Rio do Cobre transborda e invade casas e terreiro em Valéria

Cratera aberta na BA-528 dificulta o escoamento da água

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  • Maysa Polcri

Publicado em 18 de agosto de 2023 às 14:49

A enxurrada danificou os móveis da casa de Diego Santos
A enxurrada danificou os móveis da casa de Diego Santos Crédito: Maysa Polcri/CORREIO

Com as olheiras de quem não dormiu durante a noite, Diego Santos, de 31 anos, observa com aflição a altura da água que invadiu sua casa na madrugada. Por volta das 2 horas da manhã de sexta-feira (18), o volume do Rio do Cobre subiu e alagou ao menos cinco casas e um terreiro na localidade conhecida como Pata-Pata, na Boca da Mata de Valéria. Perto do meio-dia, os moradores ainda não conseguiam voltar para suas residências cobertas de água. “A gente está perdendo o que nem pagou ainda”, lamenta Diego, que teve sofás, cama e fogão destruídos.

A comunidade é formada por mais de 15 residências e fica às margens da Estrada do Derba (BA-528). A chuva forte que caiu durante a madrugada aumentou o nível do Rio do Cobre, que invadiu residências e deixou a ponte de concreto, que corta localidade, submersa. A situação ficou ainda mais delicada porque parte do asfalto da BA-528 cedeu, formando uma cratera de grandes proporções. Os destroços do rompimento atrapalharam a vazão da água, que custava a escoar.

Por volta de duas horas da manhã, Diego Santos foi acordado pelo filho mais novo, de 1 ano. Enquanto o pai tentava fazer o bebê voltar a dormir, se deu conta que a chuva, se não desse trégua, causaria uma tragédia. “Às 4 horas da manhã eu fui olhar a rua e vi que já estava muito alagada. De lá para cá foi só dor de cabeça. Passei a manhã toda suspendendo os móveis e tentando salvar o que dava”, diz. Em março, o aumento do nível do rio já havia danificado os móveis da família. Diego deixou os quatro filhos na casa de um parente que mora próximo, enquanto não podia voltar para casa, nesta sexta-feira (18).

Os destroços da cratera aberta na Estrada do Derba dificultam o escoamento da água
Os destroços da cratera aberta na Estrada do Derba dificultam o escoamento da água Crédito: Maysa Polcri/CORREIO

Quem também aguardava com preocupação o volume da água diminuir era a manicure Milene Ribeiro, de 40 anos. “A água chegou quase até a cintura, agora está no joelho”, constatou a moradora, que vive na região há 13 anos. Durante a madrugada, ela e o marido conseguiram tirar dois sofás e um rack de dentro de casa. “O resto está tudo lá dentro. Geladeira, fogão, tudo dentro da água”, fala.

O barulho dos destroços do asfalto da BA-528 acordaram Milene pouco antes do amanhecer. “Foi aquela agonia, o povo todo correndo sem saber o que estava acontecendo”, relembra. Além das casas, a enxurrada invadiu o Terreiro Ilê Axé Omin Funko, onde Gerson Santos mora. “Eu não consegui salvar nada dessa vez, é uma situação muito triste. Se voltar a chover, não sei o que vai ser de nós”, diz emocionado enquanto encara, de longe, o terreno invadido pela água.

Terreiro foi invadido pela água em Valéria
Terreiro foi invadido pela água em Valéria Crédito: Acervo Pessoal

Moradores ouvidos pela reportagem denunciam que os alagamentos ficaram mais frequentes no Pata-Pata desde que uma estação elevatória de esgoto foi construída pela Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), há pouco mais de dois anos. Questionada, a Embasa afirmou que a estrutura passa por manutenção regularmente e que não tem relação com o ocorrido.

“Com as chuvas desta madrugada, o córrego transbordou, inundando também a estrutura da Embasa. O equipamento responsável por fazer o escoamento de água da chuva é o sistema drenagem pluvial, cuja implantação e manutenção não é de responsabilidade da empresa”, pontuou a Embasa em nota.

Durante o decorrer do dia, moradores temiam que a cratera na Estrada do Derba fosse tapada sem que um trabalho para resolver o escoamento da água fosse realizado. “Já é a terceira vez este ano que abre a cratera na via. Eles tapam o buraco, mas ninguém vem aqui embaixo ver o nosso problema”, denuncia Gerson Santos.

A via é de responsabilidade da Secretaria de Infraestrutura do Governo da Bahia (Seinfra), que afirmou que os serviços de reparo da cratera seriam iniciados ainda nesta sexta-feira (18). A pasta não informou se trabalhos serão realizados na comunidade para ajudar no escoamento da água.

O secretário de Infraestrutura e Obras Públicas de Salvador, Luiz Carlos, esteve no local durante a manhã e avaliou os estragos. “A Defesa Civil (Codesal), a Secretaria de Manutenção (Seman) e a Superintendência de Obras Públicas (Sucop) estão no local para, juntos, apoiarem a região e entender qual foi o problema. A recomposição do piso é de responsabilidade do Governo do Estado, mas a prefeitura está disposta a atuar para não deixar os moradores em situação desconfortável”, disse.

A Codesal apura as causas do rompimento do solo. Por causa da cratera, o trânsito foi prejudicado n entroncamento da BR-324 e da BA-526.