Cada morte por covid reativa uma sensação de ameaça, afirma psicóloga

coronavírus
08.05.2021, 11:01:00
Atualizado: 08.05.2021, 17:26:51

Cada morte por covid reativa uma sensação de ameaça, afirma psicóloga

Brasil registrou mais de 200 mil mortes pela doença depois de já ter vacina

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A morte do ator Paulo Gustavo, na terça-feira (4), pesou para muita gente. Até quem conhecia pouco o trabalho do artista de Niterói, no Rio de Janeiro, sentiu a partida de um jovem de apenas 42 anos como se fosse alguém da família. No fundo, é como se as pessoas não acreditassem, de fato, que Paulo Gustavo seria mais uma vítima da pandemia.

É como se as pessoas vivessem a angústia de uma morte que poderia ser evitada, se o artista e milhares de outros brasileiros da idade dele já tivessem sido vacinados.

“A gente está vivendo um momento de muitas mortes evitáveis, então é uma sensação de ameaça que é reativada a cada morte dessas. É uma ameaça que vira concreta no caso da morte de uma pessoa pública, como Paulo Gustavo, porque a gente pôde acompanhar”, pontua a psicóloga Júlia Uchôa, especialista em psicologia hospitalar e que estuda luto, perdas e traumas.

Ela explica que a pandemia tem sido uma grande experiência de ameaça constante e que as pessoas vivem, diariamente, um sentimento de luto compartilhado. “A gente está falando de uma sociedade que está toda enlutada. E, agora, com essas experiências de morte que estão sendo tão escancaradas em todas as mídias, isso é um luto coletivo. Através da dor do outro, a gente chora e sofre as nossas dores”, afirma.

Leia a reportagem principal: A dor das mortes evitáveis: 200 mil brasileiros morreram após o país já ter vacina

O desafio, em momentos assim, é se adaptar, passar a viver essas perdas sem o contato, o cuidado que é tão peculiar entre nós, baianos, nordestinos. É uma adaptação constante, explica Júlia. “Até para sofrer a gente precisa de recurso. Para o baiano, para o nordestino, o contato físico é um recurso muito significativo. ficar sem isso é como se a gente fosse jogado no mar sem uma bóia, sem um apoio num momento de cansaço. Nesse início de ano, eu tenho percebido as pessoas muito frágeis, aparece mais ansiedade, frustração, desânimo”.

A terapeuta acredita ainda que este é um momento em que as pessoas precisam se cuidar - e cuidar das outras:

“Nós precisamos ser rede. Numa sociedade enlutada, todo mundo precisa cuidar um do outro: a gentileza, a empatia, tudo isso é importante. E cuidar do outro, pensar no outro também é pensar na gente”, diz.

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