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Nova caça aos antibióticos na Amazônia vira alerta para soberania após ameaças de guerra

Estudos recentes reafirmam o solo amazônico como um grande aliado na busca de compostos para combate de bactérias superresistentes

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 23 de março de 2026 às 06:27

Como o ecossistema mais diverso do mundo, a Amazônia possui uma ampla reserva biológica com alto potencial de bioativos úteis
Como o ecossistema mais diverso do mundo, a Amazônia possui uma ampla reserva biológica com alto potencial de bioativos úteis Crédito: Freepik

A resistência bacteriana cresce no mundo inteiro, enquanto a fila de novos antibióticos segue curta. Nesse cenário, pesquisadores voltaram a olhar para o solo, um ambiente em que fungos e bactérias travam disputas químicas há milhões de anos.

Estudos recentes com microrganismos isolados na Amazônia indicam que esse chão ainda guarda moléculas pouco conhecidas, capazes de inspirar futuras drogas contra infecções difíceis de tratar. O sinal é promissor, mas a ciência ainda está selecionando candidatos promissores.

undefined por Forest and Kim Starr/ Flickr/Creative Commons

Solo de volta ao centro das pesquisas

O interesse não surgiu agora. Muitos antibióticos vieram da observação de microrganismos do solo. Nesse ambiente, bactérias e fungos competem para sobreviver e produzem substâncias que bloqueiam ou eliminam rivais. 

O que mudou nos últimos anos foi a capacidade de enxergar melhor essa guerra microscópica. Técnicas como sequenciamento genético, mineração de genomas, cultivo em condições variadas e análises químicas mais finas passaram a revelar compostos que antes escapavam do radar.

Esse movimento ajudou a recolocar a terra no mapa da inovação farmacêutica. Em 2025, por exemplo, cientistas descreveram a lariocidina, uma molécula obtida de bactéria do solo com mecanismo novo, baixa propensão à resistência e efeito em modelo animal contra um patógeno hospitalar importante.

O que a Amazônia já mostrou

Na Amazônia, o avanço mais consistente aparece na bioprospecção, em que pesquisadores passaram a analisar bactérias e fungos de áreas preservadas para mapear rotas genéticas capazes de produzir metabólitos bioativos, grupo que inclui compostos com potencial antibiótico.

Em um dos trabalhos mais recentes, cientistas estudaram bactérias isoladas em uma unidade de conservação amazônica. O resultado chamou atenção porque boa parte dos clusters biossintéticos encontrados estava ligada a metabólitos ainda desconhecidos, um sinal de que a biblioteca química da região segue pouco explorada.

Outro estudo, publicado em 2026, investigou um fungo do solo amazônico, o Aspergillus japonicus. Os autores identificaram mais de uma centena de clusters biossintéticos e relataram atividade antimicrobiana seletiva do extrato contra bactérias como E. coli, Shigella sonnei e Staphylococcus aureus resistente à meticilina, o MRSA.

Em linguagem simples, a floresta ainda parece esconder um acervo molecular enorme. Isso não significa que um novo antibiótico sairá do chão da Amazônia amanhã. Significa, sim, que o bioma pode oferecer pistas valiosas para a próxima geração de remédios.

  • há diversidade microbiana ainda pouco descrita
  • muitos clusters encontrados estão ligados a metabólitos desconhecidos
  • a crise da resistência pressiona a busca por mecanismos novos

Por que faltam antibióticos novos?

A busca por novas drogas perdeu força por uma combinação conhecida. Descobrir moléculas inéditas é caro, lento e arriscado. Além disso, antibióticos precisam ser usados com parcimônia, o que reduz o retorno comercial e afasta parte do investimento privado.

A Organização Mundial da Saúde informou, em 2025, que uma em cada seis infecções bacterianas comuns confirmadas em laboratório no mundo já era resistente ao tratamento antibiótico em 2023. Na prática, isso significa menos margem de segurança para médicos e pacientes.

A própria OMS descreve uma pipeline frágil: número de antibacterianos em desenvolvimento clínico caiu nos últimos anos, e só uma parcela pequena foi considerada realmente inovadora ou direcionada às bactérias classificadas como críticas pela agência.

Preservar a floresta também é preservar oportunidades médicas

Porém, a discussão não termina no laboratório. Pesquisas sobre o resistoma do solo amazônico indicam que a conversão de floresta em pasto altera a microbiota local e pode favorecer a seleção e disseminação de genes de resistência a antibióticos.

Esse dado amplia o peso da conservação. Proteger o bioma não serve apenas para conter desmatamento ou preservar espécies visíveis. Também ajuda a manter comunidades microbianas complexas, ainda pouco conhecidas, que podem ter valor científico, médico e econômico.

O tema também envolve soberania científica. Quando universidades e institutos brasileiros estudam a microbiota da região, o país ganha mais capacidade para transformar biodiversidade em pesquisa própria, tecnologia e inovação, sem reduzir a floresta a fornecedora bruta de matéria-prima.

Tags:

Saúde Pesquisa Floresta Amazônica Ciência