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Heider Sacramento
Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 17:30
Eu não estava procurando nada muito específico. Estava apenas rolando a timeline do X, a antiga rede do passarinho, quando algumas imagens me travaram o dedo. Björk, a cantora islandesa conhecida por clipes futuristas e sons experimentais, aparecia descalça, cercada por tambores, em pleno Carnaval de Salvador. Não parecia montagem, nem delírio de fã. As fotos estavam ali, reais, desconcertantes. Aquilo não saía da cabeça. De onde vinham aquelas imagens e, principalmente, como elas eram possíveis. >
A curiosidade virou apuração. E o que parecia apenas um recorte curioso da internet se revelou uma história improvável, densa e profundamente baiana, daquelas que só o Carnaval de Salvador é capaz de produzir.>
A cena aconteceu em 2004, quando Björk desembarcou na capital baiana ao lado do então marido, o artista plástico Matthew Barney. A visita não tinha caráter turístico. Ela fazia parte de um projeto artístico que misturava arte contemporânea, mitologia afro-brasileira e carnaval de rua. O encontro foi articulado pelo produtor musical Arto Lindsay e teve como eixo o Cortejo Afro, bloco idealizado por Alberto Pitta.>
“A experiência, de modo geral, foi bastante positiva, especialmente pela presença de Björk, que acompanhou Matthew Barney ao carnaval e participou ativamente da nossa experiência artística”, contou Alberto Pitta. “O projeto exploraria o mito de Ogum, orixá da guerra e do ferro, associado às tecnologias, numa proposta que unia tradição ancestral e linguagem contemporânea”, explicou o idealizador do Cortejo Afro.>
Björk no Carnaval de Salvador
O que mais chama atenção, no entanto, não é apenas a proposta estética, mas a forma como Björk se inseriu na cidade. “Björk permaneceu em Pirajá, no terreiro Ilê Axé Oyá, da Mãe Santinha de Oyá, o que foi muito significativo para todos nós”, destacou Pitta. A convivência foi simples, cotidiana. “Enquanto esteve no bairro, ela se comportou de forma absolutamente discreta, como qualquer pessoa, participando das atividades locais e interagindo com as crianças”, lembrou o artista. A relação com a espiritualidade também aconteceu de forma direta. “Minha mãe lhe ofereceu banhos de ervas e consultas espirituais, e Björk vivenciou de fato o cotidiano da comunidade”, relatou.>
Segundo Pitta, houve um esforço consciente para preservar aquela vivência. “Eu busquei proporcionar essa experiência de anonimato, porque minha prioridade era o evento em si, não a atenção que uma celebridade poderia atrair”, afirmou. Na avenida, a proposta ganhou forma visual marcante. “Criamos dois carros alegóricos: um trator puxando uma árvore e, ao mesmo tempo, um contêiner revestido de barro, simulando uma montanha”, descreveu. Nem tudo foi simples. “Enfrentamos muitas dificuldades com a organização do carnaval, a polícia militar e a segurança, que não compreenderam o projeto artístico”, ponderou Pitta.>
O episódio também escancarou tensões do próprio carnaval da cidade. “A cidade vem perdendo seu brilho estético no carnaval, com uma estética cada vez mais comercial, distanciando-se da arte”, avaliou. Nesse contexto, o Cortejo Afro ocupa um lugar de resistência. “O cortejo afro é um dos poucos que resistem a essa tendência, mantendo a tradição e dialogando com a arte”, reforçou o fundador do bloco. Não por acaso, o interesse internacional surgiu daí. “O interesse de Matthew Barney, Arto Lindsay e da própria Björk veio da compreensão de que o cortejo afro preserva a tradição ao mesmo tempo em que se abre para a modernidade”, disse. A construção do desfile acompanhou essa lógica. “Adaptamos nossa energia à proposta artística do trio, criando uma cena cinematográfica na cidade, o que gerou impacto e curiosidade no público”, explicou.>
A emoção também atravessou a experiência. “Percebi que Björk se emocionou com a experiência, especialmente com a presença dos 200 percussionistas, do terreiro e da comunidade envolvidos no projeto”, observou Pitta. Para ele, o encontro deixou marcas duradouras. “Essa vivência foi um encontro cultural que nem Björk, nem Matthew Barney, nem Arto Lindsay, nem os foliões do Cortejo Afro jamais esquecerão”, concluiu.>
Quem viveu tudo isso de dentro foi Rodrigo Pitta, diretor artístico e sobrinho de Mãe Santinha de Oyá. A memória da chegada da cantora segue intacta. “Isso foi uma das coisas mais surreais da minha vida. Eu estava no terreiro da minha tia quando aconteceu a vinda da Björk, organizada pelo Arto Lindsay, que é um grande produtor musical e tem uma forte ligação com as artes plásticas brasileiras”, recordou Rodrigo. O projeto tinha ambição clara. “Arto trouxe Matthew Barney para o Brasil, que na época era marido da Björk, para realizar uma obra do projeto Cremaster dentro do Cortejo Afro, algo completamente fora do padrão do carnaval”, explicou.>
Por falar inglês, Rodrigo acabou se tornando um elo inesperado entre a artista e a comunidade. “Como eu falava inglês, acabei auxiliando nessa chegada da Björk, nesse contato inicial, ajudando na comunicação e na adaptação dela ao ambiente”, relatou. O primeiro encontro foi quase cinematográfico. “Eu era muito fã da Björk e ela já era extremamente famosa. Eu estava em Pirajá sem saber exatamente quando ela apareceria, quando de repente avistei aquela mulher numa cafta laranja, com flores na cabeça, acompanhada da filha”, lembrou. Registrar aquilo, na época, era um desafio. “Naquela época não existia smartphone, eram telefones de discar, e eu fiquei completamente transtornado, ligando para os amigos e tentando registrar aquele momento de qualquer forma”, contou.>
Björk
A convivência seguiu por dias intensos. “A partir dali começou uma convivência de cerca de dez a quinze dias, que foi toda a experiência intensa que vivi com eles durante o Carnaval”, relatou Pitta. Para ele, Björk sempre ocupou um lugar singular na música. “Entre as artistas pop, Björk sempre me pareceu a mais artística. Mesmo sendo uma pop diva, ela carregava uma quantidade enorme de arte viva na alma”, avaliou. Essa postura ficou evidente em Salvador. “Assim como toda boa artista, Björk quis saber muito sobre a cultura baiana. Ela se hospedou em Pirajá, viveu a culinária local e esteve próxima das pessoas da comunidade”, afirmou. A imersão era total. “Ela andava descalça na rua, convivia com os moradores e ficou encantada pelos tambores da Bahia, pelos sabores e por tudo o que fazia parte daquele cotidiano”, descreveu.>
Mesmo sem integrar diretamente a obra do então marido, a experiência atravessava sua percepção artística. “Mesmo não participando diretamente da obra do Matthew Barney, ela estava ali em muitos processos mentais e artísticos, absorvendo tudo o que via”, observou. O contraste cultural era evidente. “Era tudo muito diferente para alguém que nasceu na Islândia, uma realidade completamente distinta do Ocidente que ela conhecia”, pontuou. Para quem acompanhou de perto, o impacto foi definitivo. “Essa vivência foi um choque cultural positivo, que alimentou a curiosidade e o olhar artístico dela”, concluiu.>