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Flavia Azevedo
Publicado em 18 de abril de 2026 às 13:00
Há uma semana, o Wet Eventos, em Salvador, se transformou em um cenário de catarse coletiva e não tenho expressão mais apropriada. Diante de um público de cerca de 25 mil pessoas - majoritariamente formado por homens e mulheres que movem as engrenagens da nossa cidade com trabalho árduo -, o cantor Pablo cumpriu a promessa de uma maratona com “10 horas de arrocha”, comandando, ele mesmo, mais de três horas de show. Não é exagero dizer que o evento reafirma o gênero musical como um movimento soteropolitano grandioso, do qual, antes tarde do que nunca, passo a me orgulhar. Além do anfitrião da noite, a "Bodega do Pablo" trouxe outros nomes como Silvanno Salles e Tayrone. >
A “sofrência” não está em meu Spotify, e esse foi o meu primeiro show de arrocha. Na vida. Fui convidada por meu filho adolescente, e o amor por ele venceu a preguiça. Apesar da boa vontade e da companhia deliciosa, estava preparada para viver horas de provação. Só que, chegando lá, longe dos clichês que a elite muitas vezes tenta emplacar, o que vi foi uma produção extremamente profissional e cuidadosa. Além do funcionamento perfeito de entrada, saída e fluxo de pessoas (nas seis horas em que estive por lá, não presenciei qualquer confusão), o palco era um espetáculo à parte. O cenário imersivo reproduzia os tradicionais botecos do interior baiano, incluindo elementos como churrasqueira (acesa, assando carne), mesas de bar e mesa de sinuca, onde convidados se divertiam e bebiam, fazendo da “quarta parede” o recurso mais ultrapassado do mundo. Só pra começar.>
Veja imagens exclusivas das 10 horas de arrocha
Depois de três shows de convidados, já era madrugada quando o “dono da bodega” subiu ao palco a bordo de um carro antigo. “Cê tá falando que me ama, sua maluca? Quem ama não machuca!” foi a primeira frase cantada em que prestei atenção. Arrepiei, não vou negar. A partir daí (que me perdoem os estudiosos e críticos de música, mas vou me arriscar), ficou impossível não lembrar de Benito Martínez Ocasio, o porto-riquenho Bad Bunny. Embora, à primeira vista, eles pareçam habitar mundos muito distantes, as semelhanças foram surgindo de forma tão evidente a ponto de eu achar que todos perceberam e/ou vão concordar. O que pode não acontecer, claro, mas vamos lá.>
Primeiro, e mais superficial, é que ambos são, fundamentalmente, trabalhadores que transformaram suas origens periféricas em impérios. Não fazem sucesso “apesar delas”, mas por causa delas e com elas. Observe que, antes de ser o "Rei da Sofrência", Pablo foi vendedor de picolé, frutas e verduras em Candeias. Já Benito, antes de dominar o Spotify, era empacotador em um supermercado de Porto Rico.>
Só que essa origem proletária, muito além de um detalhe biográfico, parece moldar a ética de trabalho e a conexão com o público. Pablo entra e canta impecavelmente. Anuncia que não tem hora para acabar. Como um trabalhador, honra cada centavo pago pelos trabalhadores que lotam a casa de shows para escutá-lo. Uma postura parecida com a de Bad Bunny, também conhecido por realizar shows longos e intensos, com setlists extensos que cobrem várias fases da carreira. Como se diz por aqui, é entrega “sem miséria”, algo não muito comum entre as “estrelas” do show business, seja nacional ou internacional.>
Casamento no show de Bad Bunny no Super Bowl
A ideia da “imersão” traz outra semelhança. Por exemplo, na histórica apresentação no Super Bowl, Bunny também trouxe para o centro do palco os signos de sua comunidade. Entre outros muitos elementos, ele colocou 380 figurantes vestidos de cortadores de cana-de-açúcar e mesas de dominó no maior palco da TV americana. Já Pablo traz para o Wet a "resenha" do churrasco e a sinuca, colocando o cotidiano do trabalhador baiano no centro do espetáculo. Mas ainda tem mais.>
O arrocha, assim como o reggaeton e o trap latino de Bad Bunny, enfrenta uma hostilidade histórica por parte da crítica especializada e dos setores hegemônicos da sociedade. Cada qual ao seu modo, são gêneros rotulados como “menores”, "banais", "sentimentais" ou de "mau gosto". Conforme sabemos, esse rótulo de "brega" ou "cafona" costuma ser uma ferramenta de segregação de classe. Ou seja, tudo o que não se identifica com a tradição da “elite cultural” é jogado na vala do "inferior". E os dois já estiveram (a depender do olhar, ainda estão) nesse lugar, que enfrentam com firmeza.>
Bad Bunny desafia a norma ao se recusar a cantar sempre em inglês, afirmando que sua língua e sua cultura são soberanas. Pablo, por sua vez, abraça o título de "brega" com orgulho. Em uma de suas declarações, ele foi categórico: "Se falar de amor é ser brega, eu sou e ponto". Essa honestidade emocional - a famosa "sofrência" - é, também, um ato político de vulnerabilidade masculina em uma sociedade que ainda insiste em ensinar que "homem não chora". Ainda que o universo de Bad Bunny seja mais abrangente, a interseção do conteúdo de ambos é intensa quando exploram a desilusão, a saudade e a dor de cotovelo. Ambos, a partir da própria cultura, fazem música para as histórias reais de quem ama e perde amores, sem o luxo da psicanálise, nos subúrbios do planeta.>
O arrocha é um movimento que nasceu no distrito de Caroba, em Candeias, no final dos anos 1990, e deixou de ser uma manifestação regional para se tornar um fenômeno nacional. Talvez você não saiba, mas o gênero influenciou diretamente o surgimento do sertanejo universitário, que muitas vezes "se apropriou" de sua batida e de sua temática, ganhando milhões sem dar o devido crédito aos pioneiros baianos. No último sábado, ao ver Pablo comandar aquela catarse de milhares de pessoas com tanta competência, ficou claro pra mim que o movimento paira acima da validação da “intelectualidade” e dos créditos. E que a justiça foi feita.>
Muito além de um evento de música romântica, a "Bodega do Pablo" é a afirmação de um "corpo periférico" que ocupa os espaços de poder e de consumo sem concessões e a bordo da sua própria estética. A sensualidade da dança coladinha, o som do teclado arranjador e o saxofone onipresente fazem parte de uma "gramática pop" que ressoa de Salvador a San Juan. Independentemente de gostos pessoais, é preciso reconhecer que o arrocha é a nossa alma em compasso quaternário. É essa a música de quem acorda cedo, bate laje, serve mesas e, no final de semana, quer o direito de sofrer por amor em uma mesa de plástico, com cerveja gelada e incomodando a vizinhança com o som no talo. Aceita que dói menos: é o som da maioria, ou seja, a nossa cara.>
Flavia Azevedo (@flaviaazevedoalmeida) é articulista do Correio, editora e mãe de Leo>