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Millena Marques
Publicado em 31 de outubro de 2023 às 19:09
"Estar perto de Deus e da família". É assim que dona Enedina Braga Viana define a graça de ultrapassar os 100 anos de idade. Nascida em abril de 1922, a juazeirense é uma das 5.336 pessoas centenárias da Bahia. De acordo com o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado baiano se mantém com o maior contingente de centenários do país: o número representa 0,04% do total de habitantes. >
Em comparação a 2010, a população centenária baiana registrou um aumento de 60% , um acréscimo de 2.001 pessoas. Há 13 anos, o número de pessoas com 100 anos ou mais era de 3.335. À época, a Bahia já liderava o ranking, em termos absolutos, porém possuía a segunda maior proporção deste grupo no total de habitantes, o que foi alterado em 2022. >
Conforme o levantamento, o estado baiano assumiu a liderança dos dois indicadores. A distribuição dos centenários entre munícipios chama atenção: dos 417 munícipios da Bahia, apenas cinco não registraram um morador com 100 anos ou mais. Foram eles: Aiquara, Brejões, Jussari, Pau Brasil e Terra. >
Salvador, Feira de Santana e Alagoinhas são as cidades com maiores populações centenárias do estado. Elas têm, respectivamente, 516, 157 e 113 pessoas com cem anos ou mais. A capital baiana ocupa a 4ª posição no ranking de municípios brasileiros com mais habitantes centenários.>
Dona Enedina Braga faz parte do rol de centenários de Salvador, apesar de ter nascido e vivido mais de oito décadas na cidade de Juazeiro, no norte do estado. A mudança para a capital baiana se mostrou inevitável, após perder um dos pés por causa de um melanoma, câncer de pele considerado como um dos mais agressivos. >
Depois de uma cirurgia no hospital Aristides Maltheiz e de um breve retorno à cidade natal, ela se mudou definitivamente para a capital baiana, onde mora com uma das filhas. Sem outros diagnósticos de doenças crônicas, a centenária esbanja lucidez e segue uma rotina de cuidados que a mantém forte, rumo aos 102 anos. >
"Ela está bem, lúcida. Os filhos e netos fazem videochamadas e ela fala com todos, consegue reconhecer todos. Ela fala com todo mundo, a dificuldade é reconhecer alguns bisnetos, apenas", diz Aida Viana, 59, a quarta dos cinco filhos de dona Enedina, que é mãe de duas mulheres e três homens, avó de seis netos e bisavó de 16. >
A longevidade da baiana centenária é reflexo de uma rotina de cuidados, como aponta Aida. Ela se alimenta bem todos os dias, com um cardápio recheado de proteínas e nutrientes, além de receber atendimento médico em casa, mensalmente, e sessões de fisioterapia durante a semana. Além disso, a família possui um histórico de longevidade. Os dois irmãos mais velhos viveram até 96 e 98 anos. >
Falta pouco mais de um mês para Salvana de Souza, 99, entrar no grupo de centenários baianos. A idosa reflete gratidão por uma vida saudável e cheia de paz de espírito, como contou à reportagem. Natural de Amargosa, no interior do estado, a aposentada não apontou segredos para viver tantos anos. "Não tem segredo, é a vontade de Deus. Tenho um mente boa e vida normal", conta. >
Salvana casou em 1943, trabalhou como secretária da Empresa Docas da Bahia durante 20 anos e tem seis seis filhos, 17 netos, 21 bisnetos e dois tataranetos. As lembranças profissionais e familiares, como o crescimento e a formação das crianças, são as que perduram na memória da aposentada, que completará 100 anos no dia 9 de dezembro. >
Se é questionada sobre conselhos para os mais jovens, ela não hesita: "Respeitar as pessoas, principalmente os idosos, estudar para ter uma formação e ser uma pessoa correta", diz. >
Atualmente, a quase centenária está lúcida, apenas com uma certa dificuldade de locomoção. Assim como Enedina, ela mantém uma rotina de cuidados, com fisioterapia duas vezes na semana, alimentação saudável e tempo para assistir noticiários, novelas e programas de entrevistas, como contou uma das filhas, Luciene de Souza, 69. >
Nos últimos 12 anos, o total de pessoas na casa dos 60 ou mais de idade cresceu 48,9% na Bahia, de acordo com dados do último Censo. Entre 2010 e 2022, foi registrado um aumento de 709.272 idosos nos estados, o que configura um total de 2.159.279 - cerca de 15,3% da população.>
Essa nova configuração demográfica faz a Bahia sair da 12ª posição do ranking de estados com maiores índices de envelhecimento do país, ultrapassando Pernambuco e Ceará. Com um indicador de 52,6 idosos para 100 crianças de até 14 anos, o estado baiano figura agora na 10ª colocação. Os estados com maiores índices são Rio Grande do Sul (80,4/100), Rio de Janeiro (73,6/100) e Minas Gerais (68,6/100).>
O envelhecimento mais acelerado da população baiana possui relação direta com a diminuição do número de nascimentos no estado, é o que pontua Mariana Viveiros. "Em uma população em que nascem menos crianças, o movimento de redução nas faixas etárias mais jovens é percebido", explica, pontuando que também há influência da longevidade maior.>
*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro>