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Andrea Carvalho: A trajetória da líder que transforma resíduos em papel plantável

Pós-COP30: Como converter discursos de sustentabilidade em práticas reais de economia circular e dignidade humana

  • Foto do(a) author(a) Carmen Vasconcelos
  • Carmen Vasconcelos

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 06:00

Liderança feminina e regeneração: Andrea Carvalho reflete sobre propósito, gestão e o impacto social da Papel Semente
Liderança feminina e regeneração: Andrea Carvalho reflete sobre propósito, gestão e o impacto social da Papel Semente Crédito: DIVULGAÇÃO

Após a realização da COP30 em Belém, que consolidou o papel estratégico do Brasil na liderança da agenda climática global, o desafio agora é converter as discussões em ações duradouras. Nesse cenário de execução e legado, histórias como a da Papel Semente ganham ainda mais relevância. Certificada como Empresa B, a marca transformou o descarte de resíduos em papel plantável, tornando-se uma referência prática em negócios de impacto socioambiental.

O projeto nasceu de um incômodo profundo diante do descarte desenfreado e da exclusão social, e hoje simboliza um modelo de desenvolvimento regenerativo — aquele que une gestão, propósito e impacto real. À frente da iniciativa está Andrea Carvalho, uma líder que iniciou sua caminhada junto a comunidades de catadores e construiu uma cadeia produtiva capaz de gerar renda, dignidade e vida.

Nesta entrevista, Andrea reflete sobre os aprendizados dessa travessia, o papel decisivo da liderança feminina e a urgência de manter a coerência entre o discurso sustentável e a prática diária, em um momento em que o mundo busca, mais do que nunca, caminhos concretos para a regeneração do planeta.

1. A sua trajetória começa no trabalho com comunidades ligadas a lixões e chega hoje à liderança de uma empresa B certificada e referência em sustentabilidade. Quando você olha para esse caminho, o que mais te orgulha nessa travessia?

O que mais me orgulha é ver que aquilo que nasceu de um incômodo virou uma estrutura sólida, capaz de gerar renda e dignidade para muita gente. A Papel Semente começou de forma muito simples, com o desejo de transformar o descarte em oportunidade. Hoje, olho para trás e vejo que conseguimos criar um negócio que se sustenta com propósito, mas também com gestão. O impacto ambiental e social é real, mas o que mais me toca é saber que pessoas que antes estavam sem oportunidade hoje fazem parte de uma cadeia que planta futuro.

2. A ideia de criar um papel que pode ser plantado nasceu de uma observação de iniciativas internacionais. Que momento exato te fez perceber que essa inovação tinha um potencial de transformação no Brasil?

Quando vi pela primeira vez um papel que germinava, percebi que havia ali uma ideia potente, mas que só faria sentido se ganhasse um sotaque brasileiro. Trouxemos o conceito, mas traduzimos tudo: o modo de produzir, os materiais, as mãos que fazem. O potencial de transformação veio justamente disso, de entender que a inovação não estava só no produto, mas em quem o produzia.

3. A Papel Semente carrega desde o início um duplo compromisso — ambiental e social. Como foi o processo de equilibrar propósito e viabilidade financeira num país onde o empreendedorismo sustentável ainda enfrenta tantos desafios?

Foi um aprendizado longo. Eu sempre acreditei que propósito e resultado não são opostos, mas encontrar esse equilíbrio exige disciplina. No começo, a vontade de fazer o bem era maior que a de fazer conta. Aos poucos, entendi que o impacto precisa caber na planilha, senão ele não se mantém. Hoje, a Papel Semente é uma empresa B, e isso mostra que dá para unir coerência, gestão e propósito sem abrir mão de nenhum dos três.

4. Você costuma dizer que a empresa é feita “de mãos que acreditam em recomeços”. Como o trabalho com catadores, cooperativas e mulheres da comunidade moldou o DNA da Papel Semente?

Essas mãos ensinaram muito mais do que técnicas. Elas me mostraram o valor da reconstrução. A maioria de nós passou por perdas e recomeços difíceis e, ainda assim, escolhemos seguir. A Papel Semente tem esse mesmo espírito. Não é uma empresa feita de grandes promessas, mas de pequenos gestos que se repetem todos os dias. É isso que dá sentido ao que fazemos.

5. Ao longo desses anos, quais foram os principais aprendizados de gestão e liderança feminina que você acredita terem sido determinantes para o sucesso e a consistência do negócio?

Aprendi que liderança não é sobre controle, é sobre presença. E que sensibilidade e firmeza podem andar juntas. Como mulher, precisei provar muitas vezes que dava conta, mas hoje entendo que a força não está em endurecer, e sim em sustentar as escolhas com clareza. Liderar também é saber ouvir e dar espaço. Acho que esse foi o maior aprendizado: permitir que outras pessoas floresçam junto.

6. A Papel Semente se tornou Empresa B e recebeu prêmios importantes. Mas além dos reconhecimentos, o que mais te move hoje como líder — impacto, propósito, inovação ou legado?

O que me move é a coerência. Ter a tranquilidade de saber que aquilo que a gente fala é o que a gente faz. Claro que inovação e propósito são motores importantes, mas o que me faz levantar todos os dias é ver o ciclo completo acontecendo: o papel que nasce do resíduo, volta à terra e vira vida de novo. Isso é mais do que simbólico: é concreto.

7. Você é uma presença ativa em conselhos e movimentos voltados ao empreendedorismo feminino. O que ainda falta para que as mulheres empreendedoras tenham condições reais de competir e prosperar no Brasil?

Falta estrutura, não talento. As mulheres já provaram que têm competência e visão de negócio. O que ainda falta são políticas que levem em conta a desigualdade de base, como acesso a crédito, capacitação, redes de apoio e tempo. Tempo é um recurso subestimado. A sobrecarga ainda é enorme, e isso limita o crescimento. Trabalhar em rede tem sido uma forma de enfrentar isso coletivamente.

8. O termo ESG está em alta, mas muitas empresas ainda o tratam como discurso. Quais atitudes concretas diferenciam uma empresa genuinamente comprometida com impacto socioambiental de uma que apenas adota o selo da moda?

A diferença está na coerência entre o que se comunica e o que se pratica. Ser sustentável é uma escolha diária: é rever fornecedores, reduzir consumo, tratar bem quem trabalha com você e respeitar quem vive do outro lado da cadeia. ESG não é um crachá bonito, é uma postura. E ela aparece nos detalhes, não nos slogans.

9. O papel da comunicação é central no seu trabalho — afinal, o produto da Papel Semente literalmente “se planta”. Como você enxerga a força simbólica dessa mensagem num momento em que o mundo fala tanto sobre regeneração e propósito?

Acho bonito quando dizem que o nosso produto fala por si, porque é verdade. Ele carrega uma mensagem simples: tudo pode recomeçar. Num mundo cansado de discursos, o gesto de plantar um papel diz mais do que mil campanhas. A comunicação, para mim, tem que ser honesta. E o papel semente comunica com verdade, ele entrega o que promete.

10. A frase “a escolha é sempre entre sofrer ou ressignificar” se tornou uma espécie de mantra seu. Que novas sementes você ainda deseja plantar — como empresária, mulher e ativista — nos próximos anos?

Quero continuar escolhendo a segunda opção. Sofrer imobiliza, ressignificar move. Tenho vontade de ampliar o impacto da Papel Semente, mas também de inspirar outras pessoas a criarem negócios que transformem, de verdade. No fim das contas, o que quero plantar são possibilidades de vida, de trabalho, de futuro.

Sobre Andrea Carvalho

Andrea Carvalho é empresária, palestrante, mentora e conselheira, reconhecida por seu pioneirismo à frente da Papel Semente, empresa que desde 2009 transforma resíduos em vida por meio do papel plantável. Psicóloga com pós-graduação em Gestão Empresarial, encontrou no empreendedorismo sustentável uma forma de unir propósito, inovação e impacto social. É membra do Conselho Estadual do Empreendedorismo Feminino (CEEF), instituído em 2024 no Rio de Janeiro, integra o Conselho da Mulher da Firjan, é cofundadora do Hub+ Conselheiras RJ e embaixadora da Rede Mulher Empreendedora. Recebeu prêmios como o Sebrae Mulher de Negócios (1º lugar nacional), o Visão Consciente da Fecomércio RJ (Meio Ambiente, 2023) e o Prêmio Dandara (Asplande/CEDIM RJ). Mãe de Luis Felipe e casada com Paulo, Andrea acredita na força da ressignificação e costuma dizer que, entre sofrer e transformar, sempre escolherá a segunda opção.

Tags:

Empreendedorismo Negócios Economia