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Ailton Krenak toma posse na Academia Brasileira de Letras

Escritor e ativista é o primeiro indígena na instituição criada em 1897

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  • Doris Miranda

Publicado em 5 de abril de 2024 às 22:48

Ailton Krenak com o tradicional fardão bordado
Ailton Krenak com o tradicional fardão bordado Crédito: divulgação ABL

No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), na noite desta sexta-feira (5), o escritor, filósofo e ativista Ailton Krenak invocou os 305 povos indígenas que compõem a tessitura do país para receber com ele os símbolos - o diploma, o colar e a espada - que o transformaram no mais novo acadêmico, guardião temporário da cadeira de número 5, herdada do historiador José Murilo de Carvalho, morto no ano passado. A cadeira número 5 já foi ocupada por Rachel de Queiroz

Krenak é o primeiro indígena no quadro da ABL desde sua fundação, em 1897. A posse do pensador contou com a presença dos ministros Margareth Menezes (Cultura) e Sílvio Almeida (Direitos Humanos), além da presidente da Funai, Joenia Wapichana, e de representantes de diversas etnias indígenas, vindos de quatro ou cinco regiões do país.

“Uma presença plural, mostrando que somos uma sociedade muito complexa e provocando uma importante fricção entre o português da Academia e o falado no resto do Brasil”, ressaltou Ailton Krenak, em seu discurso de posse.

Krenak com Gilberto Gil, Fernanda Montenegro e Margareth Menezes
Krenak com Gilberto Gil, Fernanda Montenegro e Margareth Menezes Crédito: reprodução

Vestindo o tradicional fardão azul marinho com bordados dourados, Krenak fez questão de manter a bandana de sua etnia que exibe desde sempre na testa. Com um discurso bem humorado - mas sobretudo político -, ele até tentou seguir o rito, como esperado. Em sua fala informal, porém, lembrou de palavras-chave, como biosfera, diversidade, efeito estufa, mudança climática, escravidão, meio ambiente e civilização predatória, que integram seu repertório habitual.

Depois de assinar o diploma, Ailton Krenak recebeu o colar de Fernanda Montenegro; a espada de Arnaldo Niskier; e o diploma de Antônio Carlos Secchin.

Uma curiosidade: o cardápio da cerimônia foi composto de iguarias tipicamente indígenas, como batata doce assada numa ‘pele’ de argila, sopa com especiarias, sopa de mandioca e banana da terra, água de coco, açaí e pratos quentes com folha de taioba, importantíssima fonte de ferro e proteína.

Krenak é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora e ocupa a cadeira 24 da Academia Mineira de Letras. Nascido no vale do rio Doce (MG), região afetada pela atividade de extração mineira, mudou-se para o Paraná aos 17 anos, onde se alfabetizou.

Ele participou da fundação da União Nacional dos Indígenas (UNI), primeiro movimento indígena de expressão nacional. Sua eleição para a ABL acontece no aniversário de 35 anos da promulgação da Constituição, na qual atuou para a aprovação da emenda constitucional que trata dos direitos dos povos originários. Em 1987, ele comoveu o país com um discurso na Assembleia Nacional Constituinte, em que pintou o rosto com a tinta preta de jenipapo em protesto ao retrocesso dos direitos indígenas.

O sucesso de seus livros mais recentes, como A Vida não é Útil e Ideias para Adiar o Fim do Mundo, ambos publicados pela Companhia das Letras, difundiu o pensamento ameríndio para o grande público, propondo novos modos de vida e maneiras de se relacionar com o meio ambiente.

Krenak critica o que ele chama de “humanidade zumbi”, uma ideia de progresso que “deslocou os homens do corpo da terra e nos levou o consumo desenfreado e à destruição da natureza”.