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Menina-mãe da violência

Menina não é pra ser mãe. É pra ser filha. E impedir alguém de abortar em caso de violência sexual é torturar.

  • M
  • Mariana Paiva

Publicado em 1 de dezembro de 2024 às 09:21

Tem sim muitos outros temas sobre os quais escrever. Coisas mais agradáveis, mais palatáveis para a gente ler num fim de semana, tomando uma cervejinha gelada. Mas é que não dá pra desver nem fingir que não existe a dor toda que anda por aí, de meninas abusadas com medo de falar. Nessa semana enfrentamos a aprovação de uma PEC que obriga mulheres a gerarem filhos concebidos a partir de estupros, violências sexuais das quais não gostamos nem queremos falar, mas que existem, apesar disso. No mesmo país em que, somente no ano passado, 123 mil crianças de 8 a 14 anos se tornaram mães. Infâncias interrompidas pelo abuso de quem devia cuidar.

“Ah, mas na minha família não tem. Eu cuido de minha filha o tempo todo". É bom mesmo de pensar, senão todo mundo enlouquece. Mas vá trocar uma ideia com quem trabalha em escola, qualquer uma, e o que vai ouvir vai te deixar de orelha em pé. Tem muita criança sendo abusada pelos tios, pelos irmãos, pelos avós, pelos amigos da família, pelas babás e também pelos pais. E ainda - infelizmente - muita escola (boa, viu?) no qual o procedimento padrão é não tocar no assunto, quando ele chega por meio da criança.

Parece surreal mesmo, e é. Lembro de uma situação de abuso sexual que aconteceu há muitos anos atrás, numa viagem de ônibus intermunicipal que fiz. Vi e ouvi o acontecido, na poltrona de trás da minha, acolhi a vítima, e pedi que o motorista acionasse a polícia. Ele se negou, e disse que ia apenas trocar o abusador de lugar. Neguei. Ele propôs então trocá-lo de ônibus, já que havia um outro da mesma empresa atrás. Neguei também. Era madrugada, e disse a ele que o correto era parar no próximo posto da polícia. Ele, o motorista do outro ônibus e alguns passageiros reclamaram. Ia atrasar a viagem. E a vítima? E o sofrimento da vítima, e a possibilidade daquilo acontecer de novo a outra pessoa? Foi então que uma moça que fazia aquele trajeto toda semana por conta de estudos chegou perto e disse: "Semana passada aconteceu comigo, e eles só trocaram o rapaz de lugar". No fim, quando chegou na polícia, o abusador da viagem já tinha outros casos na ficha, e ficou por lá mesmo. Se não tivéssemos atrasado a viagem, certamente continuaria angariando novos casos. Não dá pra calar. Chegar atrasado é o de menos quando tem vida de gente no meio da história.

Somos pessoas e estamos todas - querendo ou não - envolvidas nesse grande bolo que é viver em sociedade. O que acontece com uma impacta na vida de outra. Se uma menina de oito anos se torna mãe, perde a infância, uma menina que podia estar lendo, brincando de bola, boneca, jogando Roblox, sei lá o que mais, é sim de minha conta. Mesmo que eu não saiba o nome dela. Pessoas não são números. Pessoas importam.

Parece óbvio mas é tão necessário repetir ainda hoje, em 2024, quando já era pra gente ter aprendido alguma coisa e ainda falta tanto. Política de estado e casa legislativa não é lugar pro que a gente guarda no coração: pra nossa religião, pra nossa crença, pro nosso jeito de ser. É para cuidar de pessoas. Sim, eu sei que a gente naturalizou o contrário. Mas volta tudo que tá errado. Se quem deveria proteger e zelar pelos interesses das meninas de oito anos - que ainda estão tão longe de votar - está legislando e trabalhando contra elas, então precisamos pensar bem em nossos silêncios.

Até porque já tivemos oito anos. Já quisemos brincar até tarde, que a vida fosse férias eternas, nunca pensar em boletos e só pensar em fralda se fosse de boneca. Menina não é pra ser mãe. É pra ser filha. E impedir alguém de abortar uma gravidez num caso já previsto em lei - que é o de violência sexual - é torturar.

Não é sobre ser a favor da vida. Se fosse, valeria também o fato de que a própria mulher ou menina também tem uma vida pela frente para ser mãe sem ser pela via da violência, mas do amor. Desejando, sonhando a criança, esperando com fé e todas as suas células empenhadas em ver nascer alguém com saúde.

Não é sobre a vida essa PEC. É sobre fazer com que sejam mães de filhos gerados por um homem que é um estuprador, e que infelizmente é uma realidade que pode sim atingir qualquer mulher em condições físicas de gerar uma criança. Porque todas estão expostas. Basta ser mulher.

Mariana Paiva é escritora, jornalista, head de DE&I do RS Advogados e consultora em Diversidade, Equidade e Inclusão da Awá Cultura e Gente.