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A mulher trans me xingou de “transfóbica” e depois pediu desculpas, dizendo que estava bêbada

Essa irresponsabilidade, cada vez mais comum, é um problema que precisa ser enfrentado tanto quanto a transfobia

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 11 de abril de 2026 às 13:00

A agressão que sofri é apenas um entre tantos exemplos de uma prática que se tornou comum
A agressão que sofri é apenas um entre tantos exemplos de uma prática que se tornou comum Crédito: Pexels

Na última segunda (6), uma mulher trans com a qual não tenho qualquer intimidade decidiu que deveria me acusar de “transfóbica” num story em que uma foto minha aparecia. O perfil onde ela comentou era de uma pessoa que teve o bom senso de alertá-la de que acusações dessa natureza têm implicações jurídicas e, se falsas, constituem crime. Também lembrou que ela poderia formalizar a "denúncia" junto às autoridades competentes. No dia seguinte, na mesma conversa via Instagram, a mulher pediu "desculpas”, alegando que, quando fez a acusação, estava bêbada. Isso encerra o assunto? De modo algum.

Não vou gravar um vídeo chorando, dizendo que estou fragilizada, machucada ou deprimida pelo ataque de uma quase desconhecida. Provavelmente, com essa estratégia hoje tão comum, eu comoveria muita gente. Mas não é esse o meu estilo. Fui criança dos anos 1980 e você sabe o que isso significa. Também fui adolescente e jovem adulta no fim dos 1990 e início dos 2000. Naquele tempo, enquanto muita gente que hoje se apresenta como autoridade no debate de gênero nem havia nascido, eu já circulava por aí - inclusive em banheiros públicos femininos - na companhia de travestis, sob o olhar atravessado de quem, à época, se achava moderninho.

Essas minhas “professoras” - hoje já senhorinhas - me ensinaram na prática questões que só muito mais tarde virariam debate público. Foi também com elas que conheci o pajubá, e não depois que virou objeto de estudo. Estou falando de mais de 30 anos atrás, quando ainda nem se organizava com clareza a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. Antes de ler qualquer teoria ou pesquisa, eu já havia sido informada, entre outras coisas, de que muitos dos clientes mais frequentes das travestis que fazem programa são os mesmos pais da família tradicional brasileira. Esses que as rejeitam em público e, não raro, as assassinam.

Elas próprias - e não “especialistas” - me contavam suas histórias. E eu ouvia. Ao mesmo tempo, me tornei jornalista e atuo há décadas em diferentes segmentos da profissão. Há quase dez anos, publico ao menos uma vez por semana em um dos veículos de maior circulação do país. Com uma busca simples, qualquer pessoa pode acessar centenas de textos meus – reportagens, entrevistas e opiniões - sobre diversos temas, inclusive sobre questões que envolvem pessoas trans e travestis.

Nesse período, também escrevi a coluna Quanta (descontinuada em 2020 com o início da pandemia), voltada ao público feminino, que diversas vezes contou com a presença de mulheres trans e travestis em notas e entrevistas. Não sem protestos de leitores que não queriam que elas estivessem ali. Está tudo registrado, inclusive em jornal impresso. Também desenvolvo outros trabalhos. Um dos mais constantes é um projeto continuado de formação profissional para pessoas trans e travestis, incluindo uma oficina de redação recente que trouxe, para mim e para a turma, momentos preciosos, com depoimentos e fotografias registrados em relatório.

Com essa “carteirada”, não pretendo o título de “aliada perfeita”. O que quero é ilustrar o fato de que não há nada de estranho, exótico, ruim ou distante, para mim, em pessoas trans. Há muito tempo. Muito menos algo que me provoque “fobia”. Por outro lado, pela mesma experiência, não me sinto pessoalmente em "dívida" nem tenho necessidade de "infantilizar" essas pessoas. Por esses motivos, me reservo o direito básico de concordar e discordar, sempre respeitosamente, de ideias colocadas no debate público (ou privado) sobre o tema. Especialmente quando o centro dessa discussão é a disputa do conceito de mulher, que me inclui. Eu tenho o direito de falar sobre isso.

Só que o ambiente está cada vez mais perverso. A agressão que sofri é apenas um entre tantos exemplos de uma prática que se tornou comum. O adjetivo “transfóbica/o” tem aparecido muito frequentemente em contextos de simples discordância, com a intenção de amedrontar, calar o contraditório e interditar a discussão. Esse tipo de ação vem se repetindo com tanta frequência que não podemos mais chamar o que me aconteceu de "episódio isolado". O efeito óbvio é a deterioração do ambiente e o silêncio (pelo menos público) de pessoas que nem de longe se calaram por consentimento. Pelo contrário, inclusive.

(E elas votam, vale lembrar. Com sigilo garantido.)

Como em tantos casos recentes com outras pessoas, eu também sofri uma acusação grave e por escrito. Fui chamada de “transfóbica”, sem qualquer argumento. Assim, como se “transfóbica” fosse apenas uma interjeição sem maiores consequências. Ao ser alertada de que isso pode ter repercussões jurídicas, a autora recuou, usando a embriaguez como justificativa. Outra vez, como se tivesse apenas quebrado um copo ou falado um palavrão em momento inoportuno. A "denunciante" é maior de idade e deve saber que adultos respondem pelo que fazem, inclusive quando estão bêbados. Se não pretendem assumir atos cometidos em estado alterado de consciência, que não se alterem. É simples assim.

Não aceitamos - com razão - que homens violentos usem o álcool como justificativa para agredir suas companheiras. Do mesmo modo, ninguém será perdoado por atos de racismo, homofobia ou transfobia, sob a justificativa de embriaguez, "nervosismo", “distração”, “cultura” ou qualquer outra desculpa rasteira. Não vejo motivos para não aplicar o mesmo raciocínio em todos os outros contextos. Ou a responsabilidade é um princípio, ou é apenas um recurso retórico que se aplica conforme a conveniência. Meu episódio pessoal pode até se encerrar aqui, mas esse tipo de prática é um problema que precisa ser enfrentado tanto quanto a transfobia. A não ser que não precisem de aliados. Porque muitos estão desistindo, depois que ser aliado passou a significar a obrigatoriedade de pensar igual e obedecer cegamente. Ou, então, ser agredido.

Continuo sem qualquer “fobia” de pessoas trans e fazendo o que eu puder para a inclusão de todos os grupos em todos os ambientes. Continuo sem a menor intenção de me retirar de um debate que também me diz respeito. E continuo sem o menor medo. Continuo também disposta a sustentar, de forma civilizada, pontos de discordância como, por exemplo, o fato de que sexo e gênero são categorias distintas e que essa distinção tem implicações concretas, principalmente em políticas públicas de saúde e enfrentamento à violência de gênero. Esta é uma linha legítima de pensamento, que não significa ataque ou hierarquização de experiências.

Também vou continuar fazendo perguntas e concordando ou não com as respostas. Ou seja, vou continuar pensando. Além disso, vou continuar compartilhando diferentes pontos de vista sobre esse e qualquer outro tema, desde que também dentro dos limites da civilidade. Vou entrevistar, vou olhar por outro ângulo, vou pesquisar, vou abrir espaços porque esses são compromissos da minha profissão. Nada disso é crime. Injúria e difamação é que são. Tipificados no Código Penal Brasileiro.

O que não pretendo fazer é aceitar que acusações de crimes sejam tratadas como recurso em discussões. Não são argumentos. Quem faz isso - sóbrio, bêbado ou sob efeito de qualquer outra droga - sabe exatamente a canalhice que está cometendo. Sendo assim, precisa ser responsabilizado, independentemente de sexo, gênero ou de que “lado” esteja.

Por @flaviaazevedoalmeida