Sobre Covardia, Sobre Tolerância

A condição que diferencia o ser humano da fauna é a capacidade de refletir, racionalizar e escolher. As escolhas, porém, são muitas vezes viscerais, destituídas de qualquer razão

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  • Matheus Oliva

Publicado em 16 de dezembro de 2023 às 11:00

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Sobre covardia, sobre tolerância Crédito: Reprodução

"Iludido é pior que doido”, disse a figurinha de WhatsApp. A perfeita síntese dos perigos das paixões: a ilusão. André Comte-Sponville, francês, filósofo contemporâneo e prolífico escritor, escreveu diversos livros, no “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, seu primeiro sucesso comercial, ecoou Baruch Spinoza, filósofo racional holandês do século XVII, que afirmava que ensinar virtudes é melhor do que condenar vícios. Comte-Sponville, apartado de qualquer moralismo, discorreu sobre 18 virtudes. A polidez, a fidelidade, a prudência, a temperança, a coragem, a justiça, a generosidade, a compaixão, a misericórdia, a gratidão, a humildade, a simplicidade, a tolerância, a pureza, a doçura, a boa-fé, o humor e o amor. Em tempos de colérica polarização, a virtude da tolerância merece exame. No livro, Comte-Sponville elabora:

“'Ser tolerante é tolerar tudo?’ Evidentemente que não, pelo menos se quisermos tratar a tolerância como virtude. Deveríamos considerar virtuoso quem tolerasse o estupro, a tortura, o assassinato?”.

Não. Óbvio. Relativizar a virtude da tolerância, portanto, é torná-la vício. A presidente da Universidade da Pensilvânia, M. Elizabeth Magill, obrigou-se à renúncia do cargo dada a vil tolerância dispensada a estudantes berrando, no campus universitário, apologias ao que há de mais desumano, nefasto e cruel, ocorrido na Faixa de Gaza. O ser humano é obrigado ao coletivo. Fato. Obrigado a tolerar. Fato… mas com limites. A condição que diferencia o ser humano da fauna é a capacidade de refletir, racionalizar e escolher. As escolhas, porém, são muitas vezes viscerais, destituídas de qualquer razão. Obliteração por ideologia. Cegueira por ódio. Cólera por inveja. Condições instintivas, portanto, bestiais, de vazio intelectual que permitem aos vícios usurparem as virtudes. O problema da tolerância extremista é a desvirtuação da própria tolerância. Karl Popper chamou isso de “o paradoxo da tolerância”.

Ideologias nitidamente turvam espíritos e espíritos são individuais. É preciso muita coragem para apontar o dedo para si, procurar e encontrar seus próprios vícios e tratá-los com o rigor necessário. Coragem para transformá-los em virtude. Tolerar o intolerável é vício. Não tolerar o tolerável também é vicio. O novo termo que define a polarização ideológica é calcificação. Quando não há mais como opostos conciliarem, estão calcificados em suas posições. Extremistas cospem ódio e vingança, suas virtudes se anulam, seus vícios calcificam. Prega-se para convertidos, ataca-se opositores, tudo em nome de uma ideologia. Calcificar ideias e ideais é o fim da política, é tolerar o intolerável. O extremista só difere do exterminador na prática, nos ideais, são a mesma coisa. Como tolerar Hitler? Como tolerar Maduro? Hamas? Putin? Netanyahu? Como tolerar apologia a Ulstra? Como tolerar intolerantes? O rumo está errado, não é com tolerância ao ódio que haverá virtude. E as virtudes devem prevalecer aos vícios para o bem da sociedade. Odisseia que exige coragem, pois, dos covardes, a história não fala.

Matheus Oliva

Criador da MO - Movimento & Oportunidade

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