Banho no Tietê e uber a SP: youtuber baiano ganha dinheiro com desafios na web

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11.01.2021, 14:05:00
Atualizado: 11.01.2021, 14:08:36

Banho no Tietê e uber a SP: youtuber baiano ganha dinheiro com desafios na web

Christian Balian já apostou R$ 10 mil na Mega, entrou no poluído rio Tietê e já foi até o Acre de carro

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Comprar o aplicativo mais caro da Google Play Store, viajar para outra cidade num carrinho de compras, tentar voar com mil balões de gás hélio, ir até outro país só para almoçar e voltar para casa. A lista de aventuras vividas pelo baiano Christian Balian, 29 anos, e transmitidas no YouTube é extensa. Nascido em Salvador, ele já ultrapassa 1,7 milhão de inscritos em seu canal e já vive com a renda dos vídeos.

A última loucura de Bailan -  quem é seguidor dele sabe: nada de normalidade; é sempre uma surpresa atrás da outra - foi gastar R$ 10 mil tentando a sorte na Mega da Virada. Sim, foram R$ 10 mil em bilhetes de aposta do sorteio, que saiu no último dia de 2020, com prêmio de R$ 300 milhões. Tantos bilhetes assim devem ter rendido alguma coisa, certo? Uma quadra, uma quina? Errado! A única coisa que ele diz ter ganhado foi decepção.

Vai um desafio aí?

Para entender o que está por trás de uma aposta tão maluca e de tantos vídeos que ele mesmo chama de absurdos é preciso contar a história do canal e voltar um pouco no tempo. Christian Balian ficou conhecido por produzir vídeos de desafios - com boa parte deles incluindo dinheiro - que chegam a contabilizar até mais de cinco milhões de visualizações. Ele também faz sucesso no Instagram, onde tem 173 mil seguidores, e no Twitter, onde expõe sua opinião para mais de 20 mil usuários.

Mas não foi assim que as coisas começaram. Em 2015, ele criou um primeiro canal, em que comentava sobre jogos eletrônicos, mas que não deu muito certo. Até que, em 2016, criou o canal atual, com um conteúdo mais voltado para piadas. Mesmo assim, o 15 likes de fama de Balian só chegou em 2019. 

“Foi a ideia que me achou. O que eu fazia não estava dando certo, tentei de todos os jeitos. Um dia eu estava vendo um vídeo de um youtuber dos Estados Unidos que atravessou uma ponta a outra do país de Uber; a corrida deu $10 mil. Aí eu pensei em fazer esse vídeo aqui, porque ainda não tinha nada parecido. Achei que tinha boas chances de dar certo”, disse.

E realmente deu. Ele conta que gastou tudo o que tinha conseguido guardar na poupança da época em que trabalhava como auxiliar administrativo e vendedor de loja, que era em torno de R$ 6 mil, para fazer o vídeo. O conteúdo foi um sucesso e foi aí que ele resolveu seguir essa linha. Os vídeos antes tinham de cinco a 10 mil visualizações e esse bateu três milhões. Com o retorno financeiro que teve, bancou os próximos dois vídeos. Ficou assim durante seis meses, até que começou a ganhar mais do que recebia. A partir daí, ele diz, foi só crescimento. 

O sucesso na internet veio com coisas que seriam difíceis de imaginar alguém fazendo, como ficar dentro do carro até a gasolina acabar ou passar o dia inteiro dentro do metrô. Ele já chegou a pedir um Uber de São Paulo a Salvador gastando R$ 5 mil, sendo que uma passagem de avião pelo trecho custa geralmente algo em torno de R$ 300. “O YouTube está muito popular, muita gente posta muita coisa. Os vídeos que fazem mais sucesso são os que, de alguma forma, ninguém fez ou não vai conseguir copiar”, analisa. 

O dinheiro investido na Mega da Virada sorteada no último dia de 2020 já estava reservado para mais uma aventura. Segundo o youtuber, o valor seria usado como prêmio em um desafio lançado há dois meses, quando ele espalhou 200 kg de palha no jardim da sua casa, em São Paulo, e desafiou algumas pessoas a encontrarem uma agulha no palheiro. Como ninguém conseguiu a proeza, o dinheiro foi para o jogo de loteria.

E maluquice dá dinheiro?

Para quem está se perguntando de onde ele tira tanto dinheiro, aqui vai a resposta: a cada 1000 visualizações nos vídeos, o youtuber pode ganhar valores entre 0,25 e 4,50 dólares - no Brasil, algo entre 1 e 19 reais. Isso varia de acordo com cada contrato e cada perfil, e as informações são sigilosas. O vídeo da Mega da Virada por de não ter sido sorteado, mas já acumula 565 mil visualizações, cobrindo o valor da aposta.

O vídeo de Balian com mais visualizações foi o que ele entra no Rio Tietê, o mais poluído do Brasil. O conteúdo soma mais de cinco milhões de visualizações, o que pode chegar a um retorno financeiro de até R$ 95 mil. Isso sem contar com os valores recebidos pela publicidade de produtos no canal. 

Mas Christian conta que a maior parte do dinheiro que ganha com um vídeo é usado como patrocínio para os próximos. “O que eu não uso nos vídeos eu guardo para o futuro e uso para ajudar meus amigos quando eles precisam investir em uma carreira, precisam de equipamentos, e também ajudo a impulsionar outros canais. Já consegui dar um carro para a minha mãe e estou conseguindo ajudar meu pai todo mês. Para mim mesmo eu não faço nada. Faço os vídeos, guardo dinheiro e faço pelos outros”, conta. 

O Natal de 2020 de Christian foi ao lado da família. Em São Paulo há dois anos para conquistar melhores oportunidades na área em que trabalha, ele matou a saudade dos pais, dos amigos e, principalmente, da praia. “Passei na praia de Vilas do Atlântico e comi lambreta e caranguejo. Comi até não aguentar mais”, relembra. 

Surfe e zero views nos estudos

Filho único de pais divorciados, Christian morou no Acupe de Brotas com a mãe até os 16 anos. Depois disso, foi para Lauro de Freitas, onde seu maior hobby era surfar. Não se interessava pelas aulas, repetiu o 1º ano do Ensino Médio e teve problemas com a mãe por conta disso. 

Ele diz que queria descobrir uma paixão. Passou alguns meses na faculdade de administração, mas diz que não se sentia feliz e completo. “Minha mãe uma vez me deu a condição: ou eu estudava ou saía de casa. Aí eu tentei, mas foi quando comecei o canal e acabei deixando de ir às aulas para editar os vídeos”, confessa. Hoje, o cenário é diferente.

"Minha mãe saiu da roça. Como que eu viro para ela e falo: ‘Mãe, estou largando a faculdade para fazer vídeo?'. Ela nunca iria entender isso, e eu nunca esperei que ela entendesse. Então tive esse atrito no começo sim, mas hoje ela adora o canal, assiste todos os vídeos, manda pra os parentes, faz propaganda”, conta. 

Quando encontrou o YouTube, mesmo antes do sucesso, encontrou também satisfação. “Quando eu vi que dava para fazer, para seguir uma carreira com isso, eu me apaixonei e fui até o fim. Meu conselho é: encontre o que você faria de graça só pelo prazer de fazer”. Christian afirma que o que vem conquistando é tudo que sempre sonhou e que trabalha com o que gosta. “Eu amo fazer esses vídeos, eu me divirto, nunca é nenhum sacrifício para mim viajar para outro país só para almoçar ou ir dirigindo até o Acre. Eu estou sempre me divertindo com tudo isso. Fazer os vídeos e ver os resultados e os comentários depois é a melhor coisa para mim”, completa. 

Ele fala que muitos vídeos surgem a partir de ideias do próprio público, as pessoas inscritas no seu canal, e que sempre gosta de trazer eles para participarem também dos “absurdos”, como já fez em uma gincana uma vez, mas a pandemia acabou pausando isso. Outro estilo de vídeo que curte é o que o permite ajudar as pessoas de alguma forma. “O vídeo que eu mais gostei de fazer foi o primeiro que fiz distribuindo dinheiro, em que eu dava gorjetas generosas para os motoboys de delivery, de R$ 200 reais, R$ 1 mil”. 

Outra aventura generosa foi no Natal de 2020, em que fez um vídeo contando que deu brinquedos para as crianças através das cartinhas dos Correios. “Eu fiquei muito animado em fazer porque eu já fiz vídeos ajudando outras pessoas e é muito bom ver a reação delas”. Ele comprou os presentes e entregou nos Correios. “Como eu não podia ver as crianças, por conta da pandemia, me certifiquei de que fossem os brinquedos mais caros e da melhor qualidade que eu encontrei na loja, e não um brinquedo qualquer só para fazer volume”.

Quando dá errado

E nem tudo são flores. Alguns vídeos envolvem coisas que podem ser bem perigosas. “Bastante coisa dá errado durante os vídeos, mas a que eu me lembro agora e que foi bastante perigoso foi quando a gente viajou de São Paulo até o Acre de carro e, em um determinado trecho, durante a noite, a gente quase atropelou um bezerro que estava no meio da pista sem iluminação nenhuma. Se a gente tivesse acertado ele, eu nem sei se estaria aqui conversando com você hoje. Foi um susto terrível, ia ser um acidente feio”.

Mas ele garante que tudo vale a pena e que se diverte em todas as aventuras. Na lista feita por ele mesmo com os vídeos mais loucos estão: “Fiquei 24 horas em alto mar com o Zoio”, “24 horas na ilha deserta ft Dilera e Psiu - Ilha de Tourette”, "Esvaziar uma piscina apenas torcendo toalha” e “Entrei no Tietê, o rio mais poluído do Brasil”.

Para o futuro, a ideia é manter vídeos cada vez mais loucos por agora e diminuir o ritmo mais para frente. “Daqui a 10 anos eu vou estar com 40 e não vou ter mais disposição para passar 24 horas no mar e ficar entrando no esgoto. Não vai dar mais”. Por isso, o foco vai ser a próxima aventura, que deve ser no Polo Norte, e o canal secundário Hora Épica, criado há duas semanas com o amigo Vladomiro.

A proposta do novo projeto é, em um estúdio, fazer vídeos diários, imitando um programa de TV. A partir da demonstração de produtos novos, os vídeos vão ser sem edição e sem cortes, mas com muito humor.

Junto com Vladomiro surgiu mais uma promessa para virar vídeo: se o canal conseguir somar um milhão de inscritos, os dois vão apostar R$ 15 mil na Mega da Virada em em 2021. Será que dessa vez vai dar certo?
  
*Com orientação da chefe de reportagem Monique Lôbo

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