Arroz fica 66% mais caro em um ano; veja como substituir o alimento 

salvador
21.04.2021, 05:30:00
Atualizado: 21.04.2021, 07:32:28
Arroz foi o segundo alimento que mais aumentou de preço nos últimos 12 meses, atrás somente do óleo de soja, que subiu 80% (Paula Fróes/CORREIO)

Arroz fica 66% mais caro em um ano; veja como substituir o alimento 

Preço subiu em Salvador e RMS e chega a R$ 7,98 

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O tradicional prato de feijão com arroz está com os dias contados na refeição dos baianos. O arroz é o principal vilão dessa desunião: o preço do agulhinha aumentou 66,06% nos últimos 12 meses em Salvador, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O arroz foi o produto com o segundo maior aumento no último ano, perdendo somente para o óleo, que subiu 80,19%. Já o feijão carioca registrou alta de 16,39% entre março de 2020 a março de 2021, o sexto que mais aumentou em relação aos 12 itens pesquisados.  

O Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) indica o acumulado um pouco inferior que o observado pelo Dieese. Para o IBGE, o aumento foi de 60,08% no preço do arroz, 12,39% para o feijão carioca e 33,77% para o feijão mulatinho, em Salvador e Região Metropolitana. O arroz também se encontra em segundo lugar e o óleo de soja continua no topo do ranking, com alta de 70,49%. O feijão mulatinho tem o décimo terceiro maior aumento. Na Bahia, ele inclusive superou a média nacional, de 26,09%. 

Quando se vai na prateleira dos supermercados, no entanto, esse aumento é bem maior. O quilo de arroz, que se encontrava antes por R$ 2,50 a R$ 3, agora entre R$ 4,99 e R$ 6,99.  Já o integral varia de R$ 3,98 (o pacote de 500g, ou seja, o quilo custa R$ 7,96) a R$ 7,98. Esses são os preços do Hiper Ideal no bairro da Pituba, o qual o CORREIO visitou na tarde desta terça-feira (20). O preço mínimo para a mesma quantidade de feijão chega a R$ 7,29, no caso do carioca, e a R$ 8,99, o preto.  

Consumidores mudam de marca para driblar aumento 
A professora Andrea Alves, 51, notou o aumento no último ano e começou a comprar feijão de outra marca. “Deixei de comprar o kicaldo para comprar o manolinho e a gente sempre vê se vale mais a pena comprar o feijão preto ou o carioquinha, para ir equilibrando”, conta Andrea, que mora com o esposo, mãe e filho. Lá ninguém abre mãe da dupla arroz e feijão - está na mesa todos os dias. Ela também reclama do preço da placa de 30 ovos, que custava R$ 10, agora está a R$ 17.  

A tática usada pela advogada Fernanda Rego, 37, é começar a substituir arroz pela salada e legumes. A média de consumo da família - ela, o esposo e dois filhos - é de, pelo menos, um quilo por semana. Para economizar, ela também tem optado por fazer as compras pelo aplicativo. “Tenho pedido mais pelo aplicativo, porque acabei achando mais prático, além de não ter contato com outras pessoas, e tem sido mais barato para mim, gasto menos”, indica Fernanda. 

A técnica de laboratório Joseane Nascimento passou a comprar uma marca diferente para o feijão. Crédito: Marcela Villar/CORREIO.

A advogada Maíra Souza, 33, não notou um aumento específico do feijão e arroz, mas sim do mercado em geral. “Está ficando cada vez mais cara a conta no final, o mercado tá dando muito mais caro com o mínimo. Antigamente, o que conseguia comprar com R$ 300, hoje em dia tá quase R$ 500”, relata a advogada, que mora com o marido e a filha. A sua principal queixa é a carne bovina. O aumento doeu tanto no bolso que ela passou a comer mais frango. Segundo o Dieese, a carne foi o terceiro item que mais encareceu no último ano, quase 32%. 

No Atacadão Atakarejo do Nordeste de Amaralina, os preços estão mais em conta que no Hiper Ideal. O arroz tem um custo atual de R$ 4,52 a R$ 5,89 e o feijão mais barato é o fradinho, encontrado por R$ 3,66/kg. O carioca está por R$ 5,26 e o preto, mais caro, por R$ 7,68. O público também notou o aumento. 

Para evitar o caixa, a aposentada Fátima Santos, 74, só aparece por lá de dois em dois meses. “Não dá para todo mês ficar vindo aqui, só venho de dois em dois meses para poder economizar e também não ficar toda hora na rua”, conta Fátima. Ela também tem trocado o arroz por verduras e farofa, além de ter diminuído a quantidade nas refeições.  

Assim como Andrea, a técnica do laboratório Joseane Nascimento, 55, começou a trocar a marca do feijão que comprava. “Comecei a comprar de uma marca mais em conta, só que também não adianta comprar de uma marca mais barata que você não conheça e o feijão ser duro. E o arroz comecei a substituir pelo macarrão, só que não sustenta tanto”, confessa a técnica. No mercado do bairro onde mora, na Garibaldi, chegou a encontrar o quilo de feijão por R$ 10. “E eu nem podia sair de lá para vir aqui, porque a panela já está no fogo”, relata.  

Mesmo de marca ruim, o aposentado Manuel Luiz, 71, não deixa comprar seu feijão. “Passei a escolher o mais barato, de marca ruim. É só você meter dentro d’água de hoje para comer amanhã que tá tudo certo”, aconselha Luiz. Quem entrou em cena foi também o macarrão e as verduras, quando encontra mais barato. “Tudo aumentou muito, a gente tá só sendo bombardeado. Como é que o salário da gente dá?”, questiona o aposentado, morador do Engenho Velho de Brotas. É a mesma coisa que faz a assistente de recursos humanos, Newane Ferreira, 36. “Tem que passar para outra marca inferior, e às vezes a gente varia, é o feijão só com farinha”, diz a moradora do Nordeste de Amaralina. 

O aposentado Manuel Luiz, 71, passou a substituir o arroz por verduras e até macarrão. Crédito: Marcela Villar/CORREIO. 

Por que subiu tanto? 
A supervisora técnica regional do Dieese, Ana Georgina Dias, explica que a subida de preço foi por uma combinação de fatores. “O câmbio desvalorizado em relação ao real fez com que os preços dos nossos produtos ficassem mais baratos, e os produtores têm mais estímulo para exportar do que manter no mercado interno. No caso do arroz, teve um fator inusitado porque, embora o Brasil não seja exportador, ano passado ele exportou mais do que costume por uma demanda maior do mercado internacional”, esclarece Dias.  

A técnica regional do Dieese ainda cita que houve uma leve redução da área plantada dos dois produtos em 2020 e 2021. Somado a isso, não há mais uma política do governo federal de estoque regulador. “Normalmente os governos adquiriam, sobretudo com grãos, e faziam estoques reguladores para se tiver qualquer problema entrar no mercado, em momentos de pouca oferta, e estabilizar os preços”, adiciona Dias.  

Ela ainda pontua que o que aumentou foi o preço acumulado nos últimos 12 meses. No mês de março de 2021, por exemplo, houve queda de 0,7% no arroz agulhinha e 0,44 no feijão carioca. Não há como estimar se essa tendência de aumento irá continuar, mas o cenário é promissor.  

“Como são vários fatores envolvidos, não temos como saber, mas o que a gente observa é uma queda no ritmo de alta, mas que não compensa a alta desse período de 12 meses”, completa Georgina. Os preços começaram a subir com mais expressividade em agosto e setembro do ano passado e a principal consequência é a perda do poder de compra do trabalhador. “Reduziu muito e a alimentação é o item mais básico, pesa mais para quem recebe salário mínimo. Esse item corresponde a 30 a 40% do salário, então o impacto é grande”, observa.  

O assessor agrônomo da associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), o engenheiro agrônomo Luiz Stahlke, disse que o que mais afetou o preço do arroz foi a falta de chuvas. “A produção é do Rio Grande do Sul, que teve falta de chuva na última safra e, por isso, aumentou o preço, porque a sazonalidade deu efeito na produção, que deu efeito nos preços”, defende Stahlke. “Já o feijão, principalmente o carioca, está agora em entressafra, o pessoal ainda vai plantar a segunda safra desse ano, então teve uma diminuição na oferta do produto”, analisa o engenheiro. Ele acredita que em julho ou agosto haverá uma tendência de queda nos valores.  

Para o Ibge, os aumentos acumulados nos últimos 12 meses, refletem o ano de 2020, quando houve redução na oferta dos dois produtos, por questões climáticas, e, no caso do arroz, por uma redução de área plantada no início do ano passado. Segundo o instituto, os preços baixos levaram os produtores a plantar menos. Também houve, em 2020, um efeito de demanda aquecida, por conta da pandemia da covid-19 e do auxílio emergencial. Nos dados de 2021, já se verificam deflações, no caso do arroz, e variações mensais bem menores nos feijões, o que indica um "ajuste" no preço em função de um certo desaquecimento da demanda. 

A Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) esclarece que o aumento do preço do cereal foi pelo alto custo de produção, que fizerem os produtores migrarem de insumo. “Os altos custos acabaram levando o produtor de arroz ao endividamento, bem como ao desincentivo da atividade, à migração deste produtor para culturas mais remuneratórias, como soja e pecuária, e redução da área de produção ao longo dos anos”, diz a diretora executiva da Abiarroz, Andressa Silva. Ela também cita o aumento das exportações e a demanda aquecida no primeiro semestre de 2020.  

“No primeiro semestre de 2020, o Brasil bateu recorde de exportação de arroz, o que acabou diminuindo a disponibilidade de oferta ano longo do ano e levando à necessidade de importação de arroz de terceiros países”, completa Silva. Com a oferta reduzida, os preços alcançaram picos superiores a R$ 110,00 a saca de 50 kg para a indústria, o que foi repassado para o mercado consumidor – que custava R$ 50 em março de 2020. Houve uma alta de 54%. A indústria acredita que os preços ao consumidor deverão se manter entre R$ 4,00 e R$ 5,00/kg.  

Segundo a Abiarroz, o arroz brasileiro é 70% colhido no Rio Grande do Sul. Outras regiões produtoras são Santa Catarina, Tocantins, Rondônia, Roraima, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Goiás, São Paulo e Paraná. A produção nacional deste ano está estimada em 11.094,8 mil toneladas, contra 11.183,4 da safra 2019/2020. Houve aumento da área plantada em 1,4%, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB).  

O Brasil produz, em média, 11 milhões de toneladas de arroz/ano. O país importa cerca de 1 milhão de toneladas e exporta cerca de 1.100 mil toneladas/ano, para um consumo estimado de 10.800 mil toneladas. Em 2020, a exportação foi de 1.813,4 e a importação de 1.280,8, para um consumo estimado de 11 milhões de toneladas. 

Preços do arroz e feijão em Salvador: 
Hiper ideal 
Arroz - de R$ 4,99 a 6,99/kg 
Arroz integral - R$ 3,98 (500g) a R$ 7,98/kg
Feijão - R$ 7,29 (carioca) a R$ 8,99 (preto) 

Atacadão Atakarejo  
Arroz - R$ 4,52 a 5,89/kg
Feijão - R$ 3,66 a 6,52 (fradinho), R$ 7,68 (preto) e R$ 5,26 (carioca)

Aumento dos alimentos em Salvador nos últimos 12 meses (fonte: Dieese) 
Óleo: + 80,19%
Arroz: + 66,06%
Carne: + 31,99%
Pão: + 22,78%
Açúcar: + 19,92%
Feijão: + 16,39%
Manteiga: + 13,70%
Leite: + 11,27%
Banana: + 8,83%
Farinha: + 6,76%
Café: -1,89%
Tomate: -34,35%

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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