China faz carne de porco 'virar ouro'; sem plano para o setor, Bahia perde negócios

economia
16.06.2019, 17:00:00
Atualizado: 17.06.2019, 06:46:28
((foto: ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento))

China faz carne de porco 'virar ouro'; sem plano para o setor, Bahia perde negócios

Exportação de carne de porco vive momento histórico, mas Bahia não aproveita por falta de plano de fomento para o setor

A Bahia está perdendo uma das maiores oportunidades de negócios do mundo. Apesar de ter um rebanho de 15 mil matrizes suínas, 500 mil animais registrados para abate por ano, e oito grandes granjas cadastradas, a suinocultura baiana representa menos de 1% da produção nacional. 

Com um plantel tão reduzido, mais de 60% da carne suína consumida na Bahia vem de outras regiões do Brasil, principalmente do Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais. Os três estados garantem ao Brasil a quarta posição entre os maiores produtores de suínos do mundo. 

É como se uma carruagem de ouro estivesse passando na frente e o segmento continuasse estagnado na Bahia. Agora um fator externo tem aumentado a sensação de potência desperdiçada. 

Com a peste suína africana (PSA) dizimando metade do rebanho chinês. Em 60 dias, o país asiático já aumentou em 51% o volume de carne comprado do Brasil. Nos últimos dois meses, os chineses importaram 21,1 mil toneladas. Mas nenhuma destas remessas saiu da Bahia. Não tem carne suficiente no estado, nem para o mercado interno, tampouco para exportação. 

“O que falta é o despertar para a economia e a geração de renda que este setor pode gerar na Bahia, é um potencial não aproveitado. Falta um plano de fomento para o setor. O Nordeste não tem tradição na criação deste tipo de animal e acaba servindo apenas de mercado consumidor”, afirma Júlio Farias, presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados da Bahia (Sincar/Ba). 

O presidente do Sincar, Julio Farias, defende que seja criado um plano de fomento para o setor: "Potencial desperdiçado" (Foto: Georgina Maynart)

Com uma produção acanhada, e os principais criadores brasileiros direcionando a carne para o mercado asiático, a oferta de carne suína já começa a diminuir. Na bolsa de mercadorias de Minas Gerais, principal parâmetro do mercado nordestino, o quilo do suíno vivo subiu de R$ 4 para R$ 5,60 nas últimas quatro semanas, um aumento de 40%. 

Já nas prateleiras da capital baiana o preço da carne suína para o consumidor final já sofreu elevação de 20% a 30%.

Ruim para o consumidor, excelente para os produtores, caso eles tivessem carne suficiente para vender. O Sincar estima que os produtores baianos deixam de movimentar 1 bilhão e 100 milhões de reais por ano por não possuírem produção suficiente.

“Um dos maiores entraves é o custo de alimentação, porque a ração representa 70% do custo de produção de suínos. Ano passado os preços do milho e da soja inviabilizaram a criação destes animais, que também estavam com preços em baixa. Mas o principal problema frequente é a falta de estímulo por parte do governo e de incentivo à agricultura para que novas granjas sejam instaladas. O Nordeste precisa abrir os olhos para isso, tem condições e tem grãos”, acrescenta Farias.

Para atender o mercado interno baiano as granjas do estado teriam que aumentar a produção cerca de cinco vezes, até alcançar um volume de 2 milhões e 200 mil animais por ano. E nem se fossem somados os quatrocentos mil suínos criados de forma artesanal, e estimados pela Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB), o volume produzido atenderia à demanda. As principais unidades credenciadas estão concentradas nas cidades de Ipirá, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari e Barreiras. 

“Não há política pública para atração de grandes empresas, nem linhas de crédito específicas, nem incentivos para que possamos fazer um sistema de integração como acontece no sul do Brasil. Mas a federação tem todo o interesse em apoiar a suinocultura, inclusive fazendo parcerias para oferecer cursos para este segmento”, aponta Humberto Miranda, presidente da Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb).

Com quase 3 mil matrizes, uma das maiores granjas do estado, a JF Agropecuária, localizada na região metropolitana de Salvador, produz 60 mil suínos por ano e 6 mil toneladas de carne suína por mês. Um volume insuficiente também para atender a demanda. 

“A Bahia não pode deixar de acessar este mercado, principalmente neste momento. Nós temos problemas de estrutura. É um trabalho mais lento, mas que tem que começar em algum momento, e temos que contar com a conjunção de todos os órgãos”, aponta o médico veterinário Marcelo Plácido, presidente do Sindicato das Indústria de Nutrição Animal da Bahia (Sindinutri).

Os representantes dos órgãos oficiais reconhecem que a cadeia produtiva da suinocultura é insuficiente para atender a demanda do consumo interno, mas acreditam que o gargalo pode ser superado. A Secretaria Estadual de Agricultura (Seagri) informou que vem atuando para estimular o aumento da suinocultura no estado.

“Tenho feito incursões junto aos maiores produtores de suínos do sul do país para estimulá-los a virem para a Bahia. Os grãos são a maior fonte de alimentação dos suínos, e o nosso estado é o maior produtor desta cultura no pais, o que é um grande incentivo para a atração das cooperativas”, afirma Lucas Costa, Secretário de Agricultura do Estado da Bahia (Seagri).

O órgão também espera que os produtores do oeste da Bahia atuem de forma integrada para verticalizar a cadeia produtiva, aproveitando a abundância de grãos da região. 

A Bahia não é o único estado do Norte-Nordeste a ficar para trás no segmento de suínos. Dos nove estados nordestinos, nenhum exporta ou vende para outras regiões do país. 

A procura por carne suína vem crescendo no mundo inteiro. No Brasil não é diferente. O consumo por pessoa já chega a 15 quilos por ano, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). 

Bahia precisa aumentar cinco vezes a produção de suínos para atender o mercado interno. (Foto: Ministério da Agricultura)

Falta mão de obra 

Para tentar fomentar o segmento, nos últimos dois anos o governo estadual chegou a retirar a alíquota de 17% no imposto aplicado sobre produtos industrializados. Mas não adiantou. De lá para cá, o volume produzido continua sem alteração. 

Mas afinal, o que impede o crescimento da suinocultura na Bahia? Os especialistas apontam uma série de problemas. Desde a falta de mão de obra qualificada à pouca tradição da suinocultura no estado.

Manter a cadeia produtiva de suínos, dos leitões aos reprodutores, exige técnica apurada e atenção aos detalhes, tudo é cronometrado. As normas modernas de criação de suínos incluem controles rigorosos na alimentação, na cria e na reprodução. O sistema de criação é confinado, exige profissionais especializados em cada fase da produção e a presença de monitores nos galpões durante 24 horas. 

Os especialistas defendem que é necessário planejar o fortalecimento da produção do estado. Só assim os suinocultores baianos vão poder atender a tendência mundial de aumento no consumo deste tipo de carne. 

“O planejamento é essencial para ampliar a produção. Controle constante nas gaiolas de gestação, nas maternidades e em todo o ciclo reprodutivo. Além disso tem que ter mais matéria-prima para alimentar os animais e expandir o plantel. Os frigoríficos também precisam se adequar, criar novas indústrias, e aumentar o número de granjas”, afirma o médico veterinário Antônio Siqueira. 

De acordo com o Sincar, para iniciar uma produção básica, com ciclo completo da reprodução ao abate, com 50 matrizes, o investimento inicial é de 500 mil reais. Já para montar apenas um galpão para fazer a engorda, com no máximo mil animais, o investimento inicial estimado é de 200 mil reais.

"O Brasil tem boas condições para um grande crescimento da produção de carne suína. Acreditamos que o principal freio ao crescimento da produção está na dificuldade de comercialização da carne e dos seus produtos processados, tanto no mercado interno como no externo. Como o animal vivo deve ser abatido e sua carne preparada e processada, é necessário incluir nas necessidades uma planta industrial que conte com Serviço de Inspeção Federal (SIF). É recomendável que as agroindústrias e os produtores possuam um arranjo tipo 'produção no Sistema Integrado' que otimize a logística de produção e de comercialização", completa o pesquisador Dirceu Talamini, da Embrapa Suinos e Aves.

Granjas baianas produzem menos de 1% da carne suina consumida no Brasil. (Foto:Georgina Maynart)

Exportações

Os recentes números do mercado externo não poderiam ser melhores para quem pensa em entrar no segmento. O produto está em alta no mercado internacional, entre outros motivos, por causa das doenças que vem afetando o rebanho de outros países. 

No mês de maio as exportações brasileiras de carne suína cresceram 41% frente a abril, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Neste período o Brasil exportou 67,2 mil toneladas de suínos.

Com os preços em alta, o faturamento também subiu. Os suínos geraram 143,8 milhões de dólares, uma receita 54,6% maior do que no mês anterior. 

Os números confirmam as previsões que vinham sendo feitas nos últimos meses, desde que os primeiros focos de peste suína africana foram identificados na Ásia. Os chineses já representam 31,9% do volume total de carne suína exportada pelo Brasil.

“A questão sanitária vivida pela produção chinesa dá sinais mais fortes no ritmo de importações. A fatia da participação chinesa nas exportações brasileiras é a maior já registrada. A China se isolou como principal destino dos embarques brasileiros.  O efeito gerado no mercado pela crise sanitária no país asiático impulsionou as importações, o que gerou efeitos, também na rentabilidade do mercado, com elevação de preços médios”, explica Francisco Turra, presidente da ABPA.

O Vietnam, também afetado por focos de PSA, importou ainda mais carne. Elevou as compras em quase 7000%. Para abastecer o mercado interno, os vietnamitas compraram 1,82 mil toneladas da produção suína brasileira. O volume anterior não passou de 26 toneladas.

“A disrupção no mercado gerado pela China ocorre em um momento em que outros importadores relevantes incrementaram suas compras.  É há, também, as boas notícias vindas do México, para onde os embarques deverão ganhar novo impulso com a publicação de cotas adicionais de importação”, ressalta Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA.

Alguns países da América do Sul também estão importando mais suínos, como Chile (+99%), Uruguai (+68%) e Argentina (+54%). O crescimento da procura pela proteína animal produzida no Brasil tem incentivado os negócios dentro da cadeira produtiva da carne. Muitos especialistas apontam que a tendência de crescimento deve continuar, entre outros motivos, por causa da reabertura do mercado russo ao Brasil.

“A projeção da demanda por proteína animal para os próximos anos é de crescimento, devido ao aumento populacional e também ao incremento de renda dos países. Este crescimento implicará em maior produção e, consequentemente, maior intercâmbio comercial entre nações produtoras e países consumidores”, aponta Cíntia Santos, gerente de produtos da linha Suínos da Zoetis, uma das maiores fabricantes mundiais de medicamentos e vacinas para animais.


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