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Falha global indica que existem bilhões de pessoas 'invisíveis' no planeta; entenda

Estudo publicado na revista Nature revela que falhas sistemáticas no recenseamento de áreas rurais podem ter deixado até 2,9 bilhões de pessoas fora dos registros oficiais da ONU

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Foto do(a) author(a) Raphael Miras
  • Agência Correio

  • Raphael Miras

Publicado em 25 de abril de 2026 às 19:00

Dados de satélite e projetos de infraestrutura revelam: em algumas regiões rurais, a subnotificação populacional chega a assustadores 84%
Dados de satélite e projetos de infraestrutura revelam: em algumas regiões rurais, a subnotificação populacional chega a assustadores 84% Crédito: Banco de imagem

Em novembro de 2022, a ONU celebrou um marco histórico: atingimos a marca de 8 bilhões de seres humanos na Terra. Atualmente, os relatórios demográficos estimam que já somos cerca de 8,2 bilhões, com a previsão de que a humanidade alcance seu pico populacional em 2080.

Mas segundo um estudo recente publicado na revista Nature acende um alerta vermelho para todos: nossos cálculos podem estar profundamente errados.

Pesquisadores da Universidade de Aalto, na Finlândia, revelaram que os conjuntos de dados utilizados por demógrafos subestimam sistematicamente o número de habitantes no planeta. A diferença não é pequena.

Nem todo mundo conta: a ciência da incerteza mostra que bilhões de seres humanos ainda vivem sem existir oficialmente para os governos por Banco de imagem

Conforme o estudo, podemos estar falando de centenas de milhões, ou até bilhões de pessoas que vivem no "ponto cego" das estatísticas globais.

Onde estão as pessoas "esquecidas"?

O grande problema reside nas áreas rurais. O pesquisador Josias Láng-Ritter, um dos autores do estudo, aponta que uma parcela significativa dessa população simplesmente não aparece nos registros oficiais. Dependendo do banco de dados consultado, a subestimação nessas regiões varia entre 53% e 84%.

Para chegar a essa conclusão, a equipe utilizou um método engenhoso: eles analisaram dados de reassentamento de mais de 300 projetos de construção de barragens em 35 países.

Como a construção de uma represa exige a realocação exata da população local, esses números são muito mais precisos do que os mapas demográficos tradicionais. Ao cruzar as informações, os cientistas descobriram que, mesmo em mapas atualizados em 2010, entre 32% e 77% da população rural era omitida.

A ciência da incerteza e suas consequências

Embora a demografia tente ser exata, o especialista Jakub Bijak ressaltou em entrevista à BBC que a única certeza nas previsões populacionais é a incerteza. "É um processo difícil, baseado em nossa experiência e em todas as informações que temos acesso", reforçou Toshiko Kanera, especialista em projeções.

Essa imprecisão não é apenas um detalhe estatístico; ela tem consequências reais na vida das pessoas. Sem dados corretos, governos falham na redistribuição de recursos básicos.

Ritter exemplifica que mapas populacionais imprecisos dificultam decisões fundamentais: "Precisamos de uma estrada pavimentada ou de um hospital? De quantos medicamentos são necessários em uma área? Quantas pessoas seriam afetadas por desastres naturais?".

O melhor e o pior cenário

Se fizermos cálculos rápidos baseados nas falhas apontadas pelo estudo, o cenário é impactante:

  • No melhor cenário (subnotificação de 53% no campo), 1,869 bilhão de pessoas estariam fora dos radares. 
  • No pior cenário (subnotificação de 84%), esse número salta para assustadores 2,962 bilhões de pessoas não recenseadas.

O estudo cita o Paraguai como um exemplo crítico, onde o censo de 2012 pode ter deixado de fora um quarto de sua população total.

Enquanto países como a Finlândia — que mantém registros digitais há 30 anos — conseguem dados confiáveis, nações que enfrentam crises ou que demoraram a implementar sistemas digitais continuam operando no escuro.

Para os pesquisadores, é urgente uma discussão crítica sobre como esses mapas são feitos, garantindo que as comunidades rurais tenham acesso equitativo a serviços e direitos básicos.