A festa do alívio: em 1919, foliões de Salvador comemoraram o fim da Primeira Guerra

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10.02.2021, 05:00:00
Atualizado: 15.02.2021, 19:42:50

A festa do alívio: em 1919, foliões de Salvador comemoraram o fim da Primeira Guerra

Foliões esperavam festejar fim da pandemia no Carnaval de 2021, mas tudo deve ficar para o que vem; em 1919, gripe espanhola mal foi lembrada

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“Se eu não morrer de quebradeira, vou fallecer de bebedeira”*, disse o autor de uns versos publicados no jornal A Hora de 1919, às vésperas do Carnaval daquele ano. Foi o mesmo homem, um incansável chamado Almeida, que escreveu, logo em seguida, que provavelmente compraria toda a bebida em honra de Momo fiado, já que não tinha o que comer, nem o que beber. Mesmo assim, a farra valia à pena: “Cessou a guerra e a quebradeira, vamos rapazes pra pagodeira”. São poucas as fotografias em jornais da época que mostram como a folia de 102 anos atrás foi festejada, mas o pouco parece não deixar dúvida: aquela era a festa do alívio.

Mesmo pobre, diante da enorme pressão econômica do período, o Carnaval de 1919 em Salvador foi a oportunidade de, finalmente, festejar em tempos de paz – e de um pouco de saúde, se é que dá para dizer isso. Era o que milhões de foliões esperavam fazer a partir de hoje, quando as fanfarras tomariam o Circuito Sérgio Bezerra, na Barra, se estivéssemos de fato livres da atual pandemia. Após 137 anos, 2021 pode entrar para a história como a primeira vez em que o Carnaval de Salvador, de fato, não acontecerá.

No passado, a festa atravessou momentos difíceis, mas sempre aconteceu. O mês de novembro de 1918, por exemplo, teve influência no Carnaval seguinte por ter concentrado dois marcos importantes: o fim da Grande Guerra, que afetava a economia da Bahia, e o controle da gripe espanhola, epidemia que, em cerca de 95 dias, matou um terço da população baiana. Março de 1919, então, chegou com um convite a esquecer das dores vividas.

“Está em delírio a população da cidade desde sabbado, festejando o reinado de Momo. O povo, esquecido da crise e das oppressões que soffre dos seus inimigos empoleirados, atira-se à loucura que espalha na terra o deus pagão”*, dizia um trecho de uma nota do A Hora de segunda-feira, 3 de março de 1919 – terceiro e último dia de folia.

Versos sobre Carnaval em meio à crise e após a guerra foram enviados a redação de jornal
(Imagem: Jornal A Hora/Hemeroteca Digital da Boblioteca Nacional)

O fim da epidemia de gripe espanhola provocou um Carnaval catártico no Rio de Janeiro. “No Rio, isso acabou fazendo com que o Carnaval de 1919 tenha sido o mais enlouquecido de todos os tempos. Para uns, era comemorar a vida dentro da normalidade presencial. Para outros, era, talvez, comemorar o último Carnaval. Vai que a gripe voltava?”, comenta Paulo Miguez, pesquisador do Carnaval e professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal da Bahia (Ihac/Ufba).

Por aqui, no entanto, o fim da epidemia não aparece citado nos jornais como um dos motivos para a animação com a festa. Parece que muita coisa já tinha ficado mesmo para trás. “Acho que quando acabou a epidemia, as pessoas simplesmente quiseram esquecer que ela existiu”, sugere a historiadora Christiane Maria Cruz de Souza, doutora em História das Ciências pela Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz) e autora do livro A gripe espanhola na Bahia: saúde, política e medicina em tempos de epidemias (Edufba e Fiocruz, 372 p, R$ 48).

O fim da guerra, este sim, trouxe um alívio e tanto aos baianos. E a explicação estava na economia: o comércio de importação e exportação, base da economia da Bahia, foi bastante afetado pelos conflitos do outro lado do Atlântico. “A Primeira Guerra Mundial, de uma forma ou de outra, até pela dimensão e pelas parcerias e dinâmicas que existiam entre Salvador e alguns países europeus, causou impacto na realidade baiana e soteropolitana”, explica o historiador Rafael Dantas, pesquisador da iconografia de Salvador nos séculos XIX e XX. Até obras públicas foram afetadas pela falta de insumos, conta.

Jornal A Hora noticiou fim do Carnaval de 1919 na capa; ao lado, nota sobre a reconstrução da Europa após a guerra
(Imagem: Jornal A Hora/Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Popular e aguardado
Os Carnavais no início do século XX aconteciam no Centro da cidade. Havia festejos na Vitória, no Campo Grande, São Pedro, Praça 13 de Maio, Rua Chile. Mas, um dos destaques de 1919 foi a festa da Baixa dos Sapateiros e Largo de São Miguel. Era ali o ‘circuito’ alternativo, onde se apresentavam os cordões e as batucadas.

E eles eram proibidos nas ruas oficiais do Centro até 1914, embora continuassem desfilando em outros pontos:

“Entre 1914 e 1915, os blocos afro-baianos puderam voltar para as ruas. Esse período entre 1915 e 1920, especialmente a partir de 1920, é um período de consolidação do Carnaval de rua de natureza muito popular da cidade de Salvador. Esses blocos afro-baianos estão num período de reafirmação”, aponta Caroline Fantinel, pesquisadora do Ihac/Ufba e coordenadora do projeto Memórias do Reinado de Momo.

A crise também ajuda a explicar o destaque no circuito popular, que era financiado pelos comerciantes, explica o jornalista e pesquisador Nelson Cadena: “O Carnaval de 1919 foi empobrecido porque a queixa econômica era muito grande. O Carnaval da Bahia dependia muito da aristocracia, que eram os clubes Cruz Vermelha, Fantoches da Euterpe, Inocentes em Progresso, e não tinha mais dinheiro para confeccionar aquelas fantasias caríssimas que vinham da Alemanha, da Itália”.

Colunista do CORREIO e autor do livro História do Carnaval da Bahia: 130 anos do Carnaval de Salvador (Editora própria, 253 p.), Cadena conta que aquele foi o primeiro Carnaval em que os clubes foram para a Baixa dos Sapateiros. “A partir desse ano, os grandes começaram a desfilar naquele espaço que se tornou popular e ao mesmo tempo atrativo. Os comerciantes faziam uma decoração muito bonita, uma iluminação especial, botavam palanque”, conta.

"Bem vindo seja Carnaval de 1919, pois será no reinado Momo que o povo desta grande urbe verá pela primeira vez o phantástico prestito dos incomparáveis Tenentes do Diabo, que trarão à terra a folia, na luzida legião de seus tenentes e no fulgor infernal do grande Deus Plutão”*, diz outro trecho do jornal A Hora.

Desfilaram no mesmo lugar as Damas de Ouro, do Tororó; as Bailarinas de Troia, da Rua do Paço; as Costureiras em Progresso, da Barroquinha; e as Camponesas em Folia.Os jornais noticiavam a programação dos desfiles, os locais de saída dos cordões e a estreia na Baixa dos Sapateiros do clube Tenentes do Diabo.

Mamãe-sacode e confete de papel
Desde o Carnaval de 1915, a crise econômica era anunciada nos jornais como um empecilho para uma festa das grandes, mas ela nunca deixou de acontecer – em 1912, aconteceu duas vezes (leia mais abaixo). O jornal A Notícia fez uma contagem regressiva até o início do Carnaval, quase sempre lamentando a falta de mobilização e tentando animar o povo.

“Este anno, como nos últimos, o povo, assoberbado com as difficuldades da crise, parece nem se tem lembrado dos dias em que, no delírio das festas, as maguas se esquecem, passam os dissabores, e numa communhão igual, todos folgam, no goso da alegria e do prazer”*, diz um trecho de uma nota publicada em janeiro de 1915, quando faltavam exatos 33 dias para o Carnaval.

A crise foi se agravando e, cada vez mais, afetando o bolso do baiano. Por isso, foi preciso fazer adaptações. O lança-perfume, por exemplo, não reinou absoluto em 1919, como em outros anos.

“Teve um desabastecimento de lança-perfume, que era importado da Alemanha, e isso impulsionou outras coisas, como o mamãe-sacode, que passou a ser uma alegoria de Carnaval. Também se popularizou o confete e a serpentina de papel, muito mais baratos do que os importados”, afirma Cadena.

Um aspecto da festa, no entanto, não sofreu tanto impacto naquele ano: os desfiles dos corsos - os carros enfeitados. Depois de o engenheiro e empresário Henrique Lanat, dono do primeiro automóvel de Salvador, colocar seu carro na rua, os automóveis viraram atração. Os enfeites não eram tão caros: flores de papel crepom davam conta do recado e abrilhantaram o desfile.

Fotos deles no Carnaval de 1919 aparecem na Revista Bahia Ilustrada, cuja redação ficava no Rio de Janeiro. Foi lá que essa história começou. “O desfile dos corsos virou uma tendência no Rio de Janeiro, que era a capital e acabava influenciando o país inteiro. Por aqui funcionou muito também: ou as pessoas usavam os carros da família ou alugavam carros, enfeitavam e desfilavam”, explica Caroline Fantinel.

Automóveis protagonizavam os chamados desfiles de corsos; tendência começou no Rio e teve força também em Salvador
(Imagem: Revista Bahia Ilustrada/Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Euforia
Nos desfiles na Rua Chile ou nas batucadas da Baixa dos Sapateiros, durante os três dias em que Momo reinou em Salvador em 1919, a cidade se mascarou. A Revista Bahia Ilustrada falou da euforia que tomou conta das ruas, comparando a animação dos foliões baianos com a dos cariocas, mesmo diante das angústias.

O texto publicado na edição de março daquele ano afirma que os foliões foram na véspera providenciar as máscaras para a folia:

“Ia-se comprar a máscara na intenção de comprar um pouco de alegria”.

Nas páginas dos jornais diários, lojas anunciavam a venda de fantasias para a festa, principalmente de chapéus. As lojas Matheus e Maia, na Baixa dos Sapateiros, vendiam tecidos e artigos para o Carnaval. As Casas Stellas, na Rua Chile, faziam propaganda de calçados para aproveitar as “ruidosas e delirantes festas” do Carnaval de 1919.

Lojas de calçados, tecidos e acessórios anunciavam produtos para o Carnaval nos jornais e revistas da época
(Imagem: Jornal A Hora/Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Em 1912, morte de Barão do Rio Branco adiou a festa: povo festejou duas vezes

Em toda a sua história moderna, o Carnaval nunca deixou de acontecer no Brasil, oficialmente, como em 2021. Pelo contrário: houve um ano em que, adiada, a festa aconteceu duas vezes. Foi em 1912, quando morreu José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores. O Barão morreu no dia 10 de fevereiro daquele ano, poucos dias antes do Carnaval. O governo federal, então, decidiu adiar os festejos para abril, na Páscoa.

“Naquele ano, nós fizemos dois Carnavais. Aquele que estava proibido e adiado e o da nova data”, afirma Paulo Miguez, pesquisador do Carnaval e professor do Ihac/Ufba.

Os bailes dos clubes carnavalescos foram mesmo adiados, mas para alguns foliões, esperar até abril era demais. Muitos foram para as ruas em fevereiro mesmo - e em outras ocasiões em que a realização da festa ficou em discussão. “Na Segunda Guerra Mundial, apesar dos protestos, especialmente depois que a FEB [Força Expedicionária Brasileira] embarcou para a Itália, houve sim Carnaval”, explica.

O pesquisador espera que a decisão de adiar a festa, este ano, seja respeitada. “Eu espero que nenhum maluco invente de fazer festa este ano, porque não vai ser nenhum ato de rebeldia aplaudido por Momo. Essa pessoa não merece brincar Carnaval. Em 2022, eu espero mesmo que tenhamos vacina para nos imunizar e garantir a festa. Espero que seja mesmo o maior Carnaval de todos os tempos, para a gente comemorar a volta da vida presencial, do toque. Nós somos um povo guiado pelo toque, a gente é dado à pegação”, completa.

Para ver de graça
O projeto Memórias do Reinado do Momo disponibiliza gratuitamente um documentário sobre as primeiras festas da cidade. O trabalho revela o contexto que deu vida às primeiras agremiações, no final do século XIX. Participam do documentário a coordenadora do projeto, Caroline Fantinel, seu idealizador, Paulo Miguez, além dos pesquisadores Fábio Baldaia, Rafael Soares, Iury Batistta, Milton Moura, Wlamyra Albuquerque e Jéssica Silva. Assista ao documentário, de graça, aqui.

*Grafia utilizada na época (1919)

O Correio Folia é uma realização do jornal Correio com o apoio da Bohemia Puro Malte e da Drogaria São Paulo. A transmissão é da ITS Brasil e E_Studio.

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