A história de como Cruz das Almas se tornou um símbolo do São João

bahia
21.06.2021, 06:00:00
Atualizado: 21.06.2021, 09:38:33
(Paulo Galvão/Cruz das Almas/Divulgação)

A história de como Cruz das Almas se tornou um símbolo do São João

Tradição local tem mais de 100 anos

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Ao anoitecer, as portas se abriam em sinal de convite a quem passasse, fossem conhecidos ou não dos donos das casas, aromatizadas por bolos recém-saídos do forno. Na mesa, não faltavam os licores de jenipapo e maracujá, amendoim e laranja. Do lado de fora, alguém sempre batia palmas antes de perguntar: “São João passou por aí?”. O cenário respondia que sim, o visitante entrava e a festa ganhava corpo nas residências de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. 

A dois dias do São João, as ruas não estão coloridas por bandeirolas e balões. O percurso de casa em casa para comer, beber e dançar, um dos símbolos do São João no município, também não ocorrerá, pelo segundo ano consecutivo. A população de 69 mil pessoas estranha, afinal, até onde a memória coletiva alcança, essa costumava ser a época mais movimentada da cidade, uma referência no São João baiano. 

A tradição das festas juninas em Cruz das Almas é tão antiga quanto a ascensão do antigo vilarejo a cidade, há 123 anos. Acredita-se que as famílias, desde então, colhiam lenhas para acender fogueiras. Os amigos eram convidados para curtir a noite, ao som de forrós organizados artesanalmente, com triângulos e zabumbas. 

“A tradição remonta de um passado longínquo. A pessoa perguntava se São João tinha passado por lá, sentava e comia”, explica o historiador e nativo de Cruz das Almas, Alino Matta. 

É em 1989 que as festas, antes mais caseiras, ganham outro status, a ponto de atrair turistas não só das redondezas, como de Salvador. Naquele ano, o prefeito cria o Arraiá do Laranjá, na Praça Sumauma, onde passariam a ocorrer os principais shows e hoje funciona um drive-thru de vacinação contra a covid-19.  

Com a contratação de artistas de fora e o movimento nas praças, alguns moradores vêm uma oportunidade. Atraídos pela nova clientela, montam barracas de comidas típicas e licores para aplacar o friozinho de 19º C.

Antes dessa época, a celebração nas ruas acabava na Praça da Catedral de Nossa Senhora do Bom Sucesso, depois da queima da última espada de bambu.

As guerras de espada, que promoviam o espetáculo de luz, ajudaram a consolidar a imagem de Cruz das Almas como uma cidade do São João. Tanto que o Arraiá da Laranjá surge para atrair o público que se reunia entre a adminiração e o medo para ver as espadas brilharem, mas que se dispersava no final. A pirotecnia é proibida pela justiça baiana desde 2011, mas em Cruz das Almas, acredita Alino, foi fundamental para mostrar a força das tradições juninas. 

Guerra de espada é parte da história do São João de Cruz das Almas (Foto: Arquivo CORREIO)

A guerra de espada, também centenária, era organizada por moradores de ruas mais estreitas das periferias da cidade que, sem espaço para testar o material onde moravam, iam para a Praça da Catedral. Nem sempre, o teste ia como esperado. 

“As vezes quando acendia a espada, o fogo pegava em alguém, aí quando pegava, essa pessoa revidava. A guerra de espadas começou como essa manifestação espontânea”, acrescenta.

O fogo é um dos símbolos do São João desde a Idade Média, quando se acreditava que ele espantava os maus espíritos. A Igreja Católica cristianizou o São João, tradição importada para o Brasil pelos portugueses, e o dia 24 ficou como símbolo das celebrações, em homenagem ao santo João Batista. É compreensível, então, que o brilho alaranjado das fagulhas projetadas por espadas tenha ocupado um papel tão marcante na história local de Cruz das Almas. 

Proibidas, as guerras não deixaram de ocorrer ilegalmente em ruas como a Rua da Estação, e são sempre citadas pelos moradores, pelo espaço que ocupa na tradição.

Dez dias de festa

Em 1993, o Arraiá do Laranjá, cujo nome fazia referência à fruta abundante na região, vira “Forró Na Morá”. Um panfleto daquele ano destaca as atrações para cinco dias de festa: em média, três artistas por noite - entre eles, Genival Lacerda - e apresentação de sete quadrilhas juninas de adultos e duas infantis. As celebrações juninas cresceram de tal modo que a cidade tem dez dias do calendário do mês dedicados a elas.

Em 2019, última vez em que houve festa de São João na cidade, entre os dias 20 e 30 de junho, Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo foram alguns dos nomes que subiram ao palco da mesma Praça Sumauma onde o antigo Arraiá nasceu. 

As festas logo apareceram em diferentes pontos da cidade. Em 1995, moradores de quatro bairros de Cruz das Almas criam Casamento Seleão, com shows de forró de atrações da cidade e região na Praça Dois Leões, no bairro da Coplan. Era apenas uma brincadeira, mas a festa cresceu e, realizada no Dia de São Pedro, também atrai centenas de pessoas. Na verdade, em todas as praças do município há festividades, umas menores, outras maiores. Juntas, elas recebem o nome "Arraiá da Cultura Popular". 

Os dias de festejos juninos passaram a movimentar R$ 30 milhões na cidade, injetados nos hotéis, pousadas, comércio e na agricultura familiar local, calcula o prefeito Ednaldo Ribeiro. Nesse período, a população local chega a 150 mil habitantes. "Esse mês de junho representa uma economia muito importante. Tem pessoas que passam o resto do ano sobrevivendo do que ganham no São João", diz.

As celebrações dentro das casas, sempre de portas abertas, permaneceram mesmo com essa profissionalização das festas. O bolo de milho, com e sem goiabada, são os mais requisitados a cozinheiras de comidas típicas que ainda ornamentam as mesas para receber os visitantes. De tão presente nas residências, passou a integrar os cardápios locais ao longo do ano. “É muito procurado aqui durante o ano todo”, conta a confeiteira Rayanne Felizardo, 27.

Mesmo sem os festejos, a empresa administrada em família por Rayanne e Mariana, filhas, e Susana e Raimundo, pais delas, têm recebido encomendas de outros bolos típico, como o de aipim. É uma das formas de manter o São João presente. “Acredito que todo mundo deu um jeitinho de adaptar, para trazer um pouco de leveza a tudo isso que estamos vivendo", completa Rayanne, para quem esta época do ano sempre a faz lembrar da avó.

A única preocupação da senhora era ter um bolinho para servir e poder admirar todos reunidos. Só assim ficava satisfeita.

Grande festa de São João

Cruz das Almas já realizava um São João tradicional na Bahia, quando os produtores musicais Antônio Dólar e Paulo Tear criaram o Forró do Bosque, primeira festa privada da cidade. A ideia surgiu depois do São João de 1998 que Dólar passou em Ibicuí, outro pólo junino onde ele conheceu o Forro do Ticomia . “Fiquei encatando”, recorda Dólar, que sugeriu a Paulo que produzissem a própria festa junina. De início, o parceiro estranhou. Festa fechada e de camisa em Cruz das Almas? Talvez fosse loucura. 

“Eu sabia que não seria fácil, mas a gente investiu”, recorda Paulo.

O nome seria “Forró Folia”, mas ele sugeriu o mais sonoro “Forró do Bosque”, pelo nome da fazenda que compraram para fazer a festa - a Fazenda Cabana do Bosque.

Os dois trabalhavam, à época, na negociação de bandas com outras prefeituras. Paulo tinha acabado de levar para Salvador, inclusive, o forrozeiro Flávio José, convidado também para a primeira edição do evento do Forró do Bosque, em 2000. Depois de uma noite de chuva, a festa terminou com carros atolados na lama. 

"Quando eu vi o povo todo lameado, tomando chuva, cerveja e tomando licor, eu vi que aquele era o caminho", afirma Paulo. 

Em 2002, fecharam uma parceria com Bell Marques, então da banda Chiclete com Banana. A partir daí, perceberam que a festa seria um sucesso. 

Se na primeira edição venderam 2.604 camisas, hoje comercializam até mais de dez mil, com 90 pessoas envolvidas na produção e até 300 seguranças. O evento também alavancou o São João de Cruz das Almas. “A gente tem cliente nos Estados Unidos, Portugal, Itália”, conta Dólar. Outras festas fechadas chegaram a ocorrer em Cruz das Almas, mas não vingaram, como a Cruz Light e o Forró Meu Xodó.

O Forró do Bosque completaria 20 anos no São João do ano passado, quando a pandemia chegou ao Brasil e as festas foram canceladas. Para o retorno, os organizadores não fazem previsões. Preferem dar tempo a tempo, porque sabem que a tradição do São João persistirá.


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