INSEGURANÇA

Por medo da violência, lojas fecham mais cedo no entorno da Lapa; passageiros e funcionários relatam assaltos diários

Para evitar a ação de criminosos, pessoas andam em "comboios"

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  • Bruno Wendel

Publicado em 22 de abril de 2024 às 05:00

Medos nos arredores da Lapa: trabalhadores andam em
Medo nos arredores da Lapa: trabalhadores andam em "comboio" para não serem assaltados Crédito: Paula Fróes/CORREIO

Quando o relógio marca 20h20, surge uma palpitação no peito dos funcionários de um shopping. E esta sensação de que o coração vai sair pela boca não é à toa. Aos poucos, um a um se encontra na saída para uma tarefa arriscada: passar pelos 200 metros da Rua Coqueiros da Piedade sem ter uma arma apontada para a cabeça. Isso porque os assaltos e furtos no entorno da maior estação de transbordo de Salvador, a Lapa, acontecem a toda hora. Tamanha a incidência, que há dois anos, os shoppings que funcionam nos arredores da estação estão fechando mais cedo, acompanhando as lojas e centros comerciais nas proximidades, que adotam a medida de segurança há mais tempo.

“Nós que trabalhamos no fechamento (das lojas) não temos outra opção. Como o Shopping Piedade encerra às 20h, a gente que sai depois tem que descer a Coqueiros da Piedade para chegar à Lapa. A rua é deserta e ficam os ‘sacizeiros’ (forma pejorativa para denominar os usuários de drogas). São eles que cercam as pessoas”, contou uma funcionária do Center Lapa, durante entrevista na terça-feira, dia 16. “Desce todo mundo junto, mas isso não é garantia de segurança. Já houve casos em que mesmo em comboio eles atacam e levam tudo de todo mundo. Chegam a fazer um ‘arrastão’”, completou. Vale lembrar que os centros comerciais e a Estação da Lapa estão a poucos mais de 300 metros do prédio-sede da Polícia Civil (PCBA). “Tudo isso acontecendo embaixo dos olhos da polícia e nada é feito”, lamentou.

Na noite da última quinta-feira (18), o CORREIO acompanhou também o drama de várias pessoas que desciam e subiam a Rua Coqueiros da Piedade. A via liga a Estação da Lapa, onde 500 mil pessoas passam diariamente, à Rua Portão da Piedade, onde estão as entradas do Center Lapa e da sede da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Bahia (OAB-BA). “Às vezes ficam dois PMs esperando no final, mas o 'bicho pega' é no meio do caminho, porque não há mais nenhum ambulante pra ajudar ou loja aberta pra a gente se abrigar", relatou o funcionário de uma rede fast food do centro comercial.

E foi nela que ele teve o cano da arma na sua têmpora. “Foi terrível. Pensei que seria o meu fim. Eu sabia que a galera descia junta por causa dos assaltos, mas estava com muita pressa para chegar em casa e neste dia fui sozinho. No meio do trajeto, mesmo andando rápido, do nada, um cara surgiu com um revólver e tomou o meu celular. Ele estava fora de si, muito agitado, provavelmente drogado. Cheguei a pedir demissão do trabalho, mas a minha chefe mudou o meu horário. Outros não aguentaram e saíram”, contou.

A insegurança da rua não está restrita à noite. “Quando menos se espera, a gente vê o povo correndo e gritando: ‘pega ladrão’. A média é de três a quatro casos durante o dia. Eles entram numa loja que tem acesso à Avenida Joana Angélica e ganham o mundo”, contou.

Alvo de criminosos: trabalhadores descem a Rua Conqueiros da Piedade toda deserta
Alvo de criminosos: trabalhadores descem a Rua Conqueiros da Piedade toda deserta Crédito: Paula Fróes

Segundo os trabalhadores, logo após a pandemia, o Shopping Piedade, que encerrava às 21h, passou a fechar às 20h de segunda a sexta – aos sábados, até às 20h e domingo não abre. O Lapa, que também fechava às 21h, encerra às 20h30 e nos finais de semana, 19h30 e 19h. “O domingo acaba sendo tão perigoso quanto os dias de pico (segunda a sexta), porque, com o Piedade fechado, temos que subir a Rua Coqueiros da Piedade para chegar ao trabalho. Já fui roubada três vezes. Em todas, o ladrão estava com uma faca e levou meu celular”, contou a funcionária de um restaurante. Outros grandes shoppings de Salvador param de funcionar um pouco mais tarde, como o Barra, Shopping da Bahia e Salvador Shopping, que encerram as atividades das lojas às 22h, de segunda a sábado, e aos domingos, às 21h, com exceção do Barra, que fecha às 20h.

Entorno 

Outro ponto de risco é a Rua Conselheiro Junqueira Ayres, que dá acesso aos dois shoppings, tem ao seu lado esquerdo diversas lojas e algumas clínicas e escritórios, que foram os primeiros a reduzirem o horário de funcionamento. “Precisou ser assim, porque não tem segurança. Quando dá 17h,18h a gente já começa a fechar. Às 19h nada mais funciona. Antes, a gente acompanhava o horário dos shoppings, que ficavam até mais tarde, mas os caras, quando não roubava as vítimas aqui na porta, entravam e assaltavam as lojas”, contou o dono de uma lanchonete.

Com o comércio fechado, quem sai do Shopping Piedade dez minutos depois fica apreensivo. “Fica difícil. Quem precisa pegar ônibus da Praça da Piedade tem que subir rápido a rua com o coração na mão. Imagina pra uma senhora ter que ser ágil numa ladeira? Não tem como. São assaltadas assim que deixam a área externa do shopping. Algumas voltam arrasadas e relatam aos seguranças que foram cercadas por dois, três homens, que levaram tudo”, disse a gerente de uma loja do Shopping Piedade.

Ela relatou que os funcionários que ficam até o fechamento também são vítimas dos criminosos. “Como a maioria vai para a estação, porque a garagem do shopping tem uma passagem direta, os demais enfrentam o risco. Também saem em 'comboio' para a praça (Piedade), mas alguns que se atrasam por algum motivo no trabalho, vão sozinhos e viram alvo fácil”, explica. “Uma colega levou um tapa no rosto, depois que entregou o celular e a corrente. Ela disse que até hoje não sabe o motivo, porque fez tudo o que o ladrão mandou”, disse a gerente. O caso aconteceu em janeiro deste ano. “Ela ficou muito traumatizada. Desenvolveu síndrome do pânico e está afastada para tratamento”, lamentou a gerente.

Armadilha

Fechado há mais de dois anos, o antigo restaurante Grão de Arroz é usado hoje como esconderijo para assaltantes, que aproveitam também o local para consumir drogas. Quem desce a escadaria que liga o final da Rua Professor França à Estação da Lapa é surpreendido a todo momento. “Na maioria são estudantes. Já cansei de dar apoio a meninas que saem dali chorando. Sem falar no risco que correm de serem obrigadas a entrar no prédio”, contou o funcionário de uma lanchonete que fica na Estação da Lapa, onde está um posto do 18º Batalhão da PM. Segundo as fontes ouvidas pela reportagem, o efetivo não dá conta das ocorrências na estação.

Restaurante fechado é tipo como esconderijo para assaltantes
Restaurante fechado é tipo como esconderijo para assaltantes Crédito: Paula Fróes/CORREIO

“Durante o dia são quatro que ficam no módulo, mas à noite são só dois policiais para dar conta de tudo", contou uma estudante de um curso de enfermagem que todos os dias passa pela estação. "Todos os dias fico aqui, esperando o meu filho, para acompanhá-lo até em casa. Os caras, quando chegam, estão com uma peixeira atacando todo mundo. Pode ser um grupo de cinco, dez, de 20, que eles assaltam", disse um pai na Estação da Lapa, enquanto esperara o filho chegar do metrô.

Posicinamentos

A Polícia Civil informou que as informações sobre o policiamento devem ser passadas pela Polícia Militar, “responsável pelo policiamento ostensivo”. A PMBA e a Secretaria de Segurança Pública (SSPBA) não se posicionaram. O Shopping Piedade e o Center Lapa foram procurados, mas não responderam. A Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), a administração da Nova Lapa e a CCR Metrô Bahia também foram procuradas, mas não se posicionaram até o fechamento desta edição.