AmarElo resgata personagens que o Brasil fez questão de omitir da sua história

entretenimento
08.12.2020, 06:00:00
Atualizado: 08.12.2020, 20:31:49
Drik Barbosa, Zé Santiago, Emicida, Pabllo Vittar, Majur e MC Tha nos bastidores do show no Theatro Municipal (Foto: Jef Delgado)

AmarElo resgata personagens que o Brasil fez questão de omitir da sua história

Documentário é publicado na NetFlix nesta terça (8); CORREIO assistiu de forma antecipada

Uma história muito bem contada e que vale a pena assistir. A Netflix lança nesta terça-feira (8) o documentário AmarElo: É Tudo pra Ontem, que será disponibilizado em 190 países. 

A obra dirigida por Fred Ouro Preto tem o show de Emicida no Theatro Municipal, em 2019, como espinha dorsal e explora a produção do projeto de estúdio AmarElo - último disco do rapper - ao mesmo tempo em que conta a história da cultura negra brasileira nos últimos 100 anos. 

No trabalho, estabelece-se um elo importante entre três momentos relevantes da história negra brasileira: a Semana de Arte Moderna de 1922; o ato de fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, pela valorização da cultura e de direitos do povo negro; e o emblemático espetáculo de estreia de AmarElo, que aconteceu no mês da consciência negra, em novembro, no imponente teatro paulista.

O CORREIO teve acesso ao documentário antes do lançamento oficial e as impressões que ficaram são muito positivas. O projeto vai muito além de um registro de bastidores e dá a oportunidade de conhecer a história de verdadeiros heróis do movimento negro do Brail - esquecidos por apagamento histórico ou por um desinteresse, um dos aspectos questionados dentro do filme.

Nomes como o de Tebas, um negro escravizado que é responsável por marcos importantíssimos da arquitetura de São Paulo até os dias atuais. Ele e outras figuras ganham a oportunidade de ter suas histórias resgatadas e  contadas com carinho. Mais do que isso, o documentário cumpre uma importante função de questionar o porquê desse arquivamento histórico e qual o peso da cor de suas peles nesse esquecimento.

“Meus sonhos e minhas lutas começaram muito tempo antes da minha chegada, mas pra isso fazer sentido tem que contextualizar algumas paradas”, afirma Emicida.

Apagamento
Durante os 90 minutos de documentário, os espectadores têm a oportunidade de conhecer um pouco mais de Emicida: suas descobertas, referências e a condução de uma estética de rap que vai de encontro com o que é produzido de uma forma majotária hoje e não é visto com bons olhos pelo artista.

“Estamos resgatando uma estética que tinha ficado para trás, com objetificação de corpos femininos, armas e drogas. Em todos os projetos de AmarElo, seja o disco ou os shows ou os documentários, eu falo sobre a importância de livros, de como eles mudam vidas e também são acessíveis para nós, pessoas pretas”, destaca Emicida, que lançou no mês passado seu segundo  livro infantil, E Foi Assim que Eu e a Escuridão ficamos Amigas.

Por mais contraditório que seja, os questionamentos intensos não trazem exatamente um desconforto a quem assiste. Com o seu carisma, Emicida faz com que a pessoa do outro lado da tela se sinta instigada e curiosa a responder as questões que ele levanta. Se temos um nome como Lélia Gonzalez, que deixou um legado tão grande para a nossa história e nosso entendimento  aqui no Brasil, por que motivos temos Angela Davis como a grande referência do femininsmo negro do nosso país? Essa pergunta, inclusive, é feita pela própria Davis.

No final das contas, assistir ao documentário AmarElo é bater de frente com uma dose generosa de carinho e amor para entender as vidas e as histórias pretas que contribuíram para a formação do Brasil e acabaram sendo apagadas em detrimento de outras mentes brancas - ou embranquecidas.

 Uma série de tensões fortes, que embrulham o estômago em algumas ocasiões, mas no final das contas soa como aquelas broncas de pai e mãe: é para o nosso bem, e feito com muito amor.

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