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Filhos de trabalhadores de Chernobyl apresentam mutação genética semelhante aos país, mostra estudo

Pela primeira vez, cientistas conseguiram localizar danos genéticos causados pela radiação em descendentes

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Agência Correio

Publicado em 24 de abril de 2026 às 07:00

Pesquisa aponta que exposição nuclear deixou marcas transmitidas às novas gerações
Pesquisa aponta que exposição nuclear deixou marcas transmitidas às novas gerações Crédito: PxHere

Quatro décadas após a explosão do reator na usina de Chernobyl, um novo estudo revelou que a tragédia pode ter ultrapassado o tempo e atingido quem nem sequer estava lá. Pela primeira vez, cientistas comprovaram que danos genéticos causados pela radiação foram transmitidos aos descendentes.

A descoberta ajuda a esclarecer uma dúvida que persistia desde 1986: filhos de pessoas expostas herdariam alterações no DNA? Até agora, os resultados eram incertos. O novo trabalho indica que sim, embora os impactos diretos na saúde sejam considerados baixos.

Cães da região estão evoluindo de forma acelerada por Imagem gerada por IA

Publicada na revista Scientific Reports, a pesquisa analisou padrões específicos de mutação e encontrou sinais claros de que a exposição à radiação deixou marcas biológicas duradouras.

Intergeracional e silencioso

Os cientistas mudaram o foco tradicional das análises. Em vez de procurar mutações isoladas, investigaram agrupamentos raros chamados cDNMs, que surgem quando o DNA sofre quebras e é reparado de forma imperfeita. Esse padrão funciona como uma assinatura de exposição à radiação.

Segundo os autores da Universidade de Bonn, houve “um aumento significativo” dessas mutações nos filhos de pais irradiados. Além disso, os dados sugerem uma relação entre a dose de radiação recebida pelos adultos e o número de alterações observadas nos descendentes.

Na prática, isso indica que a radiação não apenas afetou quem esteve no local, mas também alterou células reprodutivas. Assim, quando esses trabalhadores tiveram filhos anos depois, parte dos danos já estava incorporada ao material genético transmitido.

Quem participou da pesquisa

O estudo analisou o genoma completo de centenas de pessoas. Entre elas estavam 130 descendentes de trabalhadores envolvidos na limpeza do acidente e moradores da cidade de Pripyat, evacuada após a explosão.

Também foram incluídos descendentes de operadores de radar militar alemão possivelmente expostos à radiação dispersa, além de um grande grupo de controle formado por filhos de pais sem histórico de exposição. Essa comparação permitiu identificar diferenças estatísticas relevantes.

Os resultados mostraram maior concentração de mutações nos grupos expostos, mesmo após ajustes para possíveis distorções nos dados. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que o risco de doenças decorrentes dessas alterações parece ser extremamente baixo.

O que aconteceu com o DNA

Quando o reator explodiu, grandes quantidades de material radioativo foram liberadas no ambiente. A radiação ionizante gerou moléculas altamente reativas no corpo humano, capazes de danificar estruturas celulares e romper cadeias de DNA.

Esses danos ocorreram inclusive nas células responsáveis pela reprodução masculina. Como consequência, fragmentos de DNA alterado foram preservados e transmitidos às gerações seguintes, formando aglomerados de mutações detectáveis décadas depois.

Apesar da descoberta impressionante, o estudo aponta limitações. A exposição original precisou ser estimada com base em registros antigos, e a participação voluntária pode ter influenciado os resultados. Mesmo assim, os achados reforçam a importância de monitoramento contínuo.

Hoje, a zona ao redor da usina permanece praticamente desabitada, um lembrete físico de uma tragédia que ainda ecoa de forma invisível. O que parecia restrito ao passado revela, pouco a pouco, consequências que atravessam famílias e gerações.