Guerra às drogas: qual a eficiência da estratégia da segurança baiana?

Especialistas acreditam que política adotada pelo estado baiano precisa ser revista diante dos números de pessoas mortas por policiais

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  • Larissa Almeida

Publicado em 16 de novembro de 2023 às 11:30

Drogas estavam em hotel de Salvador e casa em jauá
Drogas apreendias em hotel de Salvador e casa em Jauá Crédito: Ana Lucia Albuquerque/CORREIO

A escalada da violência na Bahia é apontada por especialistas em segurança pública como reflexo da política antidrogas adotadas pelo estado, que justifica a maioria das operações policiais como meio de implementação da guerra às drogas. Na Bahia, só em 2022, 1.465 pessoas foram mortas em ações policiais, segundo dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O número é quatro vezes maior do que aquele registrado em 2015, quando 354 pessoas foram vítimas da letalidade policial no estado.

Diante do cenário de aumento contínuo de mortes nos últimos anos, a eficiência da estratégia da segurança baiana é questionada por especialistas e representantes de entidades sociais. Para Luiz Claudio Lourenço, sociólogo, pesquisador de organizações criminosas, professor da Universidade Federal da Bahia e um dos coordenadores do Laboratório dos Estudos sobre Crime e Sociedade (Lassos), a guerra às drogas sempre foi um erro. "Não deu certo em nenhum lugar e na Bahia muito menos. Quanto mais se prendeu e se matou sob a justificativa de combate às drogas, mais ocorrências de tráfico de drogas e de violência aconteceram ao longo do tempo", declara.

Larissa Neves, pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança, ressalta que a política adotada pelo estado que é contrária às drogas é embasada em um viés historicamente racista. “Trata-se de uma política que é proibicionista, ou seja, que proíbe o uso de determinadas substâncias, mas essa proibição não está embasada em estudos, pesquisas ou dados científicos, mas sim atrelada à história, ao período da escravidão. Trata-se de racismo", define.

Ela também aponta o perfil das pessoas afetadas por essa política. "O alvo cada vez mais são meninos, adolescentes, pessoas negras de 18, 20 e 21 anos”, pontua. Ao analisar os dados, Larissa ainda ressalta que a definição da droga como inimigo comum não apenas é ineficaz, como também está destruindo futuros de jovens negros e o cotidiano das periferias.

Já Lidiane Yoshioka, coordenadora do Movimento Negro Unificado na Bahia (MNU Bahia), acredita que é necessária uma modificação a curto e longo prazo dentro das corporações policiais, bem como nas políticas públicas oferecidas à juventude negra. "A curto prazo, nós precisamos que as polícias enxerguem o povo e a juventude preta, de forma não só a vê-los como marginais. É necessário que sejam implantadas, com urgência, as câmeras nos fardamentos e nas viaturas. Isso não só protege a população, como também protege a polícia", defende.

"A longo prazo, o aumento do incentivo à educação e abertura de novos postos de trabalho também são necessários para levar um pouco mais de dignidade para essa juventude, para que ela chegue a ter uma mudança na perspectiva de futuro e de vida", finaliza.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro