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Roberto Midlej
Publicado em 23 de janeiro de 2017 às 05:01
- Atualizado há 2 anos
João Ubaldo Ribeiro, em Itaparica. Obra e vida do autor são tema de livro escrito por sobrinho (Foto: Antonio Saturnino/Arquivo Correio)>
Desde jovem muito interessado em literatura, o carioca Juva Battela teve o privilégio de conviver com um dos maiores escritores da história da língua portuguesa: o baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). O autor de clássicos como Viva o Povo Brasileiro e Sargento Getúlio era casado com uma tia de Juva, Berenice."Aquilo mexeu comigo quando eu era menino. Era fascinante tê-lo perto de mim e aos poucos percebi que o gajo era importante mesmo. E meu interesse por ele acabou se tornando uma obsessão”, diz. Tal obsessão acabou sendo levada muito a sério por Juva, que, na faculdade de Letras da PUC-Rio, apresentou uma tese de doutorado sobre a obra e a vida do tio.O livro de Juva Batella é baseado em sua própria tese que desenvolveu para o doutorado na PUC-Rio (Foto: Manuela Ribeiro/Divulgação)Agora, a tese sai do universo acadêmico e chega para o leitor “comum”, depois de passar por algumas adaptações. O resultado é o livro Ubaldo - Ficção, Confissão, Disfarce & Retrato (Vieira & Lent/R$ 68/420 págs.), que será lançado hoje, às 18h, no Espaço Cultural Barroquinha.No lançamento, estarão presentes Juva e Chica Batella, que é filha de João Ubaldo Ribeiro e ilustrou o livro. As ilustrações, em edição limitada, estarão à venda. Apenas duas cópias de cada desenho estarão disponíveis. O autor e a desenhista vão participar de um bate-papo com o público, que também terá a professora de literatura Eneida Leal Cunha e a jornalista Malu Fontes.DiálogoO formato do livro diferencia-se da maioria dos tradicionais trabalhos acadêmicos, já que Juva, como num romance, opta por um diálogo entre dois personagens. E não se restringe à teoria, já que tem também um tom biográfico. A história do livro nasce do encontro entre dois homens no bar de uma livraria. Ali, um pesquisador que desenvolve sua tese sobre João Ubaldo encontra outro homem que também tem interesse na obra do escritor. Inicia-se então um bate-papo entre os dois, regado a cafezinhos e, depois, a alguns chopes. O diálogo então se torna um pretexto para o escritor desenvolver sua tese. No livro, há também um farto material publicado na imprensa, além de correspondências trocadas entre tio e sobrinho. E as ilustrações completam o tom “informal” do livro.Desde que propôs a Ubaldo desenvolver sua tese acerca do escritor itaparicano, Juva diz ter encontrado apoio no tio: “Eu não encontrei resistência alguma, mas ele disse que não iria contribuir nas divagações acadêmicas ou pseudoacadêmicas. Ele acreditava na literatura como potência, como ato criativo e pronto, mas não como exercício de digressão. Ele se recusava a fazer uma autoanálise teórica”. Entre 1998 e 2014 - ano da morte de João Ubaldo -, Juva trocou diversar cartas e emails com o tio. “Encontrei uns emails bem antigos, mas não estão no livro aqueles que eu escrevia para ele. Há somente aqueles que ele escrevia para mim, afinal os meus textos para ele eram apenas os de um sobrinho babão”, ri Juva. PalavrõesNas correspondências, João Ubaldo faz piada o tempo todo e diz escreve muitos palavrões. “Alguns até impublicáveis, mas que fiz questão de publicar”, brinca Juva. Ali, segundo o pesquisador, o tio está muito à vontade: “Não é o intelectual, tampouco o acadêmico da ABL (Academia Brasileira de Letras)”. A análise da obra de João Ubaldo não segue a ordem cronológica da publicação dos seus livros. O primeiro romance abordado é Sargento Getúlio, o segundo a ser publicado, em 1971, quando o escritor tinha 30 anos. Batella assume sua preferência: “A obra-prima é Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro é um grande romance”.Juva justifica sua escolha: “Sargento Getúlio é perfeito. Ubaldo conseguiu realizar uma síntese através da cabeça de um homem. Ele molda um facínora, um xibungo, um filho d’uma égua que é sargento e enlouquece. E é um monólogo claustrofóbico”. O livro, embora, repleto de regionalismos, tornou-se sucesso de vendas quando chegou ao mercado dos EUA, onde vendeu mais de 70 mil cópias. ItaparicaO pesquisador ressalta que o filme baseado em Sargento Getúlio, de 1983, dirigido por Hermano Penna e com Lima Duarte como protagonista, é muito bom: “Aquele é o papel da vida de Lima Duarte. E se diz que, como ele queria muito fazer o filme, ele até rogou praga para que Othon Bastos, cotado para o papel, não fizesse“, diz Juva, rindo.Ilustrações de Chica Batella, filha de João Ubaldo, como estas havaianas, estão no livro (Desenho: Chica Batella)>
Juva também fala da importância da Ilha de Itaparica - onde Ubaldo nasceu - na obra e na vida do tio: “Ele me contava muitas histórias sobre a Ilha, que é uma grande representação do povo brasileiro ali no Recôncavo Baiano. Ele até dizia que, em Viva o Povo Brasileiro, não estava ‘o povo brasileiro’, mas o povo do Recôncavo. Mas acho que era ‘treta’ dele”, brinca.>
Para o sobrinho de João Ubaldo, a Ilha estava presente em muitas obras do escritor, como O Sorriso do Lagarto (1989) e O Feitiço da Ilha do Pavão (1997). Nas conversas que tinha com João Ubaldo, Juva também falava, naturalmente, de literatura. E o tio, que praticamente só lia os clássicos, defendia que o sobrinho fizesse o mesmo, como lembra Juva: “Ele repetia que só queria ler as coisas antigas e dizia ‘leia os clássicos, leia Cervantes, Shakespeare, Odisseia... E mais: os clássicos deviam ser lidos no original, em inglês”.Ubaldo lhe deu também outro importante conselho: o escritor não deve submeter sua criação à opinião de ninguém. “Para ele, o escritor, se fizesse isso, corria o risco de se fragilizar. E ele me disse aquilo porque eu havia lhe entregado um livro que eu havia escrito e esperava a opinião dele. Os escritores deviam ocultar a ansiedade, ainda que estivessem roendo as unhas”.FilhaAs ilustrações de Chica Batella dão um tom “afetivo” ao livro, afinal os desenhos são baseados nas lembranças que ela tem do pai. “Eu comecei a fazer a série de desenhos um mês após a morte dele porque em casa eu via muita coisa que me remetiam a ele, como o par de Havaianas. Fui fazendo aos poucos, mas sem a pretensão de que fosse uma série”, diz Chica, baiana, 34 anos e formada em Belas Artes. >
Entre os objetos retratados, estão, além das sandálias, copos de uísque, uma caixinha de remédio tarja preta e um binóculo. “Tem coisas também que remetem aos tempos que a gente passava em Itaparica, como um jereré (rede para pescar crustáceos) e um baiacu. Ele adorava fazer cócegas na barriga do baiacu enquanto ele inchava”, revela Chica.>
Ubaldo - Ficção, Confissão, Disfarce & Retrato>
Autor: Juva BatellaIlustrações: Chica BatellaEditora: Vieira & LentPreço: R$ 68/420 págs.>