Tessitura de memórias negras

Exposição Um Defeito de Cor narra a história preta brasileira em diversidade visual

Baseada no livro de Ana Maria Gonçalves, a mostra segue  em cartaz até 3/03, com entrada gratuita às quartas e domingos no Muncab

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  • Luiza Gonçalves

Publicado em 21 de fevereiro de 2024 às 11:16

Inspirada no livro de Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor narra a história preta brasileira em diversidade visual
Inspirada no livro de Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor narra a história preta brasileira em diversidade visual Crédito: Marina Silva/CORREIO

Se no romance Um Defeito de Cor nós temos a reconstrução da história negra brasileira a partir da voz feminina, preenchendo lacunas e questionando a trajetória que nos foi imposta, na exposição homônima em cartaz no Museu Nacional da Cultura Afrobaiana (Muncab) até o próximo sábado (3), e gratuita às quartas e domingos, a experiência continua a emocionar e ganha o sensorial.

A riqueza das páginas escritas por Ana Maria Gonçalves se materializam em cores, símbolos, texturas e imagens que compõem essa colcha de retalhos da experiência negra e ancestral no Brasil.

A obra de 2006 narra a história da vida da africana Kehinde, que, aos oito anos, é sequestrada no Reino do Daomé e trazida para ser escravizada. Posteriormente, Kehinde se repatria no continente africano, voltando ao Brasil apenas na velhice, em busca de seu filho perdido. O romance, embalado das memórias e vivências da personagem, foi fruto de uma pesquisa de cinco anos construída a partir de registros do que seria a história de Luísa Mahin, uma das mais importantes revolucionárias na história brasileira e mãe do abolicionista baiano Luiz Gama.

Recentemente, o livro foi tema do desfile na escola de samba carioca Portela, aumentando sua projeção nacional e fazendo com que se esgotasse e se tornasse o exemplar brasileiro mais vendido na plataforma Amazon.

Nossa geografia 

Para aqueles que buscam imergir em seu universo ou iniciar nas temáticas presentes na obra, a exposição no Muncab é obrigatória. Com curadoria de Amanda Bonan, Marcelo Campos e da própria autora, a mostra reúne mais de 350 obras de arte entre desenhos, pinturas, vídeos, esculturas e instalações de mais de 100 artistas brasileiros e até mesmo do continente africano, em sua maioria negros, principalmente, mulheres.

A exposição está dividida em 10 núcleos que conduzem a história da mulher afro-brasileira na representação do fluxo atlântico, trabalho e empreendedorismo, religiosidade, linguagem, maternidade, relações afetivas, lutas e movimentos sociais. São simbologias, sonoridades e imagens, unidas a provérbios africanos e passagens do livro que comovem e trazem referências do nosso passado para pensar o presente e imaginar o futuro.

Na exposição Um Defeito de Cor está à vista nossa marca na geografia, na cultura e na sociedade. Dos materiais que compõem as instalações até a presença de referências a Angélica Moreira e Abdias do Nascimento.

Nessa matéria, selecionei 10 pontos marcantes da exposição, que falaram comigo e acredito que falarão com vocês também. Mas, a vontade mesmo é de passar horas apreciando tantas vozes, que confluem e ganham força com a escrita de Ana Maria Gonçalves, desafiando aqueles que ainda acreditam haver um defeito na nossa cor.

Veja os destaques: 

Na entrada, a obra Igbaiwá representa a grande cabaça da vida, o útero materno. A instalação, de Nádia Taquary e de outras 12 artífices, envolve o público em suas miçangas vermelhas.

Igbaiwá de Nádia Taquary
Igbaiwá de Nádia Taquary Crédito: Marina Silva/CORREIO

Um dos três quadros de J Cunha que compõem a obra Palavras, mosaico caça-palavras do português brasileiro com mix de cores e fonemas que formam máscaras. Na seção da exposição que honra as diferentes línguas da diáspora.

Um dos três quadros de J Cunha que compõem a obra Palavras
Um dos três quadros de J Cunha que compõem a obra Palavras Crédito: Marina Silva/CORREIO

As cores e o título me prenderam na obra Fluxo e Refluxo (Barco de Açúcar), de Tiago Santa’ana, e me fizeram lembrar de Moleque de Engenho, do poeta Nelson Maca, e das amargas memórias dos canaviais que não foram escritas.

Fluxo e Refluxo (Barco de Açúcar), de Tiago Santa’ana
Fluxo e Refluxo (Barco de Açúcar), de Tiago Santa’ana Crédito: Marina Silva/CORREIO

As bonecas de Mãe Detinha de Xangô (1928-2014) são uma raridade e iniciaram dezenas de discípulos na arte popular da confecção de bonecos com os atributos dos deuses da nação nagô.

bbonecas   de Mãe Detinha de Xangô
bbonecas de Mãe Detinha de Xangô Crédito: Marina Silva/CORREIO

O quadro identitário de Daniel Jorge, que tem entalhados em sua madeira negra símbolos Adinkras com a mensagem de comunicação entre o sagrado e a terra pelo axé. Solitude.

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Identitário, de Daniel Jorge Crédito: Marina Silva/CORREIO

Cerâmicas feitas a partir de um poema que se desdobra em esculturas de búzios em Agô, de Gabriela Marinho. Comunicação, clareza e divindade que embelezam e preenchem a única instalação da sala.

Agô, de Gabriela Marinho
Agô, de Gabriela Marinho Crédito: Marina Silva/CORREIO

Os panos de Goya Lopes, feitos especialmente para a mostra, são por si só um conjunto impressionante. Imponentes, adornam e orientam a divisão da exposição, narrando a ancestralidade.

Tecidos feitos por Goya Lopes
Tecidos feitos por Goya Lopes Crédito: Marina Silva/CORREIO

Não poderia deixar de destacar o trabalho extraordinário de Mestre Didi, que simboliza a arte sacra das religiões afro-brasileiras em suas peças cheias de organicidade.

Obras de Mestre Didi
Obras de Mestre Didi Crédito: Marina Silva/CORREIO

Das texturas do barro às águas da Ilha de Itaparica, a instalação Ìwà, de Aislane Nobre, remonta aos fundamentos de Nanã, a criadora dos homens, de onde tudo veio. É uma obra enigmática.

Instalação Ìwà, de Aislane Nobre
Instalação Ìwà, de Aislane Nobre Crédito: Marina Silva/CORREIO

O conjunto de Ruth Landes oferece um passeio pela memória, com cenas que poderiam facilmente ser da minha família. Mosaico de imagens borradas, foto da foto, momentos festivos e religiosos.

O conjunto de imagens de Ruth Landes  Crédito: Marina Silva/CORREIO

SERVIÇO - Exposição ‘Um Defeito de Cor’ | Museu Nacional da Cultura Afrobaiana - Muncab (Rua das Vassouras, 25, Centro Histórico) | Visitação: terça a domingo, das 10h às 17h | Ingressos: R$ 20 / R$ 10, com entrada gratuita às quartas e domingos. Até 3 de março.