Aglomeração, bloco clandestino e paredão: onde a folia em Salvador passou do limite 

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01.03.2022, 05:00:00
Bairros de Salvador tiveram bloquinhos e paredão (Reprodução/Redes Sociais)

Aglomeração, bloco clandestino e paredão: onde a folia em Salvador passou do limite 

Liberdade, Itapuã, Barra, Rio Vermelho e Lobato foram bairros mais denunciados

O momento não é de aglomerar, muito menos de brincar Carnaval sem respeitar os protocolos sanitários. O decreto do governo estadual proíbe qualquer tipo de manifestação ou festa carnavalesca em todo o estado, por conta da pandemia da covid-19. Em Salvador, no entanto, existiram muitos casos que passaram do limite.  

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram que teve, sim, Carnaval no Nordeste de Amaralina, um dos circuitos oficiais da festa, bloquinhos clandestinos no Santo Antônio Além do Carmo e em Matatu de Brotas, além de um paredão na Boca do Rio, que terminou com dois pneus furados de viaturas da Polícia Militar da Bahia (PM-BA). Isso sem contar com os lixos que ficaram nas ruas, principalmente, no Garcia.  

Garcia amanheceu com lixo nas ruas (Foto: Arrison Marinho/CORREIO)

Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), os bairros recordistas de denúncias por desrespeito às normais municipais, no último final de semana, foram: Liberdade, Itapuã, Barra, Rio Vermelho e Lobato.  

Ao todo, mais de 2.500 vistorias foram feitas pela Sedur, nos três dias mais movimentados da festa, suspensa pelo segundo ano consecutivo. Três bares e restaurantes foram notificados – no Curuzu, Pau Miúdo e Caixa D’Água - além de três locais de eventos, no Comércio, um posto de combustível, na Federação, e um mercado, em Stella Maris. O bar do Curuzu chegou a ser interditado.  

Também teve muita poluição sonora. Das 702 queixas registradas e 618 vistorias feitas pela secretaria, desde a última quarta-feira (23), 63 equipamentos de som foram apreendidos, em 15 bairros diferentes da capital baiana - Itapuã, Liberdade, Fazenda Grande do Retiro, Cajazeiras XI, Pau Miúdo, Caixa D’Água, Cajazeiras, Nordeste de Amaralina, Jardim Nova Esperança, Trobogy, Graça, Barra, Campinas de Brotas, Castelo Branco e Plataforma.  

Circuito oficial do Carnaval, o Nordeste de Amaralina foi um dos bairros mais movimentados do final de semana. “Aqui no Nordeste teve Carnaval, sim, normal. Não teve trio, mas teve muita muvuca, com alto, o normal de paredão”, relata uma moradora do Nordeste de Amaralina, que não quis se identificar. “Não me envolvo, mas teve aglomeração na rua, com algumas pessoas usando abadás dos anos que passaram e outras fantasiadas”, detalha. 

Bloquinho de 40 pessoas, em Matatu de Brotas, foi interrompido pela PM (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Ela ainda diz que houve uma aglomeração “bem grande” na saída do bairro, em frente ao Hotel Lotus, na rua José Inácio do Amaral. “Começou umas 21h e já estava com muita gente. Deve ter incomodado morador, mas quem mora na principal, sabe que rola dessas”, explica a moradora. Outro morador anônimo disse que viu a movimentação de bloquinhos nas ruas do Vale das Pedrinhas, mas que não incomodou. “Começou cedo e umas 22h já tinha acabado”, conta.  

Santo Antônio tem 5 sons apreendidos 
No Santo Antônio, o barulho incomodou, principalmente porque não são os moradores os principais adeptos às aglomerações. “A impressão que dá é que o público que vem usufruir do bairro não respeita o mesmo. Acho legal a movimentação, mas sempre causa transtorno, infelizmente. São garrafas de vidro pelo chão, muitas quebradas devido a carros passando por cima, muito lixo, engarrafamento e barulho”, relata Pedro Teixeira, 31.  

Ele mora perto do pátio da Paróquia Santo Antônio Além do Carmo, onde várias festas privadas foram realizadas durante o período do Carnaval. "Quando dá meia-noite, geralmente, a música acaba e resta somente o barulho das pessoas indo embora e dos carros parados, uns com som tocando, outros buzinando devido a engarrafamento. Às 1 hora da manhã já fica mais tranquilo para dormir”, completa.  

Segundo a Sedur, seis denúncias foram registradas no bairro, sendo que cinco atividades sonoras foram desativadas, em logradouro público. “A Força-Tarefa da Prefeitura formada pelas Secretarias Municipais de Desenvolvimento Urbano (Sedur), Ordem Pública (Semop), Guarda Civil e Transalvador está circulando por toda a cidade para inibir qualquer tipo de manifestação cultural e atividade sonora em espaços públicos que possam gerar aglomerações durante o período que seria realizado o Carnaval de Salvador", esclarece a pasta, por meio de nota.  

Outro morador relata incômodo pelas pessoas estarem fazendo xixi nas ruas. “Estamos sem paciência. A ladeira do Boqueirão virou um mictório público, com os homens mijando nas calçadas e as mulheres abaixado as calças. Agora, estão trazendo balde, para não dizer que mijam na rua. E o balde joga aonde depois?” questiona.  

Apesar das festas oficiais acabarem às 00h, muitas pessoas ficam nas ruas madrugada adentro. “Todo mundo fica sem máscara, como se a covid tivesse acabado, mas tem gente morrendo ainda. Tive que ir dormir no quarto de hóspedes, que é mais ao fundo, para não ouvir barulho. E aqui deveria se ter mais responsabilidade, porque é patrimônio público, tombado pelo Iphan. Só queremos que a lei seja cumprida”, desabafa.  

Viaturas da PM têm pneus quebrados, ao impedir paredão (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Bares têm alvará sonoro cassado 
No Rio Vermelho, os bares Parador Z1, no Largo de Santana, na Dinha, e o Tô em Casa, na Vila Caramuru, tiveram os alvarás sonoros cassados pela Sedur, segundo o presidente da Associação dos Amigos e Moradores do Rio Vermelho (Amarv), Lauro Matta. “Quando os bares excedem o limite permitido pela prefeitura, a Sedur age na mesma hora, porque denunciamos nos grupos. No caso desses bares, eles acham que o que chama cliente é o som, e aí fica cada um disputando quem coloca mais alto. Aí pronto, a Sedur vem”, explica Matta.  

A Sedur afirmou que o Tô Em Casa teve o alvará sonora embargado, mas já se adequou e já foi desembargado. Já o Parador Z1 foi notificado e autuado por estar com os índices sonoros acima do permitido. O auto de infração pode gerar multa que varia entre R$ 1078 a R$ 169 mil. 

O presidente da Associação diz, no entanto, que, no geral, o bairro está sem aglomerações. “Está mais ou menos sob controle. Tem música alta, mas não está tendo confusão nem bloquinho”, conta. Apesar do número de denúncias ter sido na Barra, os moradores não têm sido incomodados pelo barulho. “O bairro está sem aglomeração, com fiscalização ativa”, diz a presidente da Associação de Moradores e Amigos da Barra (Amabarra), Caroline Silva.  

PM encerra três paredões 
Ao todo, a Polícia Militar encerrou três festas irregulares tipo “paredão”, além do bloco em Matatu de Brotas, no domingo (27). As ações ocorreram na capital, Região Metropolitana e interior da Bahia. No caso do bloquinho clandestino, a PM informou que foi até o bairro através de denúncias de que um bloco com cerca de 40 pessoas fantasiadas, usando equipamento sonoro, estaria na rua Alberto Torres, bairro de Matatu. 

“Após contato com o organizador do evento, foi constatado que não havia autorização para realização da festa. De acordo com o comandante da unidade, major Sérgio Almeida, os participantes foram dispersados e a Transalvador acionada para remoção de um veículo com irregularidades, que estava no local”, informa a PM, por meio de nota.  

O paredão em Salvador foi feito na rua Guaratinga, localidade da Baixa Fria, no bairro da Boca do Rio. “Duas guarnições da 39ª CIPM foram encaminhadas. Ao chegar, policiais militares deixaram as viaturas estacionadas e resolveram a situação. Ao retornar, foi verificado que alguns pneus das viaturas estavam furados. Foi solicitado apoio à Transalvador, que enviou guinchos. Não houve prisões e nem apreensões”, completa a instituição. As outras infrações foram em Monte Gordo, na RMS, e em Mucuri. 

A Ouvidoria-Geral do Estado da Bahia (OGE/BA) e Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) não responderam à matéria até o fechamento desta edição. A Polícia Civil também foi procurada, mas, como só pode enviar dados com 48h de antecedência, não havia tempo hábil para resposta.    

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