim, Zanin foi cobrado por senadores sobre sua ligação com Lula e a falta de impessoalidade na indicação de seu nome ao STF. O senador Alessandro Vieira (PSDB-SE) chegou a citar uma frase do petista em entrevista dizendo que não se pode indicar um amigo para a vaga na Corte. Vieira questionou Zanin se vai se considerar impedido de julgar processos envolvendo o presidente da República. >
Na resposta, Zanin disse que não poderá julgar em processos que atuou como advogado de Lula, mas foi evasivo ao falar de processos futuros. “Penso que a imparcialidade do julgador é um elemento estruturante da Justiça para assegurar credibilidade”, afirmou. “Terei que analisar o conteúdo do processo, saber qual o tema, quais as partes envolvidas e aí aplicar o que diz a lei.”>
Zanin disse que assumia compromissos com os senadores se for aprovado como ministro. “Não permitirei investidas insurgentes contra a República. Exijo ouvir todas as partes”, afirmou. Disse que pautará sua atuação na defesa da democracia e do estado de direito e que sabe separar o papel de advogado e de ministro do STF. “Mas saibam que não vou mudar de lado. Meu lado sempre foi o mesmo: o da Constituição, das garantias, do amplo direito de defesa e do processo legal.”>
Ele prometeu que sua atuação não estará subordinada a Lula e que o presidente sabe disso. “Vou me guiar exclusivamente pela Constituição e pelas leis, sem qualquer tipo de subordinação a quem quer que seja. Na minha visão, e acredito que é a visão do presidente, um ministro do STF só pode estar subordinado à Constituição”, afirmou.>
Zanin prosseguiu o discurso afirmando que atuará como um “agente pacificador” entre os Poderes, para evitar “interferências desnecessárias”. Em breves acenos a parlamentares de direita e esquerda, falou que o direito à vida, à propriedade são garantidos pelo estado democrático de direito e defendeu a erradicação da pobreza, fome zero, igualdade de gênero e uma agricultura sustentável como metas “mais caras” ao Brasil.>
Embate com Moro>
O esperado embate de Zanin com o ex-juiz da Lava Jato, o senador Sérgio Moro (União-PR), foi em tom formal. Moro já havia avisado que não era “barraqueiro” e até disse, durante a sabatina, que não havia pegadinhas nas questões.>
Coube a Moro apresentar até o momento a maior lista de perguntas. Da relação familiar com Lula aos processos da Lava Jato, o senador cobrou uma posição do indicado ao STF. O senador quis arrancar de Zanin o compromisso de que não atuará no STF em nenhum processo ligado à operação Lava Jato. O advogado rejeitou a sugestão de Moro. Disse que não reconhece o rótulo da operação como uma referência prevista em leis e disse que vai examinar caso a caso.>
“Eu não acredito que o simples fato de colocar o nome Lava Jato no processo é um critério para ser utilizado no ponto de vista jurídico para aquilatar o impedimento”, disse. “Quase tudo que funcionava em varas criminais muitas vezes recebia a etiqueta de Lava Jato. Uma vez identificada uma hipótese de impedimento ou suspeição, não terei o menor problema de declarar.”>
Casamento homoafetivo>
O senador Fabiano Contarato (PT-ES), assumidamente homossexual, questionou Zanin sobre o seu posicionamento em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Respeito todas as formas de expressão do afeto e do amor. Isso é um direito individual, é um direito fundamental as pessoas poderem, da sua forma, expressar o afeto e amor. Isso tem que ser respeitado, na minha visão, pela sociedade e pelas instituições”, respondeu Zanin.>
Magno Malta (PL-ES), um dos senadores tradicionalmente mais duros nas participações em sabatinas a postulantes ao STF, provocou Zanin ao perguntar se Lula era “descondenado”.>
“O presidente foi absolvido em diversas instâncias, diversos juízos e no Supremo Tribunal Federal”, afirmou Zanin. Isso aconteceu, segundo ele, pelas ausências “de um julgamento imparcial e da coleta de elementos e julgamentos de um juiz imparcial”, em referência a Moro. “Esses processos talvez sequer deveriam ter existido.”>
Aborto, drogas e marco temporal>
Zanin evitou indicar de que lado está em questões sensíveis entre os senadores como aborto, legalização de drogas e o marco temporal para demarcação de terras indígenas. Sobre legalização do aborto, uma pauta que os senadores de direita não aceitam o advogado não deixou claro o que pensa. Já sobre legalização de drogas, alegou ver com “bastante otimismo” a revisita do Congresso à lei de drogas para diferenciar o usuário do traficante e estabeleceu penas mais amenas.>
Ainda sobre o marco temporal, limitou-se a descrever a disputa entre Legislativo e Judiciário. “Cada instituição terá que sobrepesar aquilo que está na Constituição e que aparentemente podem estar em conflito e terão que ser conciliados, como o direito a propriedade e do direito dos povos originários”, afirmou.>
Zanin também evitou responder sobre o inquérito dos atos antidemocráticos, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes. Alegou que poderia ficar fora do julgamento caso tente entrar no exame concreto da investigação. Lembrou que a conclusão da apuração passará pelo colegiado do STF, o qual ele deseja participar.>
A resposta foi dada ao senador Espiridião Amin (PP-SC). Para o congressista, o inquérito capitaneado pelo ministro Alexandre de Moraes o “atormenta”. “Este assunto é um grande outdoor de um grande descompromisso com o estado democrático de direito”, afirmou o senador.>
Bancada bolsonarista>
Dos bolsonaristas na comissão, os senadores Flávio Bolsonaro, o filho 01 do ex-presidente, e Jorge Seif (PL-SC) trataram Zanin como ministro antes mesmo da votação terminar. Eles pouparam o indicado de ataques frontais.>
“Se o presidente da República hoje fosse Jair Bolsonaro, ele não ia indicar um inimigo”, disse Seif. “E eu não posso jogar pedra porque o presidente Bolsonaro indicou André Mendonça, que ele confiava e que tinha uma amizade próxima. Quantas vezes comemos peixe, fizemos eventos. Era próximo da primeira-dama.”>
Já Flávio Bolsonaro antecipou que Zanin deveria ter uma votação “expressiva” tanto na CCJ como no plenário do Senado. “Quero a Deus que o senhor leve o bom senso, a seriedade, a segurança jurídica, e exemplo de respeito à Constituição na sua atuação no STF”, afirmou.>
Flavio Bolsonaro quis saber se Zanin aprova o chamado fishing expedition, uma expressão em inglês usada para definir ações judiciais que são deflagradas para buscar provas contra um investigado de maneira genérica. O senador nao citou seu pai nominalmente, mas a referência tem relação às críticas que Bolsonaro faz às operações de busca e apreensão determinadas por Alexandre de Moraes e que tiveram como alvos auxiliares do ex-presidente. Na resposta, Zanin respondeu de maneira genérica, sem citar um caso específico e declarou que o fishing expedition é prática condenável.>
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) centrou as perguntas na pauta de defesa à infância. Zanin repetiu o argumento de que o Congresso é o melhor espaço para legislar para escapar de temas polêmicos. Assim aconteceu para responder sobre a idade de consentimento. Ele citou uma disposição constitucional para falar que é dever da família a proteção do jovem e do adolescente.>
Diversidade>
Para vencer últimas resistências a seu nome, Zanin começou a sabatina falando que ouviu muitos senadores e viu como há diversidade nas posições na Casa. “Tive a honra de conversar com muitas lideranças e bancadas e também com muitas senadoras e senadores individualmente. Nessas oportunidades pude ouvir, aprender, e tive a certeza de que posições democráticas estão acima de todos os interesses. Pude ouvir a voz do Congresso Nacional sobre temas como a pauta de costumes, sociais e econômicas”, disse.>
O Senado bloqueou a entrada do plenário onde ocorre a sabatina. Na porta principal da sala foram posicionados três seguranças. A Casa só permitiu a entrada de senadores e de um assessor por parlamentar. Somente cinegrafistas e fotojornalistas puderam entrar no local para acompanhar de perto as respostas de Zanin.>
Como mostrou o Estadão, a votação de Zanin é um teste importante para dimensionar a base do governo Lula no Senado, onde o Planalto espera ter maior consistência para aprovação de matérias de seu interesse. O senador Sergio Moro (União-PR) que teve embates com Zanin nos processos envolvendo Lula está na primeira fila e deve ser um dos primeiros a questionar o advogado.>
Para sair da CCJ como aprovado, Zanin precisa de 14 votos favoráveis, dos 27 titulares do colegiado. A votação é sigilosa. Em entrevista ao Estadão, 15 senadores da comissão já declararam que vão chancelar a nomeação de Zanin ao STF.>
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), pretende levar ao plenário a indicação de Zanin também nesta quarta-feira, 21. O nome do advogado de Lula chegará à análise de todos os senadores independentemente de ser aprovado ou rejeitado na CCJ. O mínimo necessário para aprovação são 41 votos. O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues, fala em 60 votos em plenário para indicado do presidente.>