Ao pé do rádio: com internet limitada, alunos de cidade da Bahia sintonizam aula pela FM

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09.08.2020, 14:00:00
Atualizado: 13.08.2020, 11:11:16
Galera cola o ouvido no radinho e anota a aula (Fotos: Acervo pessoal e Prefeitura de Ruy Barbosa)

Ao pé do rádio: com internet limitada, alunos de cidade da Bahia sintonizam aula pela FM

Professores de município da Chapada Diamantina ensinam através da rádio local para que estudantes não fiquem para trás

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"Atenção, alunos da rede municipal, vai começar o programa Educação ao Pé do Rádio". Ao escutar essa chamada todas as quintas-feiras, às 14h, Davi Correia dos Santos, de 14 anos, põe o caderno na mesa e se presta a ouvir e anotar a aula semanal, transmitida pela frequência 103.7 FM, da emissora RB Líder. Morador da zona rural da cidade de Ruy Barbosa, na Chapada Diamantina, ele e outros cerca de 4,8 mil estudantes das 42 escolas ou creches públicas do município estão aprendendo por meio da rádio local — a alternativa encontrada para alcançar toda a comunidade, já que nem todos têm acesso à internet.

Prevendo o impacto no ensino com a suspensão das aulas na Bahia na metade de março, Dilma Pereira, coordenadora pedagógica da cidade, ficou preocupada com a meninada em casa sem acesso aos conteúdos e teve um estalo.

“Pensei: ‘Certo, nem todos têm celular e acesso à internet, mas como a gente pode chegar nesses alunos?’ E aí me veio na mente as duas emissoras da cidade. Sabia que uma delas tem potência mais alta, capaz de chegar nos locais mais distantes, daí tive a ideia de fazer um programa de rádio”, recorda. 

Enquanto as escolas particulares em todo o país avançam na adaptação para o ensino remoto pela internet, na Bahia mais de 1,5 milhão de casas ainda não têm acesso à rede, o que representa 30% dos domicílios existentes no estado, segundo a pesquisa mais recente do IBGE (2018). A taxa corresponde a quase o dobro da nacional, que é de 17% das casas. 

Conhecendo a realidade dos estudantes e tendo em conta que o rádio é o meio de maior penetração na pequena cidade de 30 mil habitantes, Dilma levou a ideia para a Secretaria Municipal de Educação (Semec), que aprovou o projeto e colocou em prática em maio. De acordo com a secretária Floriceia Alves, os professores preparam um módulo com quatro audioaulas por mês e a programação é dividida: os alunos dos anos iniciais do fundamental ouvem às terças e os dos anos finais às quintas.

As aulas tratam de temas transversais e já abordaram práticas de saúde durante a pandemia, a geografia da Serra do Orobó, localizada na região da cidade, curiosidades, momento musical, entre outros. Cada edição do programa tem duração de uma hora e sempre encerra com um dever de casa, geralmente uma redação. 

Além das aulas pelo rádio, a galerinha ainda recebe atividades impressas e livros de literatura, que são entregues mensalmente quando os pais ou responsáveis vão buscar os kits de merenda escolar. A secretária conta que a ideia de distribuir as obras literárias veio depois de assistir uma live da Secretaria de Educação do Estado (SEC) com a participação do educador português Antônio Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa.

“Ele falou sobre a importância do ato de ler e que se nós fizéssemos um aluno nosso ler pelo menos um livro nesse período em que eles estão em casa, já teríamos feito muito por esse aluno”, cita a secretária. 

Estudante do 9º ano da Escola Municipal Nivaldo Fernandes, no povoado Santa Clara, Davi Correia conta que já tinha o hábito de escutar o rádio e curtiu a ideia das audioaulas. “Acho muito legal porque vejo que é uma forma que os professores e a diretoria acharam para a gente não ficar atrasado. Mesmo de longe, consigo ampliar meu conhecimento”, conta ele, que até tem provedor de internet Wi-fi em casa, mas o acesso é só pelo celular. 

Dificuldades 
Cursando o 7º ano na Escola Carneiro Ribeiro, o aluno Fabrício Vasconcelos, de 12 anos, também só navega na web pelo smartphone e relata que, embora ache interessante a ideia da rádio, sente saudades do aprendizado presencial.

“Eu queria que a pandemia acabasse logo. Estudar pelo rádio é mais complicado porque a gente não está muito habituado a esse ensino, essa nova experiência. É legal, mas vejo que nem todos os alunos estão se interessando”, observa ele. Evangélico e ávido leitor da bíblia, Fabrício gosta dos exercícios do quadro Aurelinho, que propõe pesquisar o significado de palavras difíceis.

A mãe do estudante, Poliana Vasconcelos, avalia positivamente o fato de o filho ter algo com o que se ocupar no isolamento. “Ele está acompanhando certinho, estou sempre do lado ajudando com o que posso quando ele me pergunta. Quando a gente não sabe, corre logo no celular para pesquisar. Temos que incentivar, parar de tudo a tudo é que não pode”, considera ela.

Ainda segundo a secretária de Educação, o programa permite participação com perguntas e respostas que podem ser enviadas para um telefone WhatsApp. A prefeitura diz, inclusive, que tem recebido mensagens da comunidade de fora das escolas, como adultos e idosos que andam ouvindo e até mesmo respondendo as atividades passadas. É também através de grupos no WhatsApp com os pais que os professores têm acompanhado o desempenho das crianças e jovens, embora o projeto não seja substitutivo do ensino regular. 

“Com esse programa, nós queremos evitar a evasão escolar, manter o acolhimento. A gente quer ver eles participando, fazendo as atividades e assim observar o acompanhamento dele junto com a família, para não deixar eles sozinhos e manter o nosso vínculo”, conclui Dilma Pereira.

(Foto: Divulgação/Prefeitura de Ruy Barbosa)
(Foto: Divulgação/Prefeitura de Ruy Barbosa)
(Foto: Divulgação/Prefeitura de Ruy Barbosa)

Iniciativa é louvável, mas formato tem limitações
O uso do rádio é um retorno às origens do ensino à distância no país. Muito usado nas duas grandes guerras mundiais, esse meio de comunicação se popularizou e passou a ser usado por aqui na transmissão de cultura e conhecimento, com músicas, radionovelas e cursos profissionalizantes. Mestre em Educação pela Ufba e gerente executiva de Educação do Sesi Bahia, Cléssia Lobo avalia que o esforço da cidade é louvável porque busca garantir um princípio básico: o acesso ao conhecimento. 

A especialista indica que é preciso entender, no entanto, que cada ferramenta usada neste processo, seja ela o rádio ou a internet, vai demandar estratégias quanto à efetividade da aprendizagem. “Se nesse momento o que tem disponível é o rádio, ótimo. É melhor do que o estudante não ter acesso a uma mediação de um professor e nem a uma disciplina em casa, no sentido de organizar o estudo”, aponta. 

O uso destas novas ferramentas traz desafios que precisam vir acompanhados de soluções para diminuir seus possíveis impactos, como a não adaptação dos alunos. Cléssia cita, por exemplo, que em algumas áreas do conhecimento, o rádio sozinho não será suficiente para a aprendizagem. 

Diretor de Ensino e Inovações do SAS, plataforma de educação, Ademar Celedônio acredita que o ensino das disciplinas História, Geografia e Biologia podem transcorrer melhor no rádio, mas dificilmente o mesmo pode ser dito para Física, Química e Matemática, pela falta dos recursos para a visualização das fórmulas e cálculos. 

“Como ensinar um aluno a interpretar um gráfico pelo rádio? Nós temos percebido uma saída, que são os professores direcionando conteúdos importantes sobre fenômenos, que é algo que o Enem gosta de cobrar. Dá para falar dos efeitos da cadeia carbônica numa chuva ácida e até do recente derramamento de petróleo na costa brasileira. Tem que trazer tudo para o mais próximo da realidade para que o aluno tenha como imaginar”, exemplifica. 

Celedônio destaca ainda o poder dos podcasts, que são conteúdos de áudio que podem ser escutados quando queremos e não ao vivo, como na rádio, e que consomem poucos dados de internet. Os dois formatos, defende ele, são interessantes para promover um ensino interdisciplinar, reunindo professores de diferentes matérias para transmitir o conhecimento. 

Para Cléssia, o rádio sozinho realmente pode não ser suficiente. “Aquele conhecimento que chega por uma exposição unicamente oral talvez não seja entendido. Então, a escola pode pensar: Como fazer com que esses estudantes tenham iguais condições em relação aos outros que estão conectados à internet? A pandemia está demorando, já são vários meses e com um impacto muito rápido, que pode ressoar em gerações, então que busquemos efetividade porque de forma criativa dá para ter. A preocupação com a educação é uma iniciativa que sempre vai valer a pena com todas as possibilidades ao alcance”, comenta a educadora.


4 PODCASTS QUE PODEM AJUDAR NOS ESTUDOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES:

  1. Deixa Que Eu Conto (Unicef)

  2. Revisteen (Jornal Joca)

  3. A Terra É Redonda (Revista Piauí)

  4. E Se… (Samuel Leite)

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