Casa 'metralhada' e morte diante dos olhos: o duro desabafo de quem mora em Valéria

salvador
17.08.2021, 05:00:00
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO )

Casa 'metralhada' e morte diante dos olhos: o duro desabafo de quem mora em Valéria

Bairro foi palco de mais uma guerra entre facções criminosas e população está aterrorizada

Em mais uma demonstração do poder do tráfico, moradores do bairro de Valéria viveram outra madrugada de terror durante o confronto entre as facções Katiara e o Bonde do Maluco (BDM). O tiroteio iniciou por volta das 3h desta segunda-feira (16) e durou pouco mais de duas horas. “Ninguém conseguiu dormir. Parecia até o Rio de Janeiro”, disse uma moradora de Valéria. 

As balas de fuzis, metralhadoras, escopetas, pistolas e revólveres encontraram casas, carros e até o portão de uma escola estadual que, por conta disso, teve suspensas as aulas presenciais. Ainda durante o confronto, bandidos cortam os cabos de rede, deixando parte da região sem acesso à internet. Até o momento, não há informações de mortos e feridos. 

O embora o clima ainda seja tenso, os ônibus voltaram a circular na Nova Brasília de Valéria na manhã de segunda (16). Desde a sexta-feira (13) que os coletivos não entravam na localidade, após um tiroteio. 

O medo dos moradores de Valéria é pauta constante dos noticiários de Salvador. Em março deste ano, o CORREIO mostrou a situação de moradores que abandonaram suas casas crivadas de balas na Rua Penacho Verde, área dominada pela Katiara.

Ataque
O ataque da madrugada de sgeunda foi mais uma ação do BDM na tentativa de expulsar a Katiara, grupo criminoso mais antigo e com maior área de atuação no bairro.  De acordo os moradores, por volta das 3h, um bonde formado por mais de 15 homens munidos de fuzis, escopetas, metralhadoras, pistolas e revólveres saiu de Boca da Mata de Valéria, umas das localidades de domínio do BDM, e subiu pela Rua do Paraíso até chegar à Rua do Lavrador - região onde está a UPA de Valéria -, pertencente à Katiara.  

O grupo do BDM chegou em carros e com demonstração de força, atirando para todos os lados. Entre as Ruas do Lavrador e a Paulo Faustino, houve o confronto entre as duas facções. Casas foram perfuradas. “A minha sorte que eu estava dormindo no quarto dos fundos, porque senão teria morrido”, disse uma dona de casa, que teve a frente do imóvel crivado de balas nos portões da garagem, porta, fachada e a janela de seu quarto. “Eu não sei o que vou fazer. Não posso sair porque não tenho para onde ir”, disse ela, preocupada com a madruga desta terça (17). 

Casas amanhaceram com marcas de tiros do confronto entre traficantes (Foto: Arisson Marinho)


Outra moradora teve os vidros quebrados e a frente da casa também atingidos pelas balas. “Estou até agora em estado de choque. Não dormi. Aliás, ninguém aqui dormiu mais. Na hora, eu e meus filhos ficamos debaixo das camas até o dia raiar, quando eles foram embora de verdade”, relatou ela. 

UPA  
Um outro confronto aconteceu no Loteamento Boa Sorte, que fica defronte à UPA de Valéria e que é formado pelas Ruas da Esperança, da Liberdade e da Felicidade. As pessoas ouvidas pela reportagem disseram que várias casas foram atingidas durante o revide da Katiara à investida do BDM. “Foram muitos tiros. Foi uma madrugada de terror. Teve uma casa que foi toda metralhada. A sorte é que a moça que morava entregou a casa e foi para outro lugar com a família por causa dessa violência”, contou uma moradora. 

A UPA de Valéria funciona 24 horas e a reportagem encontrou com uma funcionária que trabalhou na madrugada. “A gente não sabia para onde pular. Todo mundo estava em pânico. Foi preciso os seguranças fecharem as portas de tanto tiro que foi”, relatou ela. Apesar da situação, a unidade de saúde funcionou normalmente na segunda. Quem foi lá em busca de atendimento, não escondeu o medo de um novo confronto. “Moro na Rua Dinah Gonçalves (conhecida como Bolachinha, onde o domínio é da Katiara) e lá está tudo tranquilo. Mas a gente fica com o medo de vir para cá, porque eles podem brigar a qualquer momento e as pessoas de bem podem ser vítimas de balas perdidas”, disse um homem, na porta da UPA.  

Além das casas, alguns veículos foram atingidos durante o conforto, como foi o caso de um caminhão-baú que estava estacionado na Rua do Lavrador, a poucos metros da UPA e da entrada do Loteamento Boa Esperança. O proprietário lamentou as duas perfurações na porta do veículo de trabalho. “Isso é muito revoltante. É o meu ganha-pão. Não tem mais como viver aqui”, disse que ele, que mora no loteamento. “Há duas semanas, por causa desta guerra, a frente de minha casa ficou cheia de marcas de tiro e já estava pensando em sair. Agora, depois dessa, vou procurar outro lugar para viver em paz com a minha família”, declarou ele.    

Veículos também foram atingidos durante tiroteio em Valéria (Foto: Arisson Marinho/CORREIO) 

Escola
Os moradores relataram ainda que, depois do embate no Loteamento Boa Sorte, o bonde do BDM deixou o local pela Rua Boca da Mata com destino à Boca da Mata de Valéria. No trajeto, dois homens desembarcaram de um dos carros em frente ao Colégio Estadual Professora Noêmia Rego e dispararam contra o portão. Em seguida, o mesmo carro retornou e pegou os criminosos. “Eles atiraram mais de deboche. Na hora dos disparos, insultavam o grupo rival”, disse o um morador que testemunhou de casa a ação dos bandidos.

Pela manhã, o diretor do colégio Edson Lima comentou o ocorrido. “ Desde a sexta que todos nós estamos vivendo esse clima de tensão aqui na comunidade. Em 20 anos aqui no colégio, essa foi a primeira vez que a escola sofreu um ataque desse e foi por isso que resolvemos suspender as aulas presenciais. Já na sexta, muitos pais já tinham decidido não mandar seus filhos hoje para aula. Não que a escola não seja segura, mas temendo que algo pudesse acontecer no trajeto”, disse Lima na segunda, a poucos metros de uma viatura e uma unidade móvel da Polícia Militar posicionadas em frente ao colégio. 

O diretor disse ainda que as aulas presenciais serão normalizadas após determinação da Secretaria Estadual de Educação (SEC).   

Internet 
Ainda de acordo com os moradores, antes do início do confronto, os integrantes do BDM arrancaram e queimaram fios de rede e algumas residências ficaram pela manhã sem acesso à internet. “Eles fizeram isso para evitar que a população compartilhasse na hora nos grupos de WhatsApp o que estava acontecendo, assim poderiam pegar o pessoal daqui de surpresa e evitar a chegada da polícia. Eles estão a cada dia mais inteligentes”, disse uma moradora. 

Durante a manhã funcionários de empresas de provedores de internet trabalhavam para reestabelecimento do serviço. “Não dá para dizer a extensão do problema e nem como conseguiram fazer isso. O que sabemos é que após o tiroteio, algumas casas estão sem internet. Não sabemos ainda de que forma o serviço foi interrompido”, disse um funcionário da Vi Telecom, uma das empresas que atua no bairro. De acordo com ele, cerca 100 casas estão sem o serviço.

Parte do bairro do bairro ficou sem internet devido à ação dos crimnisos (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Policiamento
Em relação à tensão instalada no bairro de Valéria, o major Valnei de Azevedo, comandante da 31ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM), disse que o policiamento foi reforçado. "Foi um evento isolado (na madrugada). Houve disparos para o alto. Ontem (domingo) à noite, o pessoal do Batalhão de Choque realizou a apreensão de dois menores de idade com droga dentro de um Uber. Após isso, na madrugada, houve esse evento de forma isolada. As guarnições vieram rapidamente e não mais encontramos os indivíduos", afirmou. A Ronda Escolar foi reativada no local desde 1º de agosto. "Vamos dar continuidade a esse trabalho".
 

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